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Filhos, as vossas notas não são o mais importante para mim

– Mãeiiiiiiiii

– Sim Kiki [não é mãeiiiiiii. é apenas mãe, mas deixa lá isso agora]

– Mãeiiii tive 75% a inglês

– É uma boa nota Kiki. Parabéns.

– Mas é só bom mãe, não é muito bom.

– Kiki, de 1 a 100 quanto é que és feliz?

– 1 milhão mãe.

– Kiki, em percentagem, se tivesses de dar uma nota à tua felicidade quanto é que davas?

– 100%! Mãe. Eu sou 100% feliz.

E foi com esta resposta do Kiki que dei comigo a pensar no que é realmente o mais importante para mim. E embora vocês não tenham paciência para ler os textos longos da mãe, o texto de hoje é para vocês.

Meus filhos, meus Marias, meus amores maiores, as vossas notas não são o mais importante para mim. Vou repetir. As vossas notas não são o mais importante para mim. E se alguma vez eu disser que são, por favor obriguem-me a ler este texto em voz alta no mínimo 10 vezes. As vossas notas não são o mais importante para mim. No meio de tantas incertezas que envolvem as decisões da maternidade, aqui eu não tenho dúvidas.

Se quero que tenham boas notas? quero muito. Se quero que se esforcem e sejam bons alunos? quero muito. Mas há 10 coisas (se calhar até mais) que para mim são mais importantes que as vossas notas e não têm necessariamente de ser por esta ordem:

  1. Que entendam a ligação entre as palavras esforço e recompensa e que acreditem que essa ligação vai estar sempre presente em tudo na vossa vida, na escola, em casa, na amizade e no amor. Que aceitem que embora não exista recompensa sem esforço, poderá existir esforço sem recompensa
  2. Que saibam que o valor de uma pessoa está sobretudo naquilo que ela dá e recebe e que isso não se expressa em nenhuma escala de avaliação
  3. Que se cuidem e se protejam muito, cada um de vocês e entre vocês. Que sejam os melhores amigos e que confiem uns nos outros como em mais ninguém
  4. Que não me vejam como uma amiga mas como a vossa mãe e que se percebam que essa relação vai sempre ser mais forte que qualquer outra de amizade
  5. Que continuem a puxar-me para dançar na cozinha e que eu largue sempre tudo por uma dança a 2 ou a 5 (“a sério que até esta é mais importante que as nossas notas? mãeiiiii tem noção que a partir de agora vai ser ainda mais dançar e ainda menos estudar?”)
  6. . Que me peçam festinhas nas costas e que me surpreendam com abraços pelas costas
  7. Que continuem a invadir a minha cama pela manhã com beijos lambuzados e abraços prolongados
  8. Que aprendam que em casa todos devem participar nas tarefas e não apenas ajudar
  9. Que sejam honestos convosco e com os outros. Educados com os colegas e com os professores. Educados dentro da sala de aula, na cantina e no café em frente à escola. Que respeitem outras opiniões ainda que contraditórias à vossa. Que não defendam a vossa opinião só porque sim, aceitem mudar se assim vos fizer mais sentido. Que denunciem o que não acharem correcto e que estejam atentos a quem precisar de ajuda
  10. Que se lembrem sempre que EU ESTOU AQUI ♥
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Campeonato Mundial de Surf 2017 em Peniche
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Torneio RCS sub14 25NOV17
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Torneio RCS sub14 25NOV17

Vais viajar em trabalho? Então só tens mesmo é de aproveitar

O meu blog hoje é para todas as mães que são desafiadas, convidadas e/ou obrigadas a viajar em trabalho:

  • Aceitem o desafio. À excepção das saudades, tudo vai decorrer normalmente na vossa ausência. Vão todos comer, dormir e acordar, embora não necessariamente pela ordem que vocês gostariam. São só uns dias e o pai pode mudar os horários por uns dias. O pai também pode pedir ajuda aos avós, tios, vizinhos, padrinhos, amigos (vêem como podem contar com tanta gente?).
  • Não precisam de deixar todas as refeições prontas, afinal para que é que foi inventado o take away? E aquele livro do Jamie Olivier que o pai tem na cozinha e ainda nunca teve oportunidade de passar do prefácio? Talvez esteja na altura de entrar de cabeça no enredo principal da história.
  • Se o hotel onde estão for bom, peçam jantar room service uma noite e abusem das séries todas que estão em falta há meses.
  • Saiam à noite pelo menos numa das noites. Quando vai ser a próxima vez que podem sair sem pagar baby sitter? E dançar num sítio onde ninguém vos conhece?
  • Deixem a todos (marido, pai e filhos) um recado na almofada. Faço sempre isso quando faço uma viagem sem eles. Deixo um recado personalizado por baixo da almofada que normalmente eles só vêem quando se vão deitar. No outro dia encontrei um recado que deixei ao bebé Zé há 4 meses, sublinhado a cores por ele.
  • Não telefonem muito, os mais novos ficam ansiosos e confusos “afinal a mãe está onde? Parece tão próxima no telefone”.
  • Não tragam sempre presentes. Pode haver viagens onde não seja possível comprar nada e depois é uma desilusão enorme para todos.
  • Não stressem muito com aeroportos e afins (eu stresso). Bem sei que a nossa Europa aparentemente segura tem mostrado da pior forma toda a sua fragilidade, mas já que têm de ir, pois que seja com toda a confiança.
  • Aproveitem! Mesmo que em trabalho, uma viagem é uma viagem. É sempre uma oportunidade de conhecer outro país, outras cidades (e ainda estão a receber por isso).

São desafiadas a viajar em trabalho? Digam sim. Arrisquem na vossa vida profissional. Sermos mães só nos torne mais fortes e nunca menos capazes. Observem e aprendam. Regressem com saudades, não abusem nas ausências e aproveitem todas as vivências.

Também poderão gostar de ler: Seis dias em viagem, sem eles.

As fotos em baixo são de várias viagens de trabalho – não parece pois não?

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A rua onde eu cresci

Passei ontem na rua onde eu vivi e cresci dos 3 aos 18 anos. E de repente a rua pareceu-me muito mais pequena. E a casa onde eu morei 15 anos parece-me mais feia. Mudaram-lhe os azulejos, mas teria sido melhor tirarem-nos. Nunca gostei de casas com azulejos, pelo menos por fora. E agora moro numa casa cheia de azulejos por dentro. Já cá estavam e eu gosto deles. Mas não gosto dos azulejos que estão do lado de fora da casa onde eu vivi. E cresci. Gosto dos azulejos azuis da casa do meu vizinho da frente. Têm uma flor fina, são muitos, azuis clarinhos, e a flor clara também, muitas flores viradas para o mesmo lado, menos uma. E todas as vezes que lá passo a pé demoro tempo até encontrar a flor azul clarinha que está virada para o lado contrário de todas as outras. Terá sido engano ou propositado?

Nada me parece igual na rua onde eu vivi. E cresci. Só as memórias estão iguais. Mas nem as memórias. Essas parecem-me muito melhores agora do que as vivências naquela altura. E o meu irmão lá em todas as memórias.  E elas a subirem-me do coração até aos olhos. Sem passarem pela boca. Chegam aos olhos já molhadas. E espessas. Lágrimas espessas, que tal como no vinho, demoram mais tempo a cair. Marcam o caminho por onde passam, sejam o do copo para a boca, ou o do coração para os olhos, e dos olhos à boca, onde voltam a ser água.

Mas nessa rua, onde eu cresci e durante 15 anos vivi, foram poucas as lágrimas e nenhum o vinho que bebi. Bebi muitas vezes água do mesmo copo dos vizinhos, quando tomávamos de assalto as cozinhas com a porta destrancada. Sobretudo nas tardes em que o calor fazia tremer a linha do horizonte.

E a minha avó a querer que eu dormisse a sesta. E a casa a ficar toda escura para não deixar entrar o calor. E a televisão escura também. E as fotografias. Tudo escuro, tudo a preto e branco. Menos a minha avó. Menos as minhas avós. As duas eram feitas de cores alegres e gargalhadas demoradas. E as saudades que tenho delas. Saudades que às vezes parecem ser maiores que as memórias. E o meu irmão sempre lá. Nas memórias e nas saudades.

E o meu irmão ali, sempre ali, na rua a brincar, sempre com as faces rosadas, a subir às árvores e a jogar à bola. E os poucos carros que passavam interrompiam o jogo.

E o meu irmão aqui. Sempre aqui. Nas memórias e nas saudades. Nas lágrimas espessas e presas. Aqui. Sempre aqui.

Três filhos, três meses de férias

Três filhos com 7, 10 e 13 anos três meses de férias e eu com apenas três semanas. O fim do ano lectivo vem sempre carregado de temperaturas elevadas e preocupações agravadas. O que fazer aos três nos próximos três meses menos três semanas? Todos os anos parece tarefa impossível arrumar no calendário tantos dias de férias.

Se por um lado os quero no sossego do lar, e conhecendo desde já as boas qualidades da playstation enquanto babysitter, por outro lado não os quero a esborrachar sofá o dia todo e a clicar em botões sem parar. Mas esta semana estão os três em casa. Também lhes sabe bem acordarem sem outros planos que não sejam brigarem uns com os outros. Combinei com a nossa Maria José assegurar uma parte da manhã (normalmente só lá está em casa de tarde) e já só ficam a sobrar três meses menos as minhas três semanas de semanas e menos esta semana. Estes dias, embora eu esteja a trabalhar, também têm um sabor a férias. Acordo mais tarde (isto é tão importante para mim). Levanto-me mais tarde (e sim Pedro, custa-me mais a mim do que a ti). Visto-me apenas a mim. Arranjo apenas um pequeno-almoço (por acaso hoje para começar saí de casa sem comer nada) e não chego atrasada, ou se chegar… não posso culpar ninguém, sou eu a única culpada (quer dizer, bem vistas as coisas, nos restantes dias do ano em que me atraso sou eu a culpada e injustamente muitas vezes culpo os miúdos).

Para a semana o Zé Maria vai fazer um ATL da Câmara Municipal de Alpiarça, o Kiki vai para os Pirilampos e o João Maria preenche a agenda pela Bijou, escadas do seminário e piscinas dos amigos ou recebe os amigos em nossa casa. Na semana a seguir segue o João Maria para o último ano de Pirilampos (ainda bem que os manos estão em 2 semanas diferentes) e ficam o Kiki e o Zé juntos no ATL em Alpiarça. De seguida chegam as minhas três semanas de férias e entra, cheio de força, o enorme mês de Agosto.

Meu querido e longo mês de Agosto ao qual se junta a primeira quinzena de Setembro: vamos ter de elaborar juntos um plano em parceria com as avós, primas, Maria José, playstation, o tomatal e a piscina do nosso quintal.

Todos os anos é a mesma coisa e todos os anos temos conseguido resolver. Parece quase magia como é que conseguimos encaixar três filhos três meses de férias em programas planeados e outros que vão sendo inventados.

E por aí?

 

 

(des)ligada

Estou sem whatsapp há 3 dias. Facebook igualmente. Deixei ficar o instagram. Gosto de ver imagens sem legenda. Também gosto com legendas. Há 3 dias que não leio nenhuma declaração de amor nem nenhum comentário com rancor. Há 3 dias que estou mais (des)ligada. Desligada dos outros. Ligada em mim.

Nestes 3 dias que passaram vi mais e melhor as pessoas e falei mais e melhor com mais pessoas. Atendi chamadas de quem precisava mesmo de falar comigo e liguei a quem eu precisava mesmo de falar. Olhei mais e pausadamente para a pessoa que estava à minha frente na fila do supermercado e para a que estava ao meu lado no semáforo vermelho também. Perdi um almoço combinado com amigas e uma discussão de intrigas. Perdi ainda um vídeo novo de um bebe a rir e outro antigo de um ladrão a fugir. Já não oiço a música da Luciana Abreu há 3 dias. Nem a da Maria Leal. Talvez não tenha sido ainda suficiente o tempo para as esquecer de vez.

Devo ter perdido também algum aniversário, daqueles que celebramos na cronologia com “parabéns, beijinhos”. Eu por vezes acrescento “saúde e felicidades”, que é sempre bom de se desejar, nem que seja a um amigo do amigo em comum.

Tive finalmente tempo para ir aos correios levantar o último livro que comprei: “Dicionário de Erros Frequentes”. Que pequena grande maravilha. Tenho me divertido à brava. Até de manhã lhe pego, assim só para lhe tocar e espreitar se a foto de capa se mantém igual.

Protegi-me mais dos outros e sobretudo protegi os outros de mim. Escrevi mais. Trabalhei mais e melhor. Dormi mais e melhor. Desliguei-me das notificações e partilhei menos emoções.

Sobrevivi e usufruí. Já me apetece (des)ligar-me de novo ainda que saiba que novo já nem o cheiro a mofo.

Reajo a quente face a comportamentos mornos. Alguns dirão ser próprio da idade. Eu prefiro culpar este meu espírito de imaturidade. Ainda assim, prefiro-o à falta de verdade. Embora apenas por 3 dias, soube-me bem a ausência de mim nos outros e dos outros em mim. Talvez até, vivesse melhor assim.

E agora? partilho o texto onde?

Fotos PINTEREST.

 

Com o bom tempo vem também a falta dele

Com o bom tempo vem também a falta dele, dele do tempo, do tempo do pai. Os dias estão maiores e maiores são também as horas do final do dia, com o pai a chegar, por vezes, já depois da hora do jantar.

Eles são três. Mais os cães (2), mais a cabra (o Nando). E quando todos juntos, nem sempre se portam bem. Às vezes, mas assim só mesmo às vezes, apetecia-me entregar o tablet e os comandos da playstation também à cabra e aos cães, só que durasse o tempo de eu ver um episódio de uma série qualquer, ou de passar das primeiras 3 páginas da VISÃO.

Mesmo indo contra tudo o que sempre defendi, dou comigo a acenar-lhes, a todos, com a mão em movimentos na diagonal e grito-lhes num tom, que até poderia ser ameaçador, não tivesse uma voz de fina de leitãozinho que acabou de entalar a pilinha: “esperem só até eu contar isto ao vosso pai” “vou já ligar ao pai” “isto não vai ficar assim”. E logo a seguir lembro-me de como não gostava quando a minha mãe nos ameaçava com exactamente as mesmas palavras que eu debito agora contra a minha vontade.

Quando o pai abre a porta, entra e chama por nós, as queixas já passaram o prazo da acção, dando lugar a abraços e promessas de perdão. Sentados na mesa para jantar, e são quase todos os dias que jantamos juntos, mesmo que tarde e a más horas, disputamos ao segundo a atenção do pai. São várias as vezes que tenho de lhes pedir para se calarem “agora é a mãe a falar”. Dava jeito um sistema de senhas para ceder o palco às partilhas de todos. Na verdade, desde que comprámos a fiambreira que sentimos que também devíamos ter um dispensador de senhas, porque uma fiambreira, por norma, está sempre acompanhada de senhas e listas de espera.

É assim desde que me casei, já lá vão 16 anos e eu ainda não me habituei. Sempre que o calendário dita a mudança da hora para o horário de verão, o campo fica-nos com o melhor de nós, as horas que não nos permitem estarmos mais tempo juntos. Juntos os 2, os 5, os 8 (os cães e a cabra também devem sentir falta).

Chego até a ter saudades. Saudades da pessoa que vive na mesma casa que eu e se deita na mesma cama, ao meu lado, todos os dias.

Poderão ler mais reclamações aqui: Afinal, amanha devia ser sábado

 

Insuficiente ou insatisfeita?

Numa escala quantitativa de 1 a 100, qualquer nota igual ou superior a 50, é um resultado positivo. Para alguém como eu, não chegar ao 100, assumindo que faltou a diferença entre o resultado e o 100, ou pior, que errei o valor que quantifica essa diferença, qualquer resultado inferior ao 100 é insuficiente.

Se não chego onde quero, se o resultado é inferior ao que me propus, logo, é insuficiente. E pior que não chegar ao 100 é ter a certeza que nem sempre dou tudo em tudo o que faço, que nem sempre sou suficientemente capaz de dar o meu melhor.

Todos temos, mas especialmente todas as mulheres que são mães, papéis vários, que ora se distinguem, ora se aproximam e confundem-se entre si. Somos mães, mas continuamos a ser filhas, somos madrinhas e afilhadas, tias e sobrinhas, amadas e apaixonadas. E ao fim do dia, ou da semana, ou do fim-de-semana, ou das férias, ou do ano, a sensação é sempre que ficou alguma coisa por fazer. Ficou por responder aquele email que chegou com uma bandeira vermelha a gritar a sua prioridade, ficou por marcar a consulta do mais novo no ortopedista, ficou por devolver a chamada da minha mãe, ficou por reservar um fim-de-semana para dois, ou pelo menos um jantar naquele restaurante novo que já abriu há seis meses, ficou por marcar o almoço com a amiga que precisa tanto de desabafar, ficou por visitar o bebe que nasceu quase há um ano (no hospital não dá jeito, no primeiro mês a mãe está cansada, e já passaram 5 meses e a mãe já está a trabalhar), ficou por ver pelo menos um dos filmes nomeados para os oscars.

O mais velho já fez 13 anos no sábado, oficialmente um teenager, o que faz de mim, oficialmente, uma mãe de um teenager, com todos os desafios e desvios que isso nos traz aos dois. Eu acordei sem lhe ter comprado nenhum presente. Pior do que não ter comprado o presente, foi a sensação de não ter estado atenta o suficiente para sequer saber o que ele queria receber. Arrastei a minha querida sobrinha Maria comigo e com a minha falta de planeamento familiar (e não só), e em troca da melhor taça de açaí do mundo, rumámos em direcção aos 105 km de distância da loja preferida do João Maria. Com stress e após uma viagem express, fiquei feliz de saber que ainda acerto nos gostos do meu pequeno grande amor e a certeza que nunca mais deixo as compras para quem mais gosto para o último dia. Já no Natal eu tinha feito essa promessa, depois de ficar horas agarrada ao telefone a ligar para a MRW a perguntar pelos presentes que eu tinha encomendado a 3 dias da noite mais mágica do ano.

Serei mesmo insuficiente? Ou estou apenas insatisfeita comigo, nada que um bom filme e uma noite bem dormida não possam resolver? Agora vou só ali mudar a minha foto de perfil no Facebook. Aumenta-me o ego e entro na semana pronta para dar tudo.

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©Gonçalo Villaverde

Seis dias em viagem, sem eles

Desde há muitos anos que tenho de viajar em trabalho. Faz parte da área que escolhi. Fez parte do trabalho na agência de viagens onde estive 12 anos e faz parte do trabalho onde estou agora. Já deveria estar habituada, deveríamos estar, eu e eles, mas no momento de me despedir parece sempre a primeira vez.

Por experiência, reconheço que só lhes devo contar de véspera, ou até no próprio dia. Quanto maior for a antecedência que lhes contar, mais tempo andam a stressar com isso. A primeira viagem que fiz depois de nascer o João Maria, há cerca de 12 anos, ele tinha apenas um ano e um mês. Claro que me custou a mim o dobro do que lhe custou a ele. Quando cheguei o pai fez a surpresa de irem juntos esperar-me no aeroporto. Eu trazia uma mala cheia de saudade e necessidades, o bebé João encontrou no aeroporto um lugar cheio de curiosidades e tudo, nesse dia, tinha mais importância que o regresso da mãe. Não me esqueço do abraço que me deu, quando finalmente os seus olhos repousaram nos meus e se demoraram, para logo a seguir ficarem, os meus e os deles, molhados de alegria.

Cheguei ontem de uma viagem de seis dias, seis dias de mim sem eles e deles sem mim, seis dias que já terminaram e me trouxeram de volta a casa e aos meus. Foram também seis dias em que pensei que, para quem é mãe de 3 crianças pequenas, pode encontrar pelo menos 5 (pequenas grandes) vantagens em fazer uma viagem sozinha, de vez em quando.

  1. As malas – eu até gosto de fazer malas (detesto é desfazê-las), mas fazer mala para 5 é dose. Gosto de fazer apenas a minha mala, sozinha e com tempo, e poder escolher com calma o que vou vestir em cada dia.
  2. As manhãs – normalmente nas viagens de trabalho tenho de me levantar mais cedo do que o habitual, mas sabe-me bem vestir-me só a mim, descer as escadas e ter todo um pequeno-almoço já feito à minha espera, sem gritos, nem birras.
  3. As refeições – a preparação e a escolha das refeições numa casa de 5 é sempre um desafio. É bom estar 6 dias sem pensar no jantar e nos lanches da escola. Guardo sempre a terça-feira para almoçar com o mais velho e com a minha mãe. Também quero começar a organizar-me para conseguir almoçar uma vez por semana com cada um dos mais novos. Esta terça-feira não almocei com o João Maria, não fiquei à espera dele à porta do liceu (mesmo depois de ele já me ter pedido para eu esperar dentro do carro), não almocei a correr em casa da minha mãe, com ela sempre a pedir-me para comer só mais um bocadinho, não cheguei atrasada ao trabalho a seguir ao almoço.
  4. Um quarto de hotel e uma cama só para mim – esta não precisa de grandes explicações pois não? Uma cama sem visitantes de pés frios a meio da noite (mas que eu confesso que adoro e lhes digo muitas vezes que podem aparecer sempre que quiserem) e uma casa de banho só minha, que mesmo de porta aberta, tenho a certeza que ninguém vai entrar “Mãeeeee posso ficar aqui só um bocadinho?”
  5. Tempo para ler e pôr as séries em dia – tinha planeado adormecer com um braço por cima do mais recente do Afonso Cruz e o outro no écran do computador encostado ao  Jack e à Rebecca. Cá em casa sou só eu que delira com o This is us. O Kiki às vezes também gosta, mas eu desconfio que o que ele gosta mesmo é de se enroscar a mim na minha cama, enquanto eu respiro e me inspiro com a história fantástica desta família, ainda que seja apenas de ficção. Não li, nem vi um único episódio, e dei comigo muitas noites a pensar na falta que me fazem os beijinhos deles de boa noite, a pedirem que fique só mais um bocadinho, ou que conte só mais uma história.

É mais fácil não estar sabendo que eles estão bem, estão com o pai que se esforça nestes dias para que eles sintam o menos possível a falta da mãe. É verdade que me custa sempre ir e me sabe muito bem regressar, mas enquanto estou de viagem estou bem, e muitas das vezes até estou muito bem.

Se há metade de mim que lhe custa ir, há também a outra metade que quer sair, sentir, conhecer, ser, estar, saborear, viajar, e que me faz, de certa forma, sentir privilegiada por poder escolher fazê-lo.

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Também poderão gostar de ler sobre a última viagem que fizemos os 5: Os Cinco em Cinque Terre

Até à lua e voltar? Infinitos de infinitos?

É inquestionável o amor que sentimos pelos nossos filhos mas e o amor que eles sentem por nós? Quantas mães não ouviram já, ou leram em cartas e recados rasurados, gosto da mãe até à lua e voltar? Infinitos de infinitos?

O amor que os nossos filhos sentem por nós revela-se em cada pormenor do seu dia-a-dia e em cada acordar noite após noite. Felizmente, no que toca a noites, falo de barriga quase cheia. Os meus três filhos são quase três anjinhos a dormir, que dormem quase todas as noites pelo menos quase 10 horas seguidas.

O amor deles apresenta-se de todas as formas de arte que eles conhecem e dominam. Na arte da dramatização – com as birras de manhã para não ficarem na escola; na pintura –  com os desenhos que são, quase sempre sobre a mãe, que é, na maior parte das vezes, uma senhora alta, magra, de nariz largo e faces muito rosadas; na caça ao tesouro do conforto da cama da mãe em noites de pesadelos; no palco dos fins-de-semana por poderem ficar mais tempo na sala; na luta pelo lugar no sofá ao lado da mãe; na escrita criativa com as dedicatórias mais empenhadas e sobre avaliadas, confiantes que a sua mãe será sempre, ou pelo menos até serem adolescentes, a melhor mãe do mundo (esta parte da melhor mãe do mundo, a mim, sempre me deixou de consciência pouco tranquila, é só a mim?)

Naturalmente, com a idade, vão perdendo a vontade e o à vontade para grandes declarações de amor. Dos 3, o mais velho é o que, actualmente, menos se manifesta em relação aos sentimentos. Também eu, à medida que fui crescendo, deixei de escrever notas aos meus pais a dizer o quanto gosto deles. E gosto tanto. Já não faço desenhos com a cara deles colada ao peito, os braços a saírem da cabeça e os olhos colados às orelhas, já não lhes peço colo no centro de saúde quando vou às vacinas, nem chamo por eles a meia da noite quando há trovoadas. Também não lhes ligo de manhã a dizer que não me apetece ir trabalhar e que gostava de ficar a dormir até mais tarde ou, simplesmente, a esborrachar o sofá lá de casa.

Na semana passada, uma criança, a um dia de fazer 4 anos, morreu nos braços da mãe, sufocada com uma bola saltitona. Não quero explorar aqui a tragédia da história em detalhes – sei que é a vida, que por oposição à morte, se revela com toda a efemeridade e fragilidade, com retalhos que não são fáceis de cozer.

Basta um segundo para que tudo o que era, deixe de ser. Enquanto é, enquanto somos mães (e que o sejamos para sempre), enquanto somos filhas, netas, tias, enquanto somos sobrinhas, madrinhas e afilhadas, é dizer, falado, escrito e desenhado, as vezes que forem possíveis, com vontade e à vontade: Gosto de ti até à lua, ir e voltar, infinitos de infinitos. E mesmo depois, quando o que era já não é, vou continuar sempre a gostar de ti, até à lua e voltar, infinitos de infinitos.

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A avó Helena despediu-se! Outra vez.

Há 8, ou 9 anos, não me recordo se o Kiki tinha 1 ou 2 anos, que sugerimos à avó Helena que se despedisse por nós, e agora, foi a avó que pediu para se despedir de nós. Há 8, ou 9 anos, não consigo saber ao certo quantos, que a avó Helena tem sido a rede da tenda onde actuamos os 5.  A avó vai buscar à escola – e sortudos destes miúdos que não frequentam AEICs, ATLs e afins – , arranja os cereais, lava as chuteiras, prepara o jantar, dá boleia para o treino,  procura os pares das meias perdidas e encontra os legos debaixo do sofá.

Há já mais de um ano que a avó tem vindo a avisar, que muito em breve, deixaria de ser cozinheira, motorista e engomadeira, para voltar a ser apenas mãe e avó. E agora chegou a altura, em que a avó não entrega a chave, mas apenas a pasta, à recém-chegada MJ. Amanhã quando der o toque de saída, vai ser a MJ que está à porta da escola à espera dos meus filhos, para os trazer para casa e dar cumprimento ao horário a cores que está preso no frigorífico com ímanes de vários países.

Coincidentemente, a semana em que a MJ entra na correria dos nossos horários, é uma semana que eu vou ter de trabalhar fora de horas, o pai começa a chegar cada vez mais tarde, e a meio do mês tenho uma viagem de trabalho em que vou estar fora de casa, e do país, 6 dias. A MJ vai ser o nosso SOS e, com toda a certeza, um número que vai estar sempre nas 5 chamadas recentes. Vou esforçar-me para não abusar em telefonemas repetidos e recados excessivos, tarefas infinitas e preocupações desmedidas.

Eles vão sentir a falta da presença diária da avó, eu vou sentir da minha mãe, e a minha mãe vai sentir a minha falta e a deles. Vais, não vais mãe? Mas sabes qual é a melhor parte? Agora que já não nos aturas todos dias nem nos arrumas os pratos com as torradas frias. Agora que já não reclamas com a lama nos bancos do teu carro, ficas com mais tempo livre para nos convidar para aqueles almoços de domingo no teu tacho de barro.

Obrigada por tudo MÃE.

Obrigada pela forma como te dedicas a nós. A mim, aos meus e aos teus, à minha e à nossa família. Obrigada.

Amanhã de manhã ligo. E no dia a seguir também. E no outro. E no outro a seguir ao outro. Só para combinarmos o almoço de domingo.

Também poderão gostar de ler: Para ti, que és minha MÃE

avo

O meu nome é Patrícia e …?

Já vos aconteceu de certeza estarem num grupo e pedirem-vos para se apresentarem. Explicar quem são, de onde vêm, ou onde estão e para onde vão, em apenas duas ou três frases, que se pedem curtas e objectivas, mas que sirvam de legenda a quem acabou de vos conhecer.

Há umas semanas atrás pediram-me que me apresentasse a um grupo de 15 pessoas que tinham acabado de entrar no mesmo espaço que eu e que iriam passar as próximas 6, 7 horas comigo. Começou o que estava mais à ponta, e eu no meio, fui ficando cada vez mais inquieta, sem saber muito bem o que dizer quando chegasse a minha vez. Cada pessoa se tornava, à medida que falava, numa pessoa mais interessante que a anterior, e eu, naturalmente, também queria tornar-me interessante para os outros. De repente todas as outras histórias de vida que me estavam a ser apresentadas se tornaram muito mais interessantes que a minha.

Rapidamente chegou a minha vez, e eu, num discurso completamente desorganizado, dei início à minha apresentação. As palavras começaram desordenadamente a ultrapassar-me e eu distraí-me com o barulho do meu próprio pensamento. Não me lembro bem do que disse. Sei que contei que trabalho no departamento de promoção de uma associação de produtores de vinho, que sou mãe de 3 rapazes e que pertenço a um grupo de voluntariado.

Gostava de ter falado no meu blog e na razão pela qual o comecei a escrever. Na verdade, era essa a razão pela qual eu me tinha inscrito no workshop de phone photography, para poder melhorar a imagem digital do meu blog. Não foi por trabalhar com vinhos, nem por ser mãe de 3 rapazes, foi também pelo grupo de voluntariado, para poder melhorar a presença nas redes sociais, mas foi sobretudo para tirar o maior partido do meu telefone e melhorar as fotografias deste blog.

“Olá, eu sou a Patrícia e tenho um blog desde que o meu irmão morreu.” Seria esta a forma mais directa de me apresentar? Será isso aquilo que mais me define junto dum grupo de 15 pessoas que acabei de conhecer? Que impressão quero eu causar? A de alguém interessante para os outros ou que sintam compaixão por mim e pela minha história? E sentir-me interessante para os outros é importante porquê? Se calhar até não é. Mas a verdade é, que desde essa apresentação que tenho andado a pensar, que quando me voltarem a pedir para me apresentar, quero estar melhor preparada.

“Olá, eu sou a Patrícia, tenho 3 filhos rapazes e 2 sobrinhas raparigas. Trabalho numa área que gosto muito e, na maior parte dos dias, estou feliz com as minhas escolhas e com a vida que me é oferecida todos os dias. Faço o melhor bolo de iogurte do mundo (é da bimby, mas o meu é mesmo o melhor) e adoro viajar”.

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