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Filhos, as vossas notas não são o mais importante para mim

– Mãeiiiiiiiii

– Sim Kiki [não é mãeiiiiiii. é apenas mãe, mas deixa lá isso agora]

– Mãeiiii tive 75% a inglês

– É uma boa nota Kiki. Parabéns.

– Mas é só bom mãe, não é muito bom.

– Kiki, de 1 a 100 quanto é que és feliz?

– 1 milhão mãe.

– Kiki, em percentagem, se tivesses de dar uma nota à tua felicidade quanto é que davas?

– 100%! Mãe. Eu sou 100% feliz.

E foi com esta resposta do Kiki que dei comigo a pensar no que é realmente o mais importante para mim. E embora vocês não tenham paciência para ler os textos longos da mãe, o texto de hoje é para vocês.

Meus filhos, meus Marias, meus amores maiores, as vossas notas não são o mais importante para mim. Vou repetir. As vossas notas não são o mais importante para mim. E se alguma vez eu disser que são, por favor obriguem-me a ler este texto em voz alta no mínimo 10 vezes. As vossas notas não são o mais importante para mim. No meio de tantas incertezas que envolvem as decisões da maternidade, aqui eu não tenho dúvidas.

Se quero que tenham boas notas? quero muito. Se quero que se esforcem e sejam bons alunos? quero muito. Mas há 10 coisas (se calhar até mais) que para mim são mais importantes que as vossas notas e não têm necessariamente de ser por esta ordem:

  1. Que entendam a ligação entre as palavras esforço e recompensa e que acreditem que essa ligação vai estar sempre presente em tudo na vossa vida, na escola, em casa, na amizade e no amor. Que aceitem que embora não exista recompensa sem esforço, poderá existir esforço sem recompensa
  2. Que saibam que o valor de uma pessoa está sobretudo naquilo que ela dá e recebe e que isso não se expressa em nenhuma escala de avaliação
  3. Que se cuidem e se protejam muito, cada um de vocês e entre vocês. Que sejam os melhores amigos e que confiem uns nos outros como em mais ninguém
  4. Que não me vejam como uma amiga mas como a vossa mãe e que se percebam que essa relação vai sempre ser mais forte que qualquer outra de amizade
  5. Que continuem a puxar-me para dançar na cozinha e que eu largue sempre tudo por uma dança a 2 ou a 5 (“a sério que até esta é mais importante que as nossas notas? mãeiiiii tem noção que a partir de agora vai ser ainda mais dançar e ainda menos estudar?”)
  6. . Que me peçam festinhas nas costas e que me surpreendam com abraços pelas costas
  7. Que continuem a invadir a minha cama pela manhã com beijos lambuzados e abraços prolongados
  8. Que aprendam que em casa todos devem participar nas tarefas e não apenas ajudar
  9. Que sejam honestos convosco e com os outros. Educados com os colegas e com os professores. Educados dentro da sala de aula, na cantina e no café em frente à escola. Que respeitem outras opiniões ainda que contraditórias à vossa. Que não defendam a vossa opinião só porque sim, aceitem mudar se assim vos fizer mais sentido. Que denunciem o que não acharem correcto e que estejam atentos a quem precisar de ajuda
  10. Que se lembrem sempre que EU ESTOU AQUI ♥
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Campeonato Mundial de Surf 2017 em Peniche
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Torneio RCS sub14 25NOV17
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Torneio RCS sub14 25NOV17

É para ti.

Este texto hoje é para ti.
Para ti que perdeste o bem maior e mais precioso que a vida te deu.
Para ti que enfrentas diariamente o maior medo e o pior pesadelo de todas as que, tal como tu, são mães.

Deixa-me começar por te dizer que tenho perfeita noção que não conheço a tua dor. E é com todo o respeito que tenho por ela e por ti que não arrisco nenhuma palavra acerca dela. Quero apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes penso e nunca te disse.

Quero contar-te, hoje, que dou comigo, muitas vezes, a pensar em ti. Penso em ti quando distribuo pelos meus os beijos de boa noite. Penso em ti nas noites em que estou mais cansada e deixo a reclamação ocupar o lugar do amor que ambas carregamos no coração. Penso em ti quando me assusto. Penso em ti quando, mesmo com sono, o medo não me deixa adormecer. Penso tantas vezes em ti.

Gostava de te abraçar com a mesma força com que tu carregas o teu mundo de saudade. Com um abraço que, mesmo só por um momento, aliviasse a tua dor. Ou quem sabe até com um abraço que te fizesse ir lá acima, onde tantas vezes te imaginas a chegar, para logo a seguir te fazer regressar. Gostava de te pedir, e desculpa-me tanta ousadia, que aceites com amor os teus dias por cá. Mesmo aqueles que parecem não ter mais nada para agradecer.

Quero-te contar que as tuas pessoas estão sempre dispostas a ouvir-te. Mesmo as que nunca te fizeram nenhuma pergunta. Peço-te que não tenhas nunca receio que as tuas doces memórias possam incomodar alguém. E não te inibas de sorrir quando decides partilha-las. Nem de chorar. Gostava também que as tuas pessoas partilhassem mais contigo as suas alegrias. Não sei o que as impede de o fazer quando eu sei que tu continuas a sentir-te feliz pelos outros.

Sei que em dias de festa, nesta série de dias em que se transformou a tua vida, te falta sempre o actor principal.

Quero-te dizer que já chorei por ti. E que vou continuar a chorar. Este texto hoje é para ti. Quis apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes pensei e nunca te disse. 

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Imagem PINTEREST

Trabalhar a partir de casa?

Tanta vez acontece querermos muito muito uma coisa, até a experimentarmos, ou até ela se concretizar. E, na maior parte das vezes, não é bem como pensámos que ia ser. Quantas vezes não andamos a namorar durante semanas ou meses um casaco, uma mala ou umas botas e depois, quando finalmente ganhamos coragem para passar o cartão, “ah, afinal não é assim tão especial como parecia na montra”.

A comparação pode não ser a melhor, mas uma coisa eu tenho a certeza. Toda a mãe que tem crianças pequenas já sonhou, pelo menos uma vez na vida, com um trabalho perfeito, a partir de casa. Com horários (des)controlados por nós, com a casa sempre arrumada e uma secretária linda onde repousa um chá envolvido numa caneca que tem desenhada uma frase super inspiradora, daquelas que termina com um ♥.

O bebé Zé esteve (ainda está) ontem com uma alergia. Passámos a manhã no hospital e de tarde fiquei a trabalhar a partir de casa. Em dias de frio como o de ontem não há lugar mais desejado que a nossa casa. Mal entrei vi que não havia batatas para a sopa e fui num instante à mercearia comprar. Entrei no meu quarto para me descalçar e tive de fechar a porta rapidamente porque ouvia os pedidos de aflitos das minhas gavetas e pedir que as arrumasse. Fiz um chá. Liguei a braseira na camilha e pensei: “que luxo, estar assim em casa”. Mas não estava sozinha. O Kiki não tem aulas de tarde. O Pedro apareceu para acender a lareira (que querido). O bebe Zé pediu que lhe criasse um endereço de email e que jogasse monopólio com ele, apenas acedi a um dos pedidos. Criei um email que no nome do utilizador tem a palavra zezinho e só depois reflecti sobre isso, ao imagina-lo daqui a 10 ou 15 anos numa entrevista de emprego,”o meu endereço de email é zezinhomateiro …”

Eu que há anos que trabalho em open office com pessoas a entrar e a sair e o telefone a tocar, estava com uma dificuldade enorme em concentrar-me com o barulho dos meus filhos e com tudo o que estava à minha volta. Tive de ligar o spotify e colocar phones (a sério que o spotify fez uma playlist só para mim e a primeira música é Nothing’s Gonna Stop Us Now dosStarship?!). e pude cantar! No trabalho também canto mas com alguma contenção. Mas depois com os phones nos ouvidos estava preocupada por não ouvir o telefone, caso ele tocasse. Ou não ir a tempo de o atender só com o tempo que perco a pôr e a tirar aquela coisa enorme da cabeça.

Pessoas que trabalham em casa, não é super estranho fazer e receber telefonemas com a máquina da roupa a trabalhar? ou com o cão a ladrar? ou os miúdos no chão a brigar? É que em casa há toda uma série de barulhos muito diferentes dos que oiço normalmente no escritório.

Deu para perceber, em poucas horas, que trabalhar a partir de casa, como quase tudo na vida, tem vantagens e desvantagens, e não me parece que eu seria disciplinada o suficiente para o fazer. Mas admiro muito, e às vezes até invejo, quem tenha essa possibilidade e consiga corresponder. Eu, numa tarde, tive muito mais fome, mais conforto, menos concentração, mais sono, menos stress e a certeza que, a partir de casa, existiriam sempre mais horas extra.

É bom poder fazê-lo quando é preciso, mas todos os dias não sei se me adaptava.

Ainda há Pai Natal aqui em casa
Tive de usar os phones deles para me isolar do barulho que fazem a jogar
Inseparável da minha agenda de papel

Férias, irmãos, chocolate, família, viagens e amigos são a melhor coisa do mundo.

Férias, irmãos, chocolate, família, viagens e amigos são, para mim, a melhor coisa do mundo. E foi assim, com o melhor do mundo, que saí de 2018 e entrei em 2019. A fazer o que mais gosto. Eu que não ligo nenhuma à mudança do ano no calendário, não me sinto a renovar nem com necessidade de prometer nada nem a mim nem aos outros, nem espero mais do novo ano do que aquilo que eu estou disposta a dar, não perco a oportunidade de uns dias de férias para me gozar dos meus.

Estivemos os 5, com mais 5 amigos, uns dias em Baqueira Beret. Sair nesta altura do ano tem a desvantagem de ser uma das semanas mais caras sem direito a qualquer tipo de promoção ou desconto para famílias numerosas. É temporada alta e, em alguns casos, alta especial. O dinheiro que gastámos nestes dias (que falta de ar ver os movimentos na conta precedidos dum hífen) punha-nos aos 5 a banhos nas Caraíbas naquelas semanas da engorda de papo para o ar. Ou num cruzeiro pelas ilhas gregas. E o que eu gostava de ir à Grécia. E agora até tenho a desculpa de ter lá alojamento e amigos para visitar.

Mas quem gosta de neve, entende: não trocava estes dias por nada. Que sorte temos por gostarmos os 5 e termos a oportunidade de ir. Para o pai é uma altura óptima. É talvez a semana mais parada no campo. Para além de que, sairmos nesta altura, fica automaticamente decidido o que fazer na passagem de ano.

Há 02 anos, também nesta altura do ano, tínhamos estado em La Molina e eu lesionei-me numa queda de snowboard. No rabo. Aos invejosos posso assegurar que continua redondo e jeitoso. Aos curiosos foi apenas um osso fracturado. Uma queda sem jeito nenhum , é quase sempre assim. Prometi a mim mesma que ia mudar para o ski. E mudei. Com direito a algumas quedas e com muitas saudades do snowboard, o desafio foi superado. Embora em modo tartaruga, desci a montanha em cima de um par de esquis. Se a semana tivesse sido maior ainda arriscava um dia em cima da prancha.

Ficámos alojados a cerca de meia hora de Baqueira, onde a disponibilidade e o orçamento formaram o par possível. Numa família de 5 há várias condicionantes na escolha do alojamento. Queríamos apartamento mas que tivesse pequeno-almoço, queríamos que desse para cozinhar mas que também existisse a possibilidade de fazer refeições no restaurante do hotel. Devido à distância dos meios mecânicos, todos os dias tínhamos de pegar no carro. No final do segundo dia, no regresso ao hotel, o nosso carro avariou. Felizmente não passou de um susto. Mas sabendo que tínhamos os 3 miúdos sentados no banco de trás o susto foi mesmo grande. O carro perdeu a direcção assistida e ameaçou perda de travões. Tivemos de chamar a assistência em viagem e esperar 02 horas (escuridão total e sem conseguir ligar o aquecimento do carro) que chegasse o reboque. Muito antes do reboque chegou o socorro dos amigos que são como família e que, aliás neste caso até são mesmo família, que nos levaram os filhos para o spa do hotel (nada mau para um 3*) e nos fizeram o jantar. Como a sorte até estava do nosso lado, o carro foi reparado em 2 dias na melhor oficina de Esterri d’Aneu: a única que lá existe.

O que aprendemos com este susto: imprevistos podem sempre acontecer e não podemos deixar que isso afecte o que tínhamos planeado fazer – o carro esteve 2 dias na oficina e nós, com recurso a táxi e boleias, fizemos tudo como inicialmente previsto; nunca ficar sem bateria no telemóvel – neste caso teria sido impossível carregar o telemóvel no carro; conhecer bem as condições do seguro e assistência em viagem, ou melhor ainda, fazer um seguro de viagem; levar o carro à revisão antes de uma viagem grande (e nós levámos, mas pelo vistos não detectaram o problema); manter sempre a calma e transmiti-la aos miúdos.

Tirando este pequeno imprevisto, correu tudo muito bem. Não nevou mas fez sol todos os dias e as máquinas de fazer neve conseguem autênticos milagres; aprendi a fazer ski; descobri que ter aulas em grupo, mesmo para um adulto, é muito mais divertido que um professor particular (os espanhóis do meu grupo estavam malucos com a portuguesa); o Kiki continua um verdadeiro kamikaze e apanhou um susto porque se perdeu de nós (há 02 anos foi o professor que o perdeu numa aula); o Zé Maria, que não gosta de nenhum desporto, adora fazer ski, é super desenrascado a falar espanhol e mostrou que sabe muito bem tomar conta das suas coisas; relembrei que a melhor maneira de aquecer as mãos na neve é a segurar um chocolate quente; os 3 manos juntos souberam esperar uns pelos outros nas descidas (o Kiki menos) e sempre pela mãe (a mais lenta do grupo); vê-los a ajudarem-se uns aos outros e a ficarem felizes com as conquistas de todos não tem preço; um hotel de 3* para os 5 e com a companhia de amigos é melhor que um de 5* só para dois; férias, irmãos, chocolate, família, viagens e amigos são, sem dúvida, a melhor coisa do mundo.

O que custa mais na neve: o desconforto do peso do material e das botas de ski, as dores nos pés, as dores no corpo todo, o constante pingo no nariz, o preparar a roupa dos 5 todos os dias à noite, perguntar aos 3 mil vezes pelas luvas e pelos óculos, o preço das refeições nas cafetarias nas pistas, a distância de carro.

É inevitável, mesmo de férias, em alturas de maior cansaço, acharmos que as coisas podiam estar ainda melhores e que talvez daqui a um ano tudo poderá ser mais fácil. Que daqui a um ano o Zé já vai calçar e apertar as botas sozinho, que já vão todos arrumar a roupa ao final do dia quando se despem, que já vão poder ficar na piscina do hotel sem supervisão. Essa distracção de achar que para o ano é que é, por vezes não nos deixa ver como tudo está tão perfeito agora. Hoje. Lá. Aqui. Tudo é muito mais do que eu alguma vez sonhei. Assim. Eu, a mãe, o pai, o marido, eles pequenos a acordarem-nos de noite, os três a perguntarem-me onde guardei as meias. Ou os 4. Assim. Como estamos agora. Não é preciso esperar por amanhã ou pelo ano que vem para ficar melhor. Agora está tão bom.

Os meus mais velhos
The Big FIVE
Love you ALL
Nada mau para um 3* em Foros de Baqueira
ZéCé (como a sua professora o apelidou). Encontrámos o desporto do Zé
Os dois
A terminar 2018 com mais um desafio: mudei para o ski
Mano mais velho sempre a ajudar
Eu a ser eu
Meu Kiki Kamikaze
Feliz

E se?

13 Setembro 2005. Faltavam 1 ou 2 dias para terminar a licença de maternidade do João Maria. Primeiro filho. Primeiro sobrinho. Primeiro neto dos meus pais. Estava tudo bem. Estava tudo muito bem. Almocei em casa dos meus pais com a minha mãe e o meu irmão. Com o João Maria na cadeira do carrinho no chão da cozinha a sorrir para nós. E a minha mãe a dizer para eu pôr a cadeira em cima de uma cadeira da cozinha. E eu a dizer que no chão é mais seguro. Foi sempre um bebé tão fácil. Levava-o comigo sempre para todo o lado.

A minha mãe nessa altura fazia muitas feiras mas naquele dia estava em casa. Almoçámos os 3 bacalhau de cebolada da churrasqueira de São Domingos. Não sei se, passados 13 anos, 3 meses e 2 dias, mais alguma vez voltei a comer bacalhau de cebolada. Talvez até nunca mais me apeteça. Mas apetece-me sobretudo que a minha memória guarde todos os pormenores desse dia. Volto muitas vezes a eles, a esse dia. Hoje de manhã voltei e por isso os quis registar. Parte deles. Aqui. E se precisar deles sei que estão aqui. Foi a última vez que vi o meu irmão.

Durante o almoço perguntei-lhe há tempo não andava de mota. Não sei porque perguntei. Ainda hoje me arrependo de ter feito essa pergunta. E se… ? Há dias em que tenho receio de ter feito essa pergunta com algum gozo. “Então, compraste a mota e agora nunca andas nela?” sabem como são estas coisas de irmãos, meio provocar, meio implicar. E ele com aquela serenidade doce respondeu-me “não tenho tido dinheiro para a gasolina”. Mas nesse dia teve. Chegou por correio uma carta com um reembolso do IRS e ele pensou logo ir atestar a mota. E se… ?

Passei a tarde em casa com a minha mãe. O meu irmão tinha o quarto muito desarrumado. Acho até que estava pouco limpo. O João Maria adormeceu e eu arrumei e limpei o quarto do meu irmão, que em tempos tinha sido meu também. Ainda havia fotos minhas na cortiça pendurada na parede. Não sei se desleixe dele ou se gostava de ter ali as minhas fotografias. A minha mãe contou-me que ao final da tarde, quando chegou do trabalho, o meu irmão nem quis entrar no quarto. “Mãe, vou andar de mota, nem vou entrar no meu quarto para não o desarrumar. Até já, mãe.” E se… ?

O acidente aconteceu cerca de uma hora depois. Faleceu no local.

Foi a minha mãe que me contou. Por telefone. Ainda hoje me assusto com alguns telefonemas. E a minha mãe também. E o meu pai também. Todos recebemos a notícia por telefone. 

14 Setembro. Um dia depois. O meu pai quis sair cedo para ir comprar uma camisa toda preta. Vestiu-a logo na loja. Não lhe ficou nada bem. Para além de estar muito amarrotada e ter as marcas das dobras da prateleira da loja, era feia. Foi a camisa mais preta que eu vi até hoje. E se calhar a mais feia. Há dias que os olhos do meu pai ainda reflectem o preto dessa camisa. E as dobras também. Está tudo reflectido nos seus olhos. E eu não sei se sou só eu que vejo ou se as outras pessoas também vêem. Talvez algumas vejam. 

Já com a camisa preta vestida e a minha mãe vestida de preto também, e o João Maria com 5 meses feitos nesse dia entregue às amas que tomaram conta do meu irmão há 22 anos atrás, fomos os 3 – todos juntos agora já não éramos 4, éramos 3, mas para os 3, vamos sempre ser 4 – à Escola Prática de Cavalaria pedir a um primo nosso que levasse a notícia de nós os 3, de nós os 4, até à terra da minha avó. Seria muito doloroso ter de ligar a todos. À porta da E.P.C. o meu pai encontrou um amigo que lhe deu um forte abraço ao mesmo tempo que lhe dizia “É a vida, Costa. É a vida”. E eu no carro a pensar que era tudo menos a vida. Que a vida seria estarmos ali os 4. Embora que, para nós os 3, sejamos sempre 4, ainda dói (muito) só estarmos os 3. 

[continua…]

O caminho para a simplicidade

Não sei há quanto tempo sigo a página Pais com P Grande. Fascinam-me a sua escrita, a sua forma de estar na vida, de se dar aos outros e aos seus. Comecei por comentar alguns dos seus posts, trocámos algumas mensagens no messenger e a sua página é daquelas que ora me deixa em lágrimas, ora me deixa com um sorriso rasgado de emoção por tamanha gratidão. Em Junho deste ano começámos a falar com mais frequência. A Sofia estava a preparar uma das aventuras da sua vida e essa aventura ia trazê-la até mim, até Santarém, até Alpiarça, até à minha casa, até mim. Sem hesitar disse-lhe: “Sofia, vais ficar em minha casa. Quero muito receber-te.”

Só falei nisto ao Pedro e aos miúdos quando já estava muito perto da data e percebi que tinha mesmo de contar, só não sabia muito bem como.

– Meninos, vamos receber uma amiga da mãe cá em casa para a semana.

– É amiga da mãe?

– É.

– Mas a mãe conhece-a de onde? da Universidade? vive em França? já viveu numa carrinha? como assim? é hippie? tem tatuagens?

– Filhos, a mãe conheceu a Sofia na Internet.

Silêncio. E eu a ler os pensamentos do Pedro [Sim, senhora. Boa, Patrícia Alexandra. Eu aviso os meus filhos (porque é que quando não estamos de acordo os filhos passam a meus e teus em vez de nossos?) para não falarem com estranhos na Internet e tu, tu abres a porta da tua casa para uma estranha que conhecestes na Internet].

Chegou o dia de receber a Sofia. Com a chegada da Sofia chegou também a sua história, agora em primeira mão, do seu caminho de amor de Lisboa até Santiago de Compostela tendo como meta principal do seu destino: o AMOR cura tudo.  A Sofia apresentou-nos, a mim, à minha mãe, à minha sobrinha Maria, aos amigos que se juntaram a nós num final de tarde nas Portas do Sol, ao meu marido e aos meus filhos o seu caminho de amor. Mas eu percebi, no momento em que a abracei, que o seu caminho era também o da simplicidade e que o amor quando se revela, revela-se assim, simples como a Sofia.

Eu estava cheia de perguntas. Se bem me conhecem, eu não as poupo a ninguém, sobre a vida da minha nova amiga, sobre os desafios que teria de enfrentar até cortar a sua meta, sobre os meses que viveu com a sua família na Maria do Mar (têm mesmo de ler o blog da Sofia porque senão este meu texto fica demasiado longo). Eu desconhecia por exemplo que existem setas a indicar os caminhos de Fátima e Santiago Compostela em sítios onde eu passo todos os dias. Setas amarelas e azuis que eu nunca tinha visto. Estas são tão discretas que se revelam apenas a quem está a fazer o caminho, somente a quem está atento, assim como a Sofia se revelou a mim. Se estivermos muito ocupados com os pormenores não vimos o essencial e o essencial está, quase sempre, lá. Já dizia o Princepezinho “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

O mês passado estive, por desafio da minha amiga / colega / dream team Joana, num pequeno-almoço de networking só para mulheres. Eu adoro estas experiências e partilhas, adoro conhecer pessoas e ouvir as suas histórias embora fique sempre com a sensação que todas as outras histórias de vida são mais interessantes que a minha- não para mim – mas para os restantes presentes. Neste pequeno-almoço, quando chegou a minha vez de falar disse a todas que a minha vida era muito simples. Partilhei a história do meu blog e em poucas palavras falei daquilo que é o mais importante para mim. Eu que tinha estado tão entusiasmada a ouvir as histórias de todas, quando me calei senti também o entusiasmo das que me ouviam. E percebi que, muito provavelmente, a maior parte das pessoas (éramos um grupo pequenino mas muito rico em experiências) que ali estavam, aquilo que mais procuram e ambicionam é precisamente uma forma mais simples de (vi)verem as suas vidas. 

Uma vida mais simples e descomplicada. Mais com os que mais gostamos. Mais estar e menos ser. Mais ser e menos pensar. Menos desejar e mais agradecer. Mais sonhar e mais realizar. Menos falar e menos teclar. Mais ouvir e mais parar. Menos adiar e mais confirmar. Mais acreditar. Mais confiar. Mais amar. Mais do tamanho dos outros. Mais lado a lado. Mais bonito. Mais simples.

Querida Sofia, o teu caminho para a simplicidade é um ensinamento que eu não vou querer perder. 

Partilhas com amigos nas Portas do Sol
Nós e a Sofia.
Nada a ver com o texto. É só uma foto a fazer de conta que não sei que estou a ser fotografada.


FELIZ

Fiz o que sempre disse que não iria fazer

Sobre a bipolaridade das mães ou o efeito de um sábado fechada em casa e um domingo fora de casa à chuva (literalmente à chuva), por mera coincidência dois dias do calendário dos menos harmoniosos do mês (o DIU reduz em muito o efeito TPM mas não o elimina por completo). Este fim-de-semana fiz com dois dos meus filhos aquilo que disse que nunca faria. Estudei com eles. Estudei a matéria deles. Sentei-me ao lado deles a estudar, na esperança que eles, em estilo copy paste, estudassem também.

Eu que há uns meses escrevi um texto inspirador sobre tudo o que há de mais importante que as notas. Eu que sempre defendi, e continuo a defender, que o melhor que lhes posso ensinar é a saberem cuidar de si e a entenderem o efeito directo das consequências das suas atitudes, nomeadamente do seu esforço e da falta dele. Este fim-de-semana tive de alterar a minha tese de defesa e assumir que a autonomia de um adolescente a par com o seu livre arbítrio podem facilmente colidir com a minha vontade. Fiz o que sempre disse que não iria fazer. No sábado sentei-me com o mais velho a estudar e no domingo sentei-me com os dois mais velhos, a fazer o quê? novamente a estudar. Enquanto um me explicava numa voz quase adormecida os problemas económicos das pirâmides etárias dos países desenvolvidos, o outro respondia-me em inglês às perguntas que eu lhe fazia, e o Kiki com aquela cara fofa de Kiki admirado por me ouvir falar numa língua diferente da que uso quando lhe grito para ir tomar banho e não deixar nem a roupa espalhada no chão, nem a toalha molhada em cima da cama. E se eu experimentar chamá-los para a mesa em inglês? come on boys, dinner is on the table – será que resulta? E o Bebé Zé a reclamar que o fim-de-semana estava a terminar e que ainda não foi neste que o levámos ao cinema. É o segundo fim-de-semana que o Zé pede para ir ao cinema e não vamos. Esta semana vamos bebé, vamos antes de chegar o fim-de-semana querido Bebé Zé.

A Joana Paixão Brás do blog A Mãe é que sabe, perguntou ontem num post sobre o desafio de ter três filhos. E é isto que custa mais, Joana. Custa com a chegada do terceiro a falta de mais um par de braços, a falta de um terceiro colo, a falta de um dia extra de descanso pegado ao fim-de-semana. Custa não ter ido a Coimbra ver o jogo do Kiki para ficar com o João a estudar, custa não ter levado o Zé Maria ao cinema no domingo por ter ido a Alcochete acompanhar o jogo do João. É verdade que o amor se multiplica, mas o tempo infelizmente não. Hoje já é segunda. No próximo sábado trabalho. E entro na semana a pensar que este fim-de-semana dei tudo ao João, menos ao Kiki e tão pouco ao Zé. Fiz-lhe o seu bolo preferido, devolvi-lhe os comandos da playstation, que estavam hibernados desde segunda, e pouco mais.

Custa, e aqui nada tem a ver com o facto de ter 1, 2 ou 3 filhos, perceber que o mais velho passou pela primeira fase dos testes a estudar apenas para o suficiente. Sabendo eu que o suficiente não é suficiente, para além de que é a nota mais perto do insuficiente. Custa encontrar a melhor forma de transmitir aos meus filhos que devem estar preparados para a competição que existe actualmente e que se não forem bons alunos, ao invés de escolherem eles as oportunidades que existem, apenas ficarão com as sobras dos cursos que os outros não escolherem.  Custa fazê-los perceber, que em tudo o que fazemos, devemos esforçarmo-nos para o que o resultado seja muito bom, ou o melhor possível. Custa-lhes entender a mensagem que nem quando nos referimos a bondade, amor, vontade ou humildade, o suficiente é bom. O amor tem de ser sempre muito bom, assim como a vontade, a bondade e a humildade. Se não for bom ou muito bom não é suficiente. 

E agora, acabo, exactamente como comecei, com este comportamento bipolar que só uma mãe, como tantas outras mães, que se esforça sempre por dar o melhor, o muito bom ou o excelente, poderá entender. Se ainda não o fizeram, leiam-me também aqui.

João Maria, 8º ano
Pedro Maria (Kiki), 5º ano
Zé Maria (Bebé Zé), 2º ano

7, 10, 13 …tenho saudades

Gosto de parar e contemplar os meus filhos, de ficar a admira-los como quem olha para obra feita, tipo sensação de ver o cesto da roupa vazio (ai, aqui não me posso queixar porque não sou eu que despejo o cesto, mas ainda assim, conheço a sensação), se bem que… a comparação com o cesto da roupa vazio pode não ser a melhor, porque o trabalho com os filhos nunca está completo e várias vezes tenho a sensação que falho muito no papel de mãe, e sobretudo no de mãe que educa. Sou óptima nos mimos, abraços e brincadeiras, mas tenho de melhorar nas exigências, castigos e distribuição de tarefas. Sou só eu que me sinto culpada cada vez que um dos meus filhos se porta mal? Se eles respondem mal, eu acho que sou eu que não os estou a educar bem; quando têm más notas, sinto que não sou suficientemente exigente; quando são demasiado irrequietos e desobedientes tenho a certeza que lhes dou muito mais beijos que regras. São os meus, os meus filhos, são sim, são os meus filhos, podem não ser minha pertença, mas ainda assim, são meus, os meus.

Gosto de recordar de como eu era quando tinha a idade deles e as saudades que tenho desses tempos. Tenho muito boas recordações de uma infância simples e muito feliz. Quando os vejo aos três a brincar (e tanta vez a brigar) lembram-me muito eu com o meu irmão com a mesma idade deles. Eu e o Tio Pedro tínhamos 6 anos de diferença, a mesma que o João Maria (13) tem do Zézinho (07) – só que eles ainda têm um irmão pelo meio, o Kiki (10 anos).

Quando o meu irmão nasceu eu tinha 7 anos, tal como qualquer filho único, eu era uma menina mimada que estava habituada a ter praticamente tudo o que pedia. Na altura achei que os meus pais tinham decidido ter mais um filho apenas para me fazer a vontade, uma vez que eu pedia muito para ter um irmão. O meu desejo ter-se realizado foi o melhor presente que alguma vez recebi.

Tenho saudades da minha rua (já falei sobre isso aqui), do relógio ser substituído pela minha mãe a chamar-me à janela, das férias grandes serem enormes, do calor do verão, das minhas vizinhas sentadas no degrau à porta de casa. Tenho saudades dos meus cães, dos patos da minha avó Aida, das férias com a minha avó Albertina na Lousã (mais propriamente em Framilo, junto a V. N. Poiares) do pudim de atum da minha avó Aida – a minha avó fazia arroz com atum e ovo mexido numa forma branca de plástico da tupperware que ela orgulhosamente desenformava, sem nunca o desmanchar, nos dias em que eu ia almoçar a sua casa – que saudades do pudim de atum da minha avó Aida.

Tenho saudades do meu irmão ser bebé, tenho saudades dos primeiros beijinhos que me deu, tenho saudades das viagens de carro para as férias no Algarve, tenho saudades de me sentar ao colo da minha mãe, de nadar pendurada no pescoço do meu pai, de me deitar na cama com a minha avó Albertina que dormia com camisa de dormir e tinha sempre as pernas quentinhas onde deixava que eu entalasse os meus pés gelados.

Tenho saudades de ter 13 anos, tardes livres e matinés ao domingo à tarde na Horta da Fonte e na Discopark. Saudades do tempo em que ir ao cinema era um programa perfeito, de bater à porta dos vizinhos que tinham piscina, de fazer piqueniques às vezes apenas com sumo e pipocas. Saudades das festas de aniversários nas garagens a ouvir Phil Collins e a jogar ao quarto escuro.

Tenho tantas saudades. Saudades boas.

Espero que, embora com todas as diferenças que existem entre a minha infância e a dos meus filhos, entre a minha adolescência e a deles (ai socorro! ser mãe de adolescente, socorro – só não desespero porque tenho a sorte de ter amigas que estão a passar pelos mesmos desafios), também eles daqui a uns anos, se recordem de tudo o que estão a viver agora e possam dizer que têm tantas saudades como as que eu hoje tenho.

Eu com 7 anos, a idade do Zézinho

Eu com 10 anos, idade do Kiki

Eu com 13 anos, idade do João Maria (descubram-me!)

Uma casa com 5 é assustador, não?

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Aldeia da Pedralva

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(foto quase igual, mas nunca ficamos bem os 5 por isso tive de colocar 2 fotos)

Há uns tempos a trocar mensagens com uma amiga, na altura grávida de terceira viagem, e hoje mãe de uma bebé que se juntou aos 2 rapazes lá de casa, ela perguntava-me como era ter (ou melhor, SER) uma família numerosa, pergunta à qual ela própria respondeu no  imediato “é assustador mas tudo se faz”.

E eu fiquei, desde esse dia, com este post aqui em rascunho e a pensar se será assim tão diferente o dia-a-dia de quem tem 1, 2, 3 ou mais filhos. E sim, há diferenças. Quem diz que onde comem 2, comem 3 ou 4, com certeza não sabe a diferença entre fazer 1, 2 ou 5 camas; apanhar brinquedos do chão de 1, 2 ou 3 quartos; fazer trabalhos de casa com 1, 2 ou 3 filhos; ir buscar à noite 1, 2 ou 3 adolescentes; acompanhar jogos e outras actividades de 1, 2 ou 3 miúdos; dobrar meias de 1, 2 ou 4 rapazes (obrigada, Maria José!); fazer lanches de manhã sem trocar os aromas dos iogurtes para 1, 2 ou 3 mochilas.

Cada filho vem com as suas preferências, feitio e jeito de ser. Há que ter sempre presente que embora sejamos UM grupo de 5 pessoas, somos também CINCO pessoas que, por acaso, pertencemos a um mesmo conjunto que é a nossa família. Que eles, para além de serem UM conjunto de três filhos, são também TRÊS filhos, TRÊS pessoas diferentes que por acaso são irmãos e são meus filhos. Que só porque o Zé não gosta de queijo, eu não devo mandar sempre sandes de fiambre ao João e ao Kiki, que só porque o João e o Kiki jogam e gostam de rugby, o Zé Maria pode preferir o futebol ou o ténis e que eu vou ter de lhe dar o mesmo espaço e tempo para escolher e decidir, mesmo que isso se transforme em muito mais trabalho para mim.

Há que definir prioridades e organizar muito bem tudo o que é essencial para garantir o bom funcionamento do que é mais importante – eu sei o que estão a pensar neste momento “e quais são exactamente essas prioridades? quando o tempo (e/ou o dinheiro) é pouco o que é que é essencial? o que é afinal o mais importante?” – não sei responder porque as prioridades mudam a cada instante. Numa família de 5 o ritmo por vezes atinge velocidades alucinantes e muitas vezes o mais importante é só mesmo: parar, baixar o tom de voz, lembrar-me o quanto gostamos uns dos outros e sorrir. Tento sempre nunca abdicar de manter os mimos à frente das tarefas, desafio diariamente os limites da minha paciência, especialmente no início e final de dia, e procuro truques que permitam contrariar as leis do tempo que não pára.

Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6 (como eu já contei aqui), e muitas vezes mais de 6 com os amigos que tanto gostamos de receber, há tachos grandes e tabuleiros que enchem o forno, há sempre migalhas no chão da sala e pingos de água no chão da casa-de-banho, há contas grandes de gás, luz, água e supermercado, há barulho, há marcas de mãos sujas nas paredes e no comando da televisão, há muito barulho e estranha-se quando o silêncio prevalece.

Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6, há também coisas que são iguais a todas as outras famílias, independentemente de serem famílias de 2, 3 ou 5 pessoas. Há mantas no sofá onde nos enroscamos e tantas vezes adormecemos, há preguiça aos domingos e tostas mistas ao jantar, há beijinhos que tentam curar feridas e abraços prolongados de quem quer afogar a saudade. Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6, resmunga-se quando a sopa é igual 3 dias seguidos e discute-se quando alguém deixa o pacote de bolachas vazio na gaveta. Há, nesta família de 5, actualmente 6, sobretudo muito AMOR (que nunca falte) e RESPEITO (que nem sempre se consegue). Há muito boa vontade (na maior parte dos dias) – e há afinal uma prioridade que é constante e que posso partilhar convosco: não desistir nunca de nenhum e nisso incluir-me também a mim.

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O Mundo ao Contrário

Fez ontem uma semana que o meu pai, depois de uns dias internados, teve alta do hospital para nossa casa. Percebi, no momento em que o meu pai ligou a dizer que ia sair naquele dia, que o local onde mais lhe apetecia estar, e o mais seguro, seria connosco em nossa casa. Exactamente como, não há tantos anos atrás, também a casa dele, ou melhor, a dos meus pais, foi o meu lugar seguro, onde mais me apetecia estar e o único que fazia sentido existir.

Quando lhe dei a mão para o ajudar a entrar no carro e percebi a sua fragilidade fiquei assustada, sobretudo até perceber se eu estaria à altura do desafio de o ajudar na sua recuperação, mesmo que por pouco tempo. Dei comigo a divagar sobre o que ele terá sentido nesse momento e se se estaria a recordar de quando, há 41 anos atrás, me pôs a mim no carro, primeira filha, para me levar para casa. Expectativas diferentes mas um mesmo sentimento, o amor mais descomprometido e duradouro de todos, o de pai e filha.

Confrontada com a nova condição de cuidadora, com o cuidado de proteger e não o do conforto de ser protegida, foi como se virassem o meu mundo ao contrário. Ainda ontem era o meu pai que me dava a mão para amparar os meus primeiros passos e agora é a minha que lhe serve de bengala. Mas afinal não está ao contrário. É apenas o mundo a ser mundo, a girar sobre si próprio, o que faz com que umas vez estejamos firmes e de pé e outras em desequilíbrio e ao contrário. E que bom sentir que, mesmo quando de cabeça para baixo, tudo se mantém no seu lugar.

Nesta última semana os meus filhos têm … nem sei bem como dizer sem parecer mais do que aquilo que eles realmente são… porque são meus e não consigo falar deles deixando de lado o facto de serem os meus, superado todas as minhas expectativas. É nestas alturas que vejo que não tenho feito (não temos, eu e o Zinho) assim tanta coisa mal feita com eles. O João Maria, no auge dos seus 13 anos, que marcam uma adolescência já há muito anunciada, ele que está há 8 dias sem a privacidade do seu quarto, e sem o conforto da sua cama, disse-me à noite enquanto eu aconchegava no sofá “mãe, o avô fica o tempo que for preciso, eu estou muito bem aqui”. O Kiki comentou comigo antes de ontem: “Mãe, vê-se mesmo que o avô se sente muito melhor aqui”. O bebé Zé já ajuda com os medicamentos e leva para a mesa o que corresponde à hora do jantar. E ontem, em dia de greve, com o bebé Zé sem escola, fizeram companhia um ao outro toda a manhã.

Temos passado todos muito tempo juntos e isso já não acontecia há muito tempo. Aliás, os seis, assim juntos, nunca tinha acontecido. E isso é bom. Muito bom.

O nosso paciente está muito melhor, também com enfermeiros destes não se esperava outra coisa, e ficará connosco o tempo que precisar para se recuperar. Agradecemos o facto de ele confiar em nós, de estarmos perto e de podermos todos contar uns com os outros.

 

 

(RE)Encontrei-te a Sul

(RE)Encontrei-te a Sul, no meu então sul, sem saber que rapidamente te transformarias no meu Norte. Passaram já 19 anos desde esse dia. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Os primeiros 5 meses foram a 300 km de distância, com pouca calma e muita ânsia, e nem sempre nos víamos ao fim-de-semana. A primeira vez que pensámos fazer uma surpresa um ao outro escolhemos fazê-la no mesmo dia. O resultado foi um fim-de-semana cada um para o seu lado, no sítio onde cada um de nós esperava vir a surpreender o outro. Operação de charme mal sucedida mas que nunca ficará esquecida.

Não satisfeita com isso, aumentei a distância para quase 10 vezes mais. Eu nove meses em Inglaterra e tu nove meses aqui. O tempo a passar e o namoro a continuar. Quando cheguei entrámos juntos numa agência de viagens em Alcântara para marcar uma viagem, desta vez a dois, para o México. Encurtámos a distância para uma viagem mais perto e mais barata e saímos de lá  com dois bilhetes para uns dias no Funchal e mais uns tantos em Porto Santo. Ao fim de dois dias em Porto Santo (em Outubro de 2000 em Porto Santo estávamos nós, os empregados do hotel e o rancho folclórico que animava as noites no hotel e nós, para eles não desanimarem, dançávamos com eles) mudámos a viagem e regressámos ao Funchal.

Com os pés já assentes no continente pediste-me em casamento logo a seguir à nossa viagem. Aqueles dias nas ilhas tinham sido o máximo de tempo que tínhamos passado perto um do outro. Marcámos casamento para maio e antecipámos para fevereiro. Pediste-me em casamento num restaurante que já não existe (pouco tempo depois foi mandado demolir) com um anel que eu troquei na semana seguinte (e o problema não era apenas o tamanho).

Passaram já 19 anos desde o princípio dos dois. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Já nos magoámos e já nos perdoámos. Provavelmente vamos voltar a magoar-nos e espero que tenhamos a mesma vontade de nos voltarmos a perdoar. É metade da minha vida vivida contigo. Mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

É tudo mais do que alguma vez imaginei. Ou sonhei. É a minha vida toda presa no teu olhar em mim. É o teu olhar demorado pousado em mim. São os meus sonhos e os teus projectos. É o teu sorriso a entrar em casa. É o teu deixar-me ir e o meu regresso no teu abraço. É a tua clareza e a minha certeza.

És tu. Sou eu quando estou contigo.

Somos os dois.

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