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Filhos, as vossas notas não são o mais importante para mim

– Mãeiiiiiiiii

– Sim Kiki [não é mãeiiiiiii. é apenas mãe, mas deixa lá isso agora]

– Mãeiiii tive 75% a inglês

– É uma boa nota Kiki. Parabéns.

– Mas é só bom mãe, não é muito bom.

– Kiki, de 1 a 100 quanto é que és feliz?

– 1 milhão mãe.

– Kiki, em percentagem, se tivesses de dar uma nota à tua felicidade quanto é que davas?

– 100%! Mãe. Eu sou 100% feliz.

E foi com esta resposta do Kiki que dei comigo a pensar no que é realmente o mais importante para mim. E embora vocês não tenham paciência para ler os textos longos da mãe, o texto de hoje é para vocês.

Meus filhos, meus Marias, meus amores maiores, as vossas notas não são o mais importante para mim. Vou repetir. As vossas notas não são o mais importante para mim. E se alguma vez eu disser que são, por favor obriguem-me a ler este texto em voz alta no mínimo 10 vezes. As vossas notas não são o mais importante para mim. No meio de tantas incertezas que envolvem as decisões da maternidade, aqui eu não tenho dúvidas.

Se quero que tenham boas notas? quero muito. Se quero que se esforcem e sejam bons alunos? quero muito. Mas há 10 coisas (se calhar até mais) que para mim são mais importantes que as vossas notas e não têm necessariamente de ser por esta ordem:

  1. Que entendam a ligação entre as palavras esforço e recompensa e que acreditem que essa ligação vai estar sempre presente em tudo na vossa vida, na escola, em casa, na amizade e no amor. Que aceitem que embora não exista recompensa sem esforço, poderá existir esforço sem recompensa
  2. Que saibam que o valor de uma pessoa está sobretudo naquilo que ela dá e recebe e que isso não se expressa em nenhuma escala de avaliação
  3. Que se cuidem e se protejam muito, cada um de vocês e entre vocês. Que sejam os melhores amigos e que confiem uns nos outros como em mais ninguém
  4. Que não me vejam como uma amiga mas como a vossa mãe e que se percebam que essa relação vai sempre ser mais forte que qualquer outra de amizade
  5. Que continuem a puxar-me para dançar na cozinha e que eu largue sempre tudo por uma dança a 2 ou a 5 (“a sério que até esta é mais importante que as nossas notas? mãeiiiii tem noção que a partir de agora vai ser ainda mais dançar e ainda menos estudar?”)
  6. . Que me peçam festinhas nas costas e que me surpreendam com abraços pelas costas
  7. Que continuem a invadir a minha cama pela manhã com beijos lambuzados e abraços prolongados
  8. Que aprendam que em casa todos devem participar nas tarefas e não apenas ajudar
  9. Que sejam honestos convosco e com os outros. Educados com os colegas e com os professores. Educados dentro da sala de aula, na cantina e no café em frente à escola. Que respeitem outras opiniões ainda que contraditórias à vossa. Que não defendam a vossa opinião só porque sim, aceitem mudar se assim vos fizer mais sentido. Que denunciem o que não acharem correcto e que estejam atentos a quem precisar de ajuda
  10. Que se lembrem sempre que EU ESTOU AQUI ♥
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Campeonato Mundial de Surf 2017 em Peniche
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Torneio RCS sub14 25NOV17
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Torneio RCS sub14 25NOV17

(RE)Encontrei-te a Sul

(RE)Encontrei-te a Sul, no meu então sul, sem saber que rapidamente te transformarias no meu Norte. Passaram já 19 anos desde esse dia. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Os primeiros 5 meses foram a 300 km de distância, com pouca calma e muita ânsia, e nem sempre nos víamos ao fim-de-semana. A primeira vez que pensámos fazer uma surpresa um ao outro escolhemos fazê-la no mesmo dia. O resultado foi um fim-de-semana cada um para o seu lado, no sítio onde cada um de nós esperava vir a surpreender o outro. Operação de charme mal sucedida mas que nunca ficará esquecida.

Não satisfeita com isso, aumentei a distância para quase 10 vezes mais. Eu nove meses em Inglaterra e tu nove meses aqui. O tempo a passar e o namoro a continuar. Quando cheguei entrámos juntos numa agência de viagens em Alcântara para marcar uma viagem, desta vez a dois, para o México. Encurtámos a distância para uma viagem mais perto e mais barata e saímos de lá  com dois bilhetes para uns dias no Funchal e mais uns tantos em Porto Santo. Ao fim de dois dias em Porto Santo (em Outubro de 2000 em Porto Santo estávamos nós, os empregados do hotel e o rancho folclórico que animava as noites no hotel e nós, para eles não desanimarem, dançávamos com eles) mudámos a viagem e regressámos ao Funchal.

Com os pés já assentes no continente pediste-me em casamento logo a seguir à nossa viagem. Aqueles dias nas ilhas tinham sido o máximo de tempo que tínhamos passado perto um do outro. Marcámos casamento para maio e antecipámos para fevereiro. Pediste-me em casamento num restaurante que já não existe (pouco tempo depois foi mandado demolir) com um anel que eu troquei na semana seguinte (e o problema não era apenas o tamanho).

Passaram já 19 anos desde o princípio dos dois. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Já nos magoámos e já nos perdoámos. Provavelmente vamos voltar a magoar-nos e espero que tenhamos a mesma vontade de nos voltarmos a perdoar. É metade da minha vida vivida contigo. Mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

É tudo mais do que alguma vez imaginei. Ou sonhei. É a minha vida toda presa no teu olhar em mim. É o teu olhar demorado pousado em mim. São os meus sonhos e os teus projectos. É o teu sorriso a entrar em casa. É o teu deixar-me ir e o meu regresso no teu abraço. É a tua clareza e a minha certeza.

És tu. Sou eu quando estou contigo.

Somos os dois.

[Também poderão gostar de ler: Um dia vamos voltar a ser dois]

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Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos?

Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos? Não me refiro aos imóveis, esses, como o próprio nome indica, não se mexem, portanto podem-nos deixar estar exactamente no mesmo sítio, onde sempre estiveram.

Eu digo as nossas coisas, as que andam connosco de um lado para o outro e que carregam as nossas impressões digitais, preferências e sentimentos. O que vai ser da minha fita azul do cabelo que eu só uso em casa ou na praia? Quem vai abrir e fechar os meus livros? E se lá dentro estiver alguma lista de supermercado antiga? Ou uma mensagem esquecida? Para onde irão parar os meus álbuns de fotografias? As fotografias dos meus pais e dos meus avós, algumas de familiares que os meus filhos e netos já não vão conhecer, nem sequer em fotografia? O que lhes fazem quando eu não estiver cá para lhes contar ou relembrar?

Até que geração se vai falar do Tio Pedro na minha família? Eu tenho filhos e muito provavelmente os meus filhos também terão filhos, eu poderei ser avó, bisavó, estando ou não presente fisicamente, há uma grande probabilidade de eu ser avó e bisavó. Mas o Tio Pedro não. Não teve filhos. É tio dos meus filhos e será tio avô dos meus netos – é assim, não é? mesmo não estando fisicamente connosco? Para mim é. Os meus filhos sabem quem é o Tio Pedro, já leram sobre ele, fazem perguntas e ouvem-me muitas vezes a recorda-lo. Mas irão eles falar dele aos seus filhos? Aos meus netos? Aos sobrinhos netos do Tio Pedro? Será que vão colocar nas suas casas uma fotografia dele? Quem é que se vai lembrar que ele uma vez caiu de bicicleta e foi no banco de trás comigo para o hospital, muito agarrado a mim, com a minha mãe a apitar e os 4 piscas ligados?

Voltando às coisas que são nossas e que são apenas coisas, mas que por serem nossas não são coisas iguais às coisas dos outros, tenho a certeza que ninguém deixa em testamento uma argola de prata comprada num quiosque na Zambujeira do Mar (tenho dúvidas se será mesmo prata, uma vez que tenho a parte de cima da orelha tão vermelha e a doer-me tanto, que  já só consigo deitar a cabeça do lado direito e se continuar a insistir a usa-la corro grandes riscos de perder não só a argola mas também a orelha esquerda). O Pedro, meu marido, muito experiente em furos (não destes, mas ainda sim tem experiência em furos, diz que a parte de cima das orelhas não foi feita para ser furada. Grande argumento Senhor Pedro, então e a de baixo foi?

O que vai acontecer às minhas cartas? As que recebi quando estava na universidade, a fazer ERASMUS ou mesmo as de início de namoro quando fiz 9 meses de INOV Contacto em Inglaterra – não posso deixar isso a ninguém – será que devo ser prudente ao máximo de as queimar já para ter a certeza que não vão um dia parar a um caixote de mudanças que por engano vai parar a um imóvel que não o meu? E todas as que eu escrevi e estão espalhadas em várias casas? Onde poderão ir parar? Será que alguém, para além do seu destinatário, as vai ler? Se bem que, pelo menos para mim, as minhas cartas, as recebidas e as enviadas, só têm interesse se forem lidas por alguém que me conheça. E, ainda assim, não têm muito interesse, a não ser os desenhos que o Pedro fazia quando não sabia o que me escrever ou para preencher a folha até ao fim. Ele não gostava de espaços vazios entre nós. Ainda hoje não gosta. Só nas noites muito quentes, aí mantemos a distância máxima. Nas restantes dormimos tipo lapas (ora porque queremos, ora porque temos filhos de lapas a ocupar o espaço quase todo da nossa cama).

Todas estas coisas que partilho agora vieram-me à cabeça nas férias, numa viagem de carro de Portimão até Olhão, no dia em que fomos à Ilha do Farol. Quando não estamos a trabalhar sobra-nos muito mais tempo para pensar em coisas nas quais habitualmente não pensamos. Nas férias também tenho sempre muitas ideias de negócios e criação de micro-empresas que nunca chegam a sair daí. Da minha cabeça. Mesmo sem saírem, na incubadora de empresas que mantenho dentro da minha cabeça facilmente se transformam em grandes empresas de sucesso com direito a case study e entrevistas para a televisão em horário nobre (isto já não existe, pois não? horário nobre na televisão?). Voltando à viagem de carro, encontrei na mala do meu carro a bolsa dos CDs do Tio Pedro. Abri a bolsa, sem pedir autorização (a sério que é só a mim que isto me faz confusão?) e mexi nos CDs. Aquela bolsa anda no meu carro há meses e eu nem sequer a pedi emprestada. E devia, porque ela não é minha.

Ouvi, ouvimos os 5, com reclamações e curiosidade dos mais novos e, da minha parte muita saudade, os CDs de Guano Apes e Silence 4. Ainda sei as letras de cor. A nossa cabeça consegue ser maravilhosa de uma forma surpreendente. Eu diria mais. Mágica.

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Conseguem ver a argola no furo de cima?

 

Oh meu querido ♥ ALENTEJO

Uma das coisas boas que a idade nos traz (agora assim de repente só me estou a lembrar de uma) é termos mais certezas do que gostamos, não gostamos e/ou adoramos.

Todos nós, de alguma forma, arrumamos na nossa cabeça as pessoas em pequenos grupos – digam-me por favor que não sou sou eu que faço isto – de acordo com as suas preferências. Ai! Eu passo a explicar. Não me interpretem mal. Não é bem arrumá-las em diversas categorias, é assim mais agrupa-las. É praticamente a mesma coisa, não é? E com que finalidade? Literalmente nenhuma. É que há tanta informação aqui dentro, e eu que até gosto de ver as coisas bonitinhas e arrumadinhas, que eu vou fazendo pequenos grupos, mas são só coisas minhas, para me darem alguma orientação.

Há as pessoas que gostam de bolas de Berlim com creme e as que nem lhes tocam se tiverem creme;  as que preferem Londres a Paris e as que lhes é completamente indiferente (really? então mas Londres tem alguma coisa que ver com Paris?); as que adoram Pink Floyd, as que nem por isso (eu) e as que preferem Pearl Jam (já vi duas vezes ao vivo e ainda quero MAIS); as que seriam incapazes de passar uma noite à porta da loja para comprar um bilhete para qualquer que seja o espectáculo e as que são (já eu, noites mal dormidas só em nome dos meus grandes amores e felizmente foram muito poucas); as que não se importam de acordar cedo e as que se importam sempre de acordar independentemente da hora (odeio fazer parte deste grupo); as que gostam de sardinhas e as que preferem carapaus (eu gosto mesmo é da salada algarvia em cima do pão molhado com a gordura da sardinha); as que praia é sinónimo de Algarve e as que não.

Pois eu, que toda a vida fiz férias no Algarve, estudei e adorei lá viver 4 anos incríveis (diz que há amigos dos meus filhos que já lêem o blog, não vou mesmo poder falar sobre isso aqui), sou Alentejo. Eu sou cada vez mais Alentejo. Sou petiscos, ondas e água fria. Sou percebes e pão alentejano com tudo (pão esse que ao fim de uma semana me provoca uns gases bastante incomodativos). Eu sou verão, mas com temperaturas amenas. Sou esplanada com o sol a por-se no mar. E que mágico é o por do sol no Alentejo. Sou camisola com capuz ao final do dia e manta na cama à noite. Sou manhãs de nevoeiro e cheiro a mar autêntico e verdadeiro.

Há qualquer coisa na costa alentejana que me deixa a alma tatuada (ainda não foi este verão que fiz uma tatuagem – é difícil escolher o quê). É aqui que eu sou mais eu e que encontro mais dos meus. Sou também Londres, bola de Berlim sem creme, Pearl Jam e festivais de verão. Sou família, amigos e manhãs mal humoradas. Sou sardinhas e sou Alentejo.

Mas porque somos 5 e há que respeitar as decisões e condicionantes da tribo, também sou Algarve. Sou o movimento dos primeiros dias de Agosto com os amigos todos a chegar. Sou praia e mergulhos até à noite (impossível no Alentejo). Sou pizzas Nosolo (vou conseguir assinantes para uma petição para terem na carta uma pizza de chourição picante) e sangria com bola de sorvete de limão. Sou ilha do Farol (um ano destes passo lá uma semana) e sunset no Cais Aqui. Sou sobretudo tudo o que mais gosto. Somos todos, não?

[Nota: estivemos pela primeira vez uma semana de férias em Odeceixe. No mapa já é Algarve mas em tudo o resto é Alentejo ♥]

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Café da Praia, Odeceixe
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Eu a pedir boleia, Odeceixe
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2 Pescadores apanhados desprevenidos, Odeceixe
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A vista da janela da sala, Odeceixe
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O meu mais novo, Odeceixe
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O meu do meio, Odeceixe
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Meus, Odeceixe
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À espera que ele se ponha, Odeceixe
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Foto pela minha amiga Sara, Aldeia da Pedralva

Vais viajar em trabalho? Então só tens mesmo é de aproveitar

O meu blog hoje é para todas as mães que são desafiadas, convidadas e/ou obrigadas a viajar em trabalho:

  • Aceitem o desafio. À excepção das saudades, tudo vai decorrer normalmente na vossa ausência. Vão todos comer, dormir e acordar, embora não necessariamente pela ordem que vocês gostariam. São só uns dias e o pai pode mudar os horários por uns dias. O pai também pode pedir ajuda aos avós, tios, vizinhos, padrinhos, amigos (vêem como podem contar com tanta gente?).
  • Não precisam de deixar todas as refeições prontas, afinal para que é que foi inventado o take away? E aquele livro do Jamie Olivier que o pai tem na cozinha e ainda nunca teve oportunidade de passar do prefácio? Talvez esteja na altura de entrar de cabeça no enredo principal da história.
  • Se o hotel onde estão for bom, peçam jantar room service uma noite e abusem das séries todas que estão em falta há meses.
  • Saiam à noite pelo menos numa das noites. Quando vai ser a próxima vez que podem sair sem pagar baby sitter? E dançar num sítio onde ninguém vos conhece?
  • Deixem a todos (marido, pai e filhos) um recado na almofada. Faço sempre isso quando faço uma viagem sem eles. Deixo um recado personalizado por baixo da almofada que normalmente eles só vêem quando se vão deitar. No outro dia encontrei um recado que deixei ao bebé Zé há 4 meses, sublinhado a cores por ele.
  • Não telefonem muito, os mais novos ficam ansiosos e confusos “afinal a mãe está onde? Parece tão próxima no telefone”.
  • Não tragam sempre presentes. Pode haver viagens onde não seja possível comprar nada e depois é uma desilusão enorme para todos.
  • Não stressem muito com aeroportos e afins (eu stresso). Bem sei que a nossa Europa aparentemente segura tem mostrado da pior forma toda a sua fragilidade, mas já que têm de ir, pois que seja com toda a confiança.
  • Aproveitem! Mesmo que em trabalho, uma viagem é uma viagem. É sempre uma oportunidade de conhecer outro país, outras cidades (e ainda estão a receber por isso).

São desafiadas a viajar em trabalho? Digam sim. Arrisquem na vossa vida profissional. Sermos mães só nos torne mais fortes e nunca menos capazes. Observem e aprendam. Regressem com saudades, não abusem nas ausências e aproveitem todas as vivências.

Também poderão gostar de ler: Seis dias em viagem, sem eles.

As fotos em baixo são de várias viagens de trabalho – não parece pois não?

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A rua onde eu cresci

Passei ontem na rua onde eu vivi e cresci dos 3 aos 18 anos. E de repente a rua pareceu-me muito mais pequena. E a casa onde eu morei 15 anos parece-me mais feia. Mudaram-lhe os azulejos, mas teria sido melhor tirarem-nos. Nunca gostei de casas com azulejos, pelo menos por fora. E agora moro numa casa cheia de azulejos por dentro. Já cá estavam e eu gosto deles. Mas não gosto dos azulejos que estão do lado de fora da casa onde eu vivi. E cresci. Gosto dos azulejos azuis da casa do meu vizinho da frente. Têm uma flor fina, são muitos, azuis clarinhos, e a flor clara também, muitas flores viradas para o mesmo lado, menos uma. E todas as vezes que lá passo a pé demoro tempo até encontrar a flor azul clarinha que está virada para o lado contrário de todas as outras. Terá sido engano ou propositado?

Nada me parece igual na rua onde eu vivi. E cresci. Só as memórias estão iguais. Mas nem as memórias. Essas parecem-me muito melhores agora do que as vivências naquela altura. E o meu irmão lá em todas as memórias.  E elas a subirem-me do coração até aos olhos. Sem passarem pela boca. Chegam aos olhos já molhadas. E espessas. Lágrimas espessas, que tal como no vinho, demoram mais tempo a cair. Marcam o caminho por onde passam, sejam o do copo para a boca, ou o do coração para os olhos, e dos olhos à boca, onde voltam a ser água.

Mas nessa rua, onde eu cresci e durante 15 anos vivi, foram poucas as lágrimas e nenhum o vinho que bebi. Bebi muitas vezes água do mesmo copo dos vizinhos, quando tomávamos de assalto as cozinhas com a porta destrancada. Sobretudo nas tardes em que o calor fazia tremer a linha do horizonte.

E a minha avó a querer que eu dormisse a sesta. E a casa a ficar toda escura para não deixar entrar o calor. E a televisão escura também. E as fotografias. Tudo escuro, tudo a preto e branco. Menos a minha avó. Menos as minhas avós. As duas eram feitas de cores alegres e gargalhadas demoradas. E as saudades que tenho delas. Saudades que às vezes parecem ser maiores que as memórias. E o meu irmão sempre lá. Nas memórias e nas saudades.

E o meu irmão ali, sempre ali, na rua a brincar, sempre com as faces rosadas, a subir às árvores e a jogar à bola. E os poucos carros que passavam interrompiam o jogo.

E o meu irmão aqui. Sempre aqui. Nas memórias e nas saudades. Nas lágrimas espessas e presas. Aqui. Sempre aqui.

Três filhos, três meses de férias

Três filhos com 7, 10 e 13 anos três meses de férias e eu com apenas três semanas. O fim do ano lectivo vem sempre carregado de temperaturas elevadas e preocupações agravadas. O que fazer aos três nos próximos três meses menos três semanas? Todos os anos parece tarefa impossível arrumar no calendário tantos dias de férias.

Se por um lado os quero no sossego do lar, e conhecendo desde já as boas qualidades da playstation enquanto babysitter, por outro lado não os quero a esborrachar sofá o dia todo e a clicar em botões sem parar. Mas esta semana estão os três em casa. Também lhes sabe bem acordarem sem outros planos que não sejam brigarem uns com os outros. Combinei com a nossa Maria José assegurar uma parte da manhã (normalmente só lá está em casa de tarde) e já só ficam a sobrar três meses menos as minhas três semanas de semanas e menos esta semana. Estes dias, embora eu esteja a trabalhar, também têm um sabor a férias. Acordo mais tarde (isto é tão importante para mim). Levanto-me mais tarde (e sim Pedro, custa-me mais a mim do que a ti). Visto-me apenas a mim. Arranjo apenas um pequeno-almoço (por acaso hoje para começar saí de casa sem comer nada) e não chego atrasada, ou se chegar… não posso culpar ninguém, sou eu a única culpada (quer dizer, bem vistas as coisas, nos restantes dias do ano em que me atraso sou eu a culpada e injustamente muitas vezes culpo os miúdos).

Para a semana o Zé Maria vai fazer um ATL da Câmara Municipal de Alpiarça, o Kiki vai para os Pirilampos e o João Maria preenche a agenda pela Bijou, escadas do seminário e piscinas dos amigos ou recebe os amigos em nossa casa. Na semana a seguir segue o João Maria para o último ano de Pirilampos (ainda bem que os manos estão em 2 semanas diferentes) e ficam o Kiki e o Zé juntos no ATL em Alpiarça. De seguida chegam as minhas três semanas de férias e entra, cheio de força, o enorme mês de Agosto.

Meu querido e longo mês de Agosto ao qual se junta a primeira quinzena de Setembro: vamos ter de elaborar juntos um plano em parceria com as avós, primas, Maria José, playstation, o tomatal e a piscina do nosso quintal.

Todos os anos é a mesma coisa e todos os anos temos conseguido resolver. Parece quase magia como é que conseguimos encaixar três filhos três meses de férias em programas planeados e outros que vão sendo inventados.

E por aí?

 

 

(des)ligada

Estou sem whatsapp há 3 dias. Facebook igualmente. Deixei ficar o instagram. Gosto de ver imagens sem legenda. Também gosto com legendas. Há 3 dias que não leio nenhuma declaração de amor nem nenhum comentário com rancor. Há 3 dias que estou mais (des)ligada. Desligada dos outros. Ligada em mim.

Nestes 3 dias que passaram vi mais e melhor as pessoas e falei mais e melhor com mais pessoas. Atendi chamadas de quem precisava mesmo de falar comigo e liguei a quem eu precisava mesmo de falar. Olhei mais e pausadamente para a pessoa que estava à minha frente na fila do supermercado e para a que estava ao meu lado no semáforo vermelho também. Perdi um almoço combinado com amigas e uma discussão de intrigas. Perdi ainda um vídeo novo de um bebe a rir e outro antigo de um ladrão a fugir. Já não oiço a música da Luciana Abreu há 3 dias. Nem a da Maria Leal. Talvez não tenha sido ainda suficiente o tempo para as esquecer de vez.

Devo ter perdido também algum aniversário, daqueles que celebramos na cronologia com “parabéns, beijinhos”. Eu por vezes acrescento “saúde e felicidades”, que é sempre bom de se desejar, nem que seja a um amigo do amigo em comum.

Tive finalmente tempo para ir aos correios levantar o último livro que comprei: “Dicionário de Erros Frequentes”. Que pequena grande maravilha. Tenho me divertido à brava. Até de manhã lhe pego, assim só para lhe tocar e espreitar se a foto de capa se mantém igual.

Protegi-me mais dos outros e sobretudo protegi os outros de mim. Escrevi mais. Trabalhei mais e melhor. Dormi mais e melhor. Desliguei-me das notificações e partilhei menos emoções.

Sobrevivi e usufruí. Já me apetece (des)ligar-me de novo ainda que saiba que novo já nem o cheiro a mofo.

Reajo a quente face a comportamentos mornos. Alguns dirão ser próprio da idade. Eu prefiro culpar este meu espírito de imaturidade. Ainda assim, prefiro-o à falta de verdade. Embora apenas por 3 dias, soube-me bem a ausência de mim nos outros e dos outros em mim. Talvez até, vivesse melhor assim.

E agora? partilho o texto onde?

Fotos PINTEREST.

 

Com o bom tempo vem também a falta dele

Com o bom tempo vem também a falta dele, dele do tempo, do tempo do pai. Os dias estão maiores e maiores são também as horas do final do dia, com o pai a chegar, por vezes, já depois da hora do jantar.

Eles são três. Mais os cães (2), mais a cabra (o Nando). E quando todos juntos, nem sempre se portam bem. Às vezes, mas assim só mesmo às vezes, apetecia-me entregar o tablet e os comandos da playstation também à cabra e aos cães, só que durasse o tempo de eu ver um episódio de uma série qualquer, ou de passar das primeiras 3 páginas da VISÃO.

Mesmo indo contra tudo o que sempre defendi, dou comigo a acenar-lhes, a todos, com a mão em movimentos na diagonal e grito-lhes num tom, que até poderia ser ameaçador, não tivesse uma voz de fina de leitãozinho que acabou de entalar a pilinha: “esperem só até eu contar isto ao vosso pai” “vou já ligar ao pai” “isto não vai ficar assim”. E logo a seguir lembro-me de como não gostava quando a minha mãe nos ameaçava com exactamente as mesmas palavras que eu debito agora contra a minha vontade.

Quando o pai abre a porta, entra e chama por nós, as queixas já passaram o prazo da acção, dando lugar a abraços e promessas de perdão. Sentados na mesa para jantar, e são quase todos os dias que jantamos juntos, mesmo que tarde e a más horas, disputamos ao segundo a atenção do pai. São várias as vezes que tenho de lhes pedir para se calarem “agora é a mãe a falar”. Dava jeito um sistema de senhas para ceder o palco às partilhas de todos. Na verdade, desde que comprámos a fiambreira que sentimos que também devíamos ter um dispensador de senhas, porque uma fiambreira, por norma, está sempre acompanhada de senhas e listas de espera.

É assim desde que me casei, já lá vão 16 anos e eu ainda não me habituei. Sempre que o calendário dita a mudança da hora para o horário de verão, o campo fica-nos com o melhor de nós, as horas que não nos permitem estarmos mais tempo juntos. Juntos os 2, os 5, os 8 (os cães e a cabra também devem sentir falta).

Chego até a ter saudades. Saudades da pessoa que vive na mesma casa que eu e se deita na mesma cama, ao meu lado, todos os dias.

Poderão ler mais reclamações aqui: Afinal, amanha devia ser sábado

 

Insuficiente ou insatisfeita?

Numa escala quantitativa de 1 a 100, qualquer nota igual ou superior a 50, é um resultado positivo. Para alguém como eu, não chegar ao 100, assumindo que faltou a diferença entre o resultado e o 100, ou pior, que errei o valor que quantifica essa diferença, qualquer resultado inferior ao 100 é insuficiente.

Se não chego onde quero, se o resultado é inferior ao que me propus, logo, é insuficiente. E pior que não chegar ao 100 é ter a certeza que nem sempre dou tudo em tudo o que faço, que nem sempre sou suficientemente capaz de dar o meu melhor.

Todos temos, mas especialmente todas as mulheres que são mães, papéis vários, que ora se distinguem, ora se aproximam e confundem-se entre si. Somos mães, mas continuamos a ser filhas, somos madrinhas e afilhadas, tias e sobrinhas, amadas e apaixonadas. E ao fim do dia, ou da semana, ou do fim-de-semana, ou das férias, ou do ano, a sensação é sempre que ficou alguma coisa por fazer. Ficou por responder aquele email que chegou com uma bandeira vermelha a gritar a sua prioridade, ficou por marcar a consulta do mais novo no ortopedista, ficou por devolver a chamada da minha mãe, ficou por reservar um fim-de-semana para dois, ou pelo menos um jantar naquele restaurante novo que já abriu há seis meses, ficou por marcar o almoço com a amiga que precisa tanto de desabafar, ficou por visitar o bebe que nasceu quase há um ano (no hospital não dá jeito, no primeiro mês a mãe está cansada, e já passaram 5 meses e a mãe já está a trabalhar), ficou por ver pelo menos um dos filmes nomeados para os oscars.

O mais velho já fez 13 anos no sábado, oficialmente um teenager, o que faz de mim, oficialmente, uma mãe de um teenager, com todos os desafios e desvios que isso nos traz aos dois. Eu acordei sem lhe ter comprado nenhum presente. Pior do que não ter comprado o presente, foi a sensação de não ter estado atenta o suficiente para sequer saber o que ele queria receber. Arrastei a minha querida sobrinha Maria comigo e com a minha falta de planeamento familiar (e não só), e em troca da melhor taça de açaí do mundo, rumámos em direcção aos 105 km de distância da loja preferida do João Maria. Com stress e após uma viagem express, fiquei feliz de saber que ainda acerto nos gostos do meu pequeno grande amor e a certeza que nunca mais deixo as compras para quem mais gosto para o último dia. Já no Natal eu tinha feito essa promessa, depois de ficar horas agarrada ao telefone a ligar para a MRW a perguntar pelos presentes que eu tinha encomendado a 3 dias da noite mais mágica do ano.

Serei mesmo insuficiente? Ou estou apenas insatisfeita comigo, nada que um bom filme e uma noite bem dormida não possam resolver? Agora vou só ali mudar a minha foto de perfil no Facebook. Aumenta-me o ego e entro na semana pronta para dar tudo.

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©Gonçalo Villaverde

Seis dias em viagem, sem eles

Desde há muitos anos que tenho de viajar em trabalho. Faz parte da área que escolhi. Fez parte do trabalho na agência de viagens onde estive 12 anos e faz parte do trabalho onde estou agora. Já deveria estar habituada, deveríamos estar, eu e eles, mas no momento de me despedir parece sempre a primeira vez.

Por experiência, reconheço que só lhes devo contar de véspera, ou até no próprio dia. Quanto maior for a antecedência que lhes contar, mais tempo andam a stressar com isso. A primeira viagem que fiz depois de nascer o João Maria, há cerca de 12 anos, ele tinha apenas um ano e um mês. Claro que me custou a mim o dobro do que lhe custou a ele. Quando cheguei o pai fez a surpresa de irem juntos esperar-me no aeroporto. Eu trazia uma mala cheia de saudade e necessidades, o bebé João encontrou no aeroporto um lugar cheio de curiosidades e tudo, nesse dia, tinha mais importância que o regresso da mãe. Não me esqueço do abraço que me deu, quando finalmente os seus olhos repousaram nos meus e se demoraram, para logo a seguir ficarem, os meus e os deles, molhados de alegria.

Cheguei ontem de uma viagem de seis dias, seis dias de mim sem eles e deles sem mim, seis dias que já terminaram e me trouxeram de volta a casa e aos meus. Foram também seis dias em que pensei que, para quem é mãe de 3 crianças pequenas, pode encontrar pelo menos 5 (pequenas grandes) vantagens em fazer uma viagem sozinha, de vez em quando.

  1. As malas – eu até gosto de fazer malas (detesto é desfazê-las), mas fazer mala para 5 é dose. Gosto de fazer apenas a minha mala, sozinha e com tempo, e poder escolher com calma o que vou vestir em cada dia.
  2. As manhãs – normalmente nas viagens de trabalho tenho de me levantar mais cedo do que o habitual, mas sabe-me bem vestir-me só a mim, descer as escadas e ter todo um pequeno-almoço já feito à minha espera, sem gritos, nem birras.
  3. As refeições – a preparação e a escolha das refeições numa casa de 5 é sempre um desafio. É bom estar 6 dias sem pensar no jantar e nos lanches da escola. Guardo sempre a terça-feira para almoçar com o mais velho e com a minha mãe. Também quero começar a organizar-me para conseguir almoçar uma vez por semana com cada um dos mais novos. Esta terça-feira não almocei com o João Maria, não fiquei à espera dele à porta do liceu (mesmo depois de ele já me ter pedido para eu esperar dentro do carro), não almocei a correr em casa da minha mãe, com ela sempre a pedir-me para comer só mais um bocadinho, não cheguei atrasada ao trabalho a seguir ao almoço.
  4. Um quarto de hotel e uma cama só para mim – esta não precisa de grandes explicações pois não? Uma cama sem visitantes de pés frios a meio da noite (mas que eu confesso que adoro e lhes digo muitas vezes que podem aparecer sempre que quiserem) e uma casa de banho só minha, que mesmo de porta aberta, tenho a certeza que ninguém vai entrar “Mãeeeee posso ficar aqui só um bocadinho?”
  5. Tempo para ler e pôr as séries em dia – tinha planeado adormecer com um braço por cima do mais recente do Afonso Cruz e o outro no écran do computador encostado ao  Jack e à Rebecca. Cá em casa sou só eu que delira com o This is us. O Kiki às vezes também gosta, mas eu desconfio que o que ele gosta mesmo é de se enroscar a mim na minha cama, enquanto eu respiro e me inspiro com a história fantástica desta família, ainda que seja apenas de ficção. Não li, nem vi um único episódio, e dei comigo muitas noites a pensar na falta que me fazem os beijinhos deles de boa noite, a pedirem que fique só mais um bocadinho, ou que conte só mais uma história.

É mais fácil não estar sabendo que eles estão bem, estão com o pai que se esforça nestes dias para que eles sintam o menos possível a falta da mãe. É verdade que me custa sempre ir e me sabe muito bem regressar, mas enquanto estou de viagem estou bem, e muitas das vezes até estou muito bem.

Se há metade de mim que lhe custa ir, há também a outra metade que quer sair, sentir, conhecer, ser, estar, saborear, viajar, e que me faz, de certa forma, sentir privilegiada por poder escolher fazê-lo.

verao2017 388

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