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Filhos, as vossas notas não são o mais importante para mim

– Mãeiiiiiiiii

– Sim Kiki [não é mãeiiiiiii. é apenas mãe, mas deixa lá isso agora]

– Mãeiiii tive 75% a inglês

– É uma boa nota Kiki. Parabéns.

– Mas é só bom mãe, não é muito bom.

– Kiki, de 1 a 100 quanto é que és feliz?

– 1 milhão mãe.

– Kiki, em percentagem, se tivesses de dar uma nota à tua felicidade quanto é que davas?

– 100%! Mãe. Eu sou 100% feliz.

E foi com esta resposta do Kiki que dei comigo a pensar no que é realmente o mais importante para mim. E embora vocês não tenham paciência para ler os textos longos da mãe, o texto de hoje é para vocês.

Meus filhos, meus Marias, meus amores maiores, as vossas notas não são o mais importante para mim. Vou repetir. As vossas notas não são o mais importante para mim. E se alguma vez eu disser que são, por favor obriguem-me a ler este texto em voz alta no mínimo 10 vezes. As vossas notas não são o mais importante para mim. No meio de tantas incertezas que envolvem as decisões da maternidade, aqui eu não tenho dúvidas.

Se quero que tenham boas notas? quero muito. Se quero que se esforcem e sejam bons alunos? quero muito. Mas há 10 coisas (se calhar até mais) que para mim são mais importantes que as vossas notas e não têm necessariamente de ser por esta ordem:

  1. Que entendam a ligação entre as palavras esforço e recompensa e que acreditem que essa ligação vai estar sempre presente em tudo na vossa vida, na escola, em casa, na amizade e no amor. Que aceitem que embora não exista recompensa sem esforço, poderá existir esforço sem recompensa
  2. Que saibam que o valor de uma pessoa está sobretudo naquilo que ela dá e recebe e que isso não se expressa em nenhuma escala de avaliação
  3. Que se cuidem e se protejam muito, cada um de vocês e entre vocês. Que sejam os melhores amigos e que confiem uns nos outros como em mais ninguém
  4. Que não me vejam como uma amiga mas como a vossa mãe e que se percebam que essa relação vai sempre ser mais forte que qualquer outra de amizade
  5. Que continuem a puxar-me para dançar na cozinha e que eu largue sempre tudo por uma dança a 2 ou a 5 (“a sério que até esta é mais importante que as nossas notas? mãeiiiii tem noção que a partir de agora vai ser ainda mais dançar e ainda menos estudar?”)
  6. . Que me peçam festinhas nas costas e que me surpreendam com abraços pelas costas
  7. Que continuem a invadir a minha cama pela manhã com beijos lambuzados e abraços prolongados
  8. Que aprendam que em casa todos devem participar nas tarefas e não apenas ajudar
  9. Que sejam honestos convosco e com os outros. Educados com os colegas e com os professores. Educados dentro da sala de aula, na cantina e no café em frente à escola. Que respeitem outras opiniões ainda que contraditórias à vossa. Que não defendam a vossa opinião só porque sim, aceitem mudar se assim vos fizer mais sentido. Que denunciem o que não acharem correcto e que estejam atentos a quem precisar de ajuda
  10. Que se lembrem sempre que EU ESTOU AQUI ♥
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Campeonato Mundial de Surf 2017 em Peniche
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Torneio RCS sub14 25NOV17
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Torneio RCS sub14 25NOV17

Tecnologia a mais? Jogos em família a menos?

Tem sido um grande desafio controlar o tempo que passam(os) com a TV, tablet, computador, telefone da mãe, telefone do pai, telefone do mais velho, telefone antigo do pai, playstation. Às vezes tenho a sensação que se lhes tirasse isso tudo, entravam em ressaca e punham-se a ligar e a desligar os interruptores dos electrodomésticos que estivessem mais à mão.

Eu, culpada me confesso. Eu deixo os meus filhos demasiado tempo agarrados às tecnologias. A verdade é que para quem trabalha fora de casa e só regressa ao final do dia, não sobra muito tempo para fazer actividades com os miúdos e sem a minha orientação, o que eles quase sempre acabam por fazer é encostar os dedos e o nariz ao ecrã mais próximo. Isto não é só na minha casa pois não? Para os mover dos ecrãs para os legos e playmobils tenho de largar tudo e sentar-me também com eles, o que de vez em quando também acontece.

Todos nós, os nascidos em 70 e 80, temos boas recordações de serões com jogos de tabuleiro. Eu tenho. Tenho boas recordações e tenho também saudades. Quero também criar essas boas memórias nos meus filhos e tive recentemente a ideia de criar as noites temáticas. Já fizemos a noite da plasticina (foi bem divertida mas descobri que continuo a saber fazer apenas cobras com olhinhos), já jogámos bingo, peixinho, sueca, monopólio, cluedo, entre outros. A única regra para a escolha do tema é que não seja incluída na actividade nenhum tipo de tecnologia, com a excepção da música, porque lá em casa todos adoramos dançar. E os pais, os mais velhos (e mais viciados também) são quase sempre os primeiros a quebrar a regra.

“ah, é só para tirar uma fotografia. ah, vou só fazer um instastory de nós todos a jogar ao bingo para mostrar que somos uma família diferente e não somos telemoveletabletecomputadordependentes.”

Tretas! Lá em casa somos os 5 uma cambada de viciados. Assumidos. O que pode já ser o primeiro passo para aceitarmos começar o tratamento. É urgente organizarmos mais noites temáticas.

Esta semana fomos convidados a experimentar o Wonder Cover, o que acaba por ser um bom complemento ao uso dos tablets, sendo que está pensado para jogarem várias pessoas ao mesmo tempo.  Consiste num conjunto de escudos de jogo que transformam os nossos tablets num autêntico tabuleiro de jogo (ver foto em baixo), permitindo que cada jogador possa esconder a sua mão de cartas, as suas peças de dominó ou mesmo as respostas em diferentes jogos de quizz. Por outras palavras, os jogos, convívio e diversão do antigamente aplicados à tecnologia de hoje em dia! Como para jogar o tablet tem de ser usado por mais do que uma pessoa, é uma forma de garantir que eles não enfiam o ecrã pelos olhos adentro.

A Wonder Cover, em parceria com o Blog O Teu Tio Pedro, está neste momento a oferecer um cupão de 10% de desconto na compra deste produto. Podem comprar o Wonder Cover aqui e usufruírem do código de desconto OTEUTIO10 na compra do Set Familiar.

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Obrigada Wonder Cover
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Ontem à noite estávamos cansados mas quisemos ver juntos as instruções (O João Maria já dormia há horas e eu com os mais novos ainda na sala)
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Hoje de manhã, ainda ensonados, experimentaram o brinquedo novo. O Kiki hoje foi orgulhosamente com a sua camisola do Inter Milan por ser o Dia do Desporto.
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Pai Pedro a experimentar a máquina que usamos tão pouco
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O nosso Pai Natal gordo e a duende que andaram desaparecidos numa caixa de cartão juntamente com as bolas de Natal durante 2 anos

 

 

 

6. Como se perde o que se ganha

O Luís perdeu O Amigo e a partilha de hoje é sua. E é com a partilha do Luís que chegámos à sexta e última partilha do capítulo que iniciámos aqui.

Obrigada Luís pela coragem de partilhar ♥

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“Quando cheguei a Almeirim em 1985 e fui morar para o prédio de esquina na Rua Condessa da Junqueira, n.º 63-B, era mais um jovem perdido nas voltas que vida tinha dado, em que as circunstâncias profissionais dos pais, o tinham obrigado a deixar o conforto das amizades de infância e a sua turma de sempre. Confesso que tudo me parecia muito cinzento…

Lembro-me perfeitamente que estávamos no verão, e nessa época os filhos ainda gozavam duma liberdade, que hoje não consigo praticar com os meus!!! Nessa mesma tarde, conheci um miúdo franzino, amigável, embora aparentemente tímido (aparentemente!), que me foi apresentado como João Fragoso. Já ao fim do dia, deitado no meu quarto, já me sentia mais confortável nesta nova etapa da minha vida, tinha amigos novos e tinha ficado de estar na casa do tal João Fragoso às 08h30, para ir jogar à bola para o ring – era o tal jogo do aos 3 roda e bota fora – assim sendo, à hora marcada lá estava eu. Veio a Sra. Ana abrir a porta – uma senhora já de idade com muitos anos na família – essa mesma, que anos mais tarde, ficou carinhosamente baptizada por VICTOR BAÍA, quando nos seus afazeres domésticos e desajeitados (fruto dos seus mais de 80 anos), tropeçou numa caixa e mandou um voo por mais de 3 metros! Entrei e estava o Joao na mesa a tomar o pequeno almoço e iniciamos uma conversa, conversa essa, que ainda hoje não tem fim!

O mais importante é que nesse dia GANHEI uma moeda de ouro, daquelas que vamos colocado no nosso pote de ouro, onde estão os filhos, a mulher e os pais… O que mais me afligiu ao longo deste tempo, foi precisamente a questão que me colocava todos os dias: – COMO SE PERDE O QUE SE GANHOU?!!! E hoje ao fim de algum tempo, julgo ter encontrado a resposta, e o que sinto é que perdi uma moeda insubstituível do meu pote, mas a vida dá-nos sempre algo em troca, e por isso a resposta que encontrei foi: – PERDES O QUE GANHAS, DIVIDINDO O QUE TINHAS POR ALGO A DOBRAR… E hoje sinto que ganhei mais 2 moedas de ouro, que representam dois seres lindos, que transportam o João em cada movimento e sorriso que carregam em si, e que ganhei mais outra moeda de ouro, numa Irmã Esposa , com a qual me preocupo todos os dias e que me enche de orgulho sempre que me cruzo com ela!!! Então entendi que Perdi para Ganhar!!!

Até sempre João, e se tu estiveres certo e eu errado!… Este até sempre, será apenas até um dia!!!”

O teu amigo Luís Hortet

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5. Somos dois e dois, sendo contigo, é tanto

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Para quem só chegou agora está aqui a explicação para estas partilhas.

A S é a nossa quinta e penúltima partilha. Nem todas as perdas da nossa vida são por morte. Todos nós já perdemos alguém na vida por variadíssimas razões.

A S apresenta-nos o seu maior tesouro e fala-nos deste amor vivido a dois.

Somos dois e dois, sendo contigo, é tanto!
Há 14 anos, Deus deu-me a luz de ser a tua mãe. Tu escolheste-me e eu todos os dias agradeço por tamanha bênção.Temos caminhado nestes 14 anos de uma forma cúmplice e única, somos companheiros nas gargalhadas, nas conquistas que temos e até nas tristezas!
Tu não gostas que eu diga que és especial, mas és! És especial porque nunca te ensinei a dizer e a sentir a palavra amo-te com a honestidade com que tu o fazes. Nunca te ensinei a seres tão bom para os outros, o teu coração nasceu assim! Quem te conhece sabe!
Fazes comigo, fazes com a avó, fazes com qualquer pessoa que cruze no teu caminho, porque nasceu contigo esta capacidade de amar. É tua!
Ainda hoje antes de eu sair muito cedo, ensonado olhaste para mim e disseste “mãe, eu amo-te”!
Somos dois em casa, mas somos muito mais na nossa família, e tu fazes a diferença entre todos! Todos se sentem diferentes contigo …
Relembras o avô com tanta saudade, porque o amor que ele te deu foi incondicional.  Ainda hoje me arrependo de não te ter deixado despedir dele, mas queria que a lembrança que tens dele fosse a melhor.
Relembras a bisavó Joaquina com o teu sorriso de menino quase homem enquanto me perguntas se ela gostava de ti “ eu lembro-me dela mãe”!

“O tempo passa tão rápido, mãe. Tu sofres por ter perdido o teu pai tão pequena?”

Eu respondo-te sempre que perder um pai é difícil, e tu olhas para mim com os teus olhos cheios de lágrimas e de repente salta logo um abraço teu como que a proteger-me, afinal és tu o homem lá de casa. Aliás em todas as nossas fotos a tua mão esta sempre a proteger-me!
Hoje falo de uma família a dois que me traz tanta alegria ao olhar para ti , e me faz ter a
certeza que estou no caminho certo contigo , és um orgulho de ser Humano, lindo por dentro e por fora. E a minha vida é tão mais vida contigo filho!

Somos dois e dois, sendo contigo, é tanto! É tudo.

Obrigada S pela tua partilha. Em cada palavra se sente a presença do teu amor. E é um facto, em todas as fotos é visível a mão do teu tesouro a segurar-te ou abraçar-te. Um enorme beijinho para os dois.

Não fiz caso, mas devia

Desleixei-me. Descuidei-me. Enganei-me. Despreocupei-me. Devia ter feito caso e não fiz. E senti-me mal com isso.

O João Maria andava a queixar-se com dores nos joelhos há mais de um ano. Sim, há mais de um ano. Podem crucificar-me à vontade, eu mereço. A verdade é que, para além do meu desleixe, durante todo este tempo o João sempre fez educação física, treinos duas vezes por semana e jogos ao fim-de-semana. E também é verdade que não se queixava todos os dias, se calhar nem todas as semanas (“ah, a culpa agora é do miúdo queres ver? só se queixou 10 vezes e deveria ter-se queixado 20 ou 30”).

Era quase sempre na hora de deitar que ele me dizia “mãe, há qualquer coisa estranha com os meus joelhos, mexem-se muito. olhe aqui.” E eu quase sempre respondia “oh filho, tens de lembrar a mãe de dia e não a esta hora” (a sério? a sério que deveria ser ele a lembrar-se de me lembrar outra vez? não deveria ser eu a lembrar-me no dia seguinte e marcar de uma vez uma porra de uma consulta?).

A semana passada (e por acaso ontem outra vez) o pai magoou-se num dedo do pé (o pai adora andar descalço aos pontapés às arestas das mesas e cadeiras lá de casa) e foi fazer um raio X ao dedinho lindo do pé. Nada partido mas o João Maria tirou partido para voltar a queixar-se “oh mãe, até o pai vai fazer um raio X ao dedo do pé e eu ando há um ano a queixar-me que me doem os joelhos e a mãe não faz nada?”.

Ups! Terei desculpa por ter exagerado da ultima vez que recorri às urgências do hospital? Quando fui a correr com o Zézinho ao colo a chorar com dores de barriga e afinal ele só queria fazer cocó? Imaginem a vergonha. Conhecia a enfermeira e a médica que estavam de serviço, por um lado ainda bem, livrei-me de uma boa descasca. Ainda hoje brincamos com isso lá em casa. “Oh Zezinho, e quando o menino foi fazer caca para o hospital de Santarém?”

A verdade é que agora foi precisamente o oposto. Fui a achar que não era nada, e afinal era. Nada de grave, felizmente. Caso recorrente em jovens que praticam desporto, mas ainda assim, da culpa não me livro. O João Maria precisa de repouso e de fisioterapia. E eu preciso de me lembrar que não devo ignorar as queixas deles, ainda quando me parecem exageradas.

Esta sensação de não conseguirmos chegar a todo o lado, de sair de casa com eles à pressa e com a cabeça já a pensar nos e-mails por responder; desligar o PC ao fim do dia e pensar o que é que esta gente vai jantar; ligar na hora do almoço para perguntar como correu o teste; balançar entre o sim e o não nas saídas com os amigos (sim, já há saídas), querer dar-lhes o melhor sabendo que não lhes devemos dar tudo.

Há dias em que não sou suficiente. Não me chego para mim, muito menos para eles. Ultimamente as brigas entre mim e o João  têm sido mais que os abraços e eu pergunto-me se ele em alguma altura duvida do quanto eu gosto dele. Acredito que se ele sentir pelo menos metade do meu amor, já será suficiente para se sentir amado e desejado.

Meu amor João, o meu amor mais crescido ♥

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Está tão grande (e giro, ou sou só eu a achar?)

4. Perder o marido, o pai dos filhos e o melhor amigo?

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E com esta já são 4 partilhas!

A Maria (nome fictício, Maria pela sua devoção a Nossa Senhora) perdeu o marido, o pai dos filhos e o melhor amigo no mesmo dia à mesma hora. Francisco partiu sem avisar (nome fictício, Francisco pela admiração de ambos ao Papa Francisco) e tem dias que ainda é difícil acreditar. A partida é muito recente e Maria ainda não se habituou à ideia de que ele não está. Ou melhor, está, embora ausente.

Conheço a Maria há muitos anos. É minha amiga, assim como também era o Francisco. A Maria é uma comunicadora nata. É daquelas pessoas que para a ouvirmos temos de a ver, porque a Maria fala com as mãos e com os olhos mais do que com palavras, daí que não tenha sido fácil por a sua partilha num texto e desta vez eu, com a sua devida autorização, troquei umas palavras e umas vírgulas de sítio.

“Não tenho jeito para escrever, mas gosto muito de falar! Tenho uma grave dificuldade nos pontos e vírgulas! Mas porque não aceitar o desafio de partilhar a minha dor? Acharão que é cedo? Mas ninguém vai saber que sou eu. Que se lixe, não há mal em falar de amor.

Apetece-me partilhar que fui muito amada, que o amor é infinito, que partiu o amor da minha vida ou que simplesmente não está cá. A confusão em mim é tão grande que chego a crer que apenas emigrou.

Estou em modo piloto, merda! Estou como consigo estar. Morrer não faz parte do meu vocabulário, ninguém morre quando há amor. Vinte e cinco anos de namoro e casamento. Hoje tenho 45. Mais de metade da minha vida foi passada com o pai dos meus filhos, com o meu marido, com o meu melhor amigo. E meu será até que a morte nos separe. E mesmo depois da morte. Meu será.

Quando alguém brinda, copos cheios de vinho por beber e outros tantos já bebidos, brinda normalmente à amizade, a mais saúde! O meu marido, pai dos meus filhos, irmão do meu cunhado e filho (sim filho) de uma grande mulher brindava ao amor! Partiu num dia de brinde ao amor, à vida e à fé. Partiu num dia de festa que ele tanto gostava! O meu amor partiu no dia do seu aniversário.

04:30. Tanta vez nos deitámos a essa hora. 04:30. Tantas vezes nos levantámos a essa hora porque os miúdos acordavam a vomitar ou tinham febre. 04:30 acordou-me o meu o amor porque não se estava a sentir bem. Levantei-me e percebi que tinha de leva-lo ao hospital. Ligo para o 112. Eu tinha de ficar em casa, tenho os meus filhos a dormir e temos de começar o dia levantar tomar o pequeno-almoço e ir para a escola. O pai foi ao hospital mas está tudo bem. Os meus pais, o meu irmão,cunhado e sogra em nossa casa e eu vou levar os meninos à escola e rezar vou ao trabalho desmarcar o dia para ir para Lisboa. Os médicos disseram que não valia a pena ir para o hospital, que só perto da hora do almoço é que estava despachado e eu cumpri ordens! Aparece no meu trabalho o meu irmão e uma amiga para me levarem para Lisboa. Fui todo o caminho a dizer que estava tudo bem. Chovia torrencialmente, mais do que o normal para maio, entrei no hospital e disseram-me que os médicos estavam à minha espera. Entrei numa sala. No meu trabalho ensinaram-me que temos de controlar as nossas emoções. Quando os médicos começaram a falar percebi que não estava a conseguir controlar as emoções. “É grave?”, perguntei eu. Deram-me a aliança do amor da minha vida, a que ele nunca perdeu, a aliança do nosso casamento. E eu que já perdi a minha mas que ele rapidamente se apressou a comprar-me outra. A aliança dele estava agora na minha mão eu não deixei o médico dizer a palavra que vocês sabem que não faz parte do meu vocabulário (morreu, faleceu). Só pensava nos meus filhos, em mais ninguém. Vim para casa com a aliança e com um comprimido. Não me lembro de muito mais a partir daqui, só do sorriso do amor da minha vida e mesmo a dormir estava a sorrir, lembro me dos meus filhos e dos meus amigos que sofriam também tinham perdido o amigo mas não me deixaram nunca sempre a meu lado. Os meus filhos perderam o pai e eu tinha de conseguir ficar minimamente saudável de cabeça. Perdi o amor da minha vida e fiquei com os outros dois amores da minha vida. Como vou eu chamar o meu pai, sabendo que os meus filhos já não podem chamar pelo pai? Tenho de me manter viva e tentar sorrir para eles, além do amor o meu marido deixou-me um abraço que vou sempre senti-lo. Um abraço sempre tão bom e sempre tão apertadinho,  cheio de tranquilidade. Aprendi a sorrir para os meus filhos por nós os dois.”

 

3. Pai, seremos sempre felizes contigo

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A partilha de hoje é da Marta, da minha amiga Marta. Conheço a Marta há 25 anos, fizemos juntas uma longa caminhada de fé e amizade com a nossa Equipa de Jovens de Nossa Senhora. Actualmente as nossas vidas não se cruzam muito (embora muito em breve esse ciclo vá ser alterado), não temos filhos na mesma escola nem a praticar nenhum desporto juntos, não somos vizinhas e nem sequer moramos na mesma localidade. Das poucas vezes que estamos juntas, é como se ainda estivéssemos sentadas à mesa em casa da Lurdes e do Luís numa reunião de partilha das EJNS.

A Marta tem uma família linda com 4 filhos rapazes, 3 louros como a mãe e um moreno como o pai. A partilha da Marta é sobre a falta que sente do pai que partiu há 9 anos, sendo que o que mais lhe custa, é que o avô Francisco não esteja presente na vida dos meia dúzia, a forma carinhosa como a Marta chama à sua família.

Querida Marta, acreditando como eu sei que acreditas, o teu Pai onde está só pode estar muito orgulhoso da Marta, Mãe e Mulher que tu te tornaste. Obrigada pela tua coragem ao enviares esta partilha. Grande beijinho.

“Querida Patrícia…

O Meu Pai…
Parece que o estou a ver no dia em que tudo aconteceu…27 de outubro de 2008 e ainda hoje estão tão claras e presentes as frases ditas por uma amiga que anunciou a morte do meu Pai, passada 1hora de ter estado com ele no café a tomar o pequeno-almoço!
Na altura lembro-me passei por vários sentimentos, de revolta, de dor profunda, lembro -me que me sentia completamente perdida e à procura de uma pessoa que tanto amava e que de repente tiraram da minha, das nossas vidas…chorei tantas vezes em silêncio e às escondidas, pelo menos procurei fazê-lo nunca perto da minha Mãe porque sem dúvida, se é que podemos qualificar ou quantificar a dor, a dor da minha Mãe seria bem maior, eu tinha o Pepê que foi maravilhoso em todos os momentos, tinha os nossos Amigos que estiveram sempre connosco e tinha a “peça” fundamental que me serviu como porto de abrigo, como “injeção” diária para lidar com a minha dor, o nosso filho Pê, que na altura tinha 18 meses e que ainda conheceu o avó Francisco e lhe foi dada a oportunidade de ter ainda o seu colinho….
O meu Pai era um Ser Humano Maravilhoso, toda a gente o conhecia, mas ele não conhecia ninguém, não por mal, mas por feitio, era desinteressado da vida dos outros, mas não dos outros, a sua maior felicidades era ver todos bem e sempre contribui para isso…era um Homem de poucas palavras, mas quando solicitado tinha as certas! Não era de festas, nem de carinhos, gestos que prezava mas à sua maneira, muito à sua maneira…
O tempo foi passando e foram surgindo aquelas datas mais difíceis, mais significativas, nestes dias a cadeira vazia, o barulho dos passos, o cheiro, a presença, o sorriso, tudo faz mais falta, tudo provoca mais dor…o tempo vai passando, a dor está sempre lá, mas passa a ser vivida de outra forma, sentida de maneira diferente e com isto não quer dizer que seja menor!
Entretanto fiquei grávida do meu segundo filho e sempre desejei e pedi a Deus ter só rapazes, mas nesta gravidez fui mesmo muito maçadora neste meu pedido para que viesse um rapaz para ter o nome do avó Francisco! Há coisas que não se explicam e que nem sequer interessa o porquê, mas o Francisco fisicamente é muito parecido com o avó e tem traços no feitio que são exactamente iguais, primeiro à Mãe, mas o grande responsável é o avó…quando a veia salta do pescoço está tudo “estragado”, ou não!
Não há dia nenhum que não me lembro do meu Pai, as saudades???? são muitas, muitas, não consigo descrever, não consigo, fico sem ar e toda apertada! sinto-o muitas vezes comigo, procuro-o muitas vezes e sei que está lá sempre, muitas vezes de cabeça baixa sinto uma festinha da sua mão que me sabe tão bem, é aquele gesto que diz: estou aqui! sinto-lhe o cheiro, quem me conhece bem sabe que sou muito de cheiros, sinto muito a sua presença através do cheiro…tantas saudades! falo com ele muitas vezes, não me zango com ele porque já não era hábito fazê-lo, sempre encaixamos na perfeição e assim continua.
Ainda fico com os olhos cheios de lágrimas de cada vez que olho para os nossos quatro filhos e penso que não conheceram o avó Francisco e o quanto ele gostava de os ver crescer, de andar de bicicleta com eles, de levá-los a passear ao pinhal como sempre fez comigo…tanta coisa que ficou por fazer, tanta coisa, se por um lado aceito que tem que ser assim, por outro tira-me o ar porque queria que fosse tudo diferente e éramos todos tão mais felizes!
Agora uma parvoice mas que quero partilhar, sempre que vou correr, sobretudo acima dos 10km que já nos exige um esforço maior, físico e sobretudo psicológico ainda para mais para quem gosta de correr sozinho, como é o meu caso, tenho por hábito “convidar” sempre o meu Pai, e se por um lado começamos lado a lado, nos últimos km, nem tenho que pedir pois o meu Pai continua a fazer como sempre fez, leva-me ao colo e assim mais facilmente chegamos à meta!
Tenho o maior orgulho, vaidade no Pai que tive, continuo a falar dele com um brilho nos olhos, uma mistura de felicidade e tristeza, mas sempre com orgulho de ser a Marta, a filha do conhecido Balasteiro, nome pelo qual era conhecido e carinhosamente tratado…
Saudades muitas, muitas mas todos os dias falamos, todos os dias sorrimos um para o outro, todos os dias me orgulho de ser sua filha, todos os dias olho para os nossos filhos e tenho a maior vaidade de ver ” a veia do Francisco a saltar do pescoço”, bem como pequenos pormenores nos outros manos que me fazem ter o avó sempre por perto!
Não quero deixar de falar aqui no Pepê,o meu marido, foi maravilhoso e incansável, tudo bem sei que é o esperado, mas nem sempre acontece…e sei o quanto o Pepê gostava do meu Pai, as saudades que sente dele e engraçado em tantas coisas são parecidos…
Hoje sei que estás bem Pai, tenho essa certeza, não diminui a minha dor mas ajuda-me a lidar o melhor possível com ela e todos os dias falamos contigo em oração…os teus netos conhecem te bem, não fisicamente, mas sabem que ainda que só com duas mãos consegues abraçar os quatro, os teus quatro netinhos como seriam tratados…
Não fico triste quando falo de ti porque tu não eras uma pessoa triste, eras e sempre serás um Ser Humano Maravilhoso, de bem com a vida, de bem com todos….
Seremos sempre felizes contigo Pai…”
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Meia dúzia

 

2. Ser feliz, é o melhor que posso ser

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A segunda partilha chega-nos do G. Conheço-o há algum tempo mas nunca tinha falado muito com ele. Até ao dia em que na festa de aniversário de uma amiga que temos em comum ficámos sentados ao lado um do outro. A aniversariante juntou um grupo muito restrito de amigos para festejar a chegada dos 40 e pediu que nos sentássemos aleatoriamente perto de alguém que não conhecêssemos tão bem. A minha conversa com o G levou-nos à pior coincidência das nossas vidas, ambos tínhamos perdido um irmão.

O G escolhe ser feliz, por si e porque sabe que era o que o irmão mais queria. Partilho aqui convosco, com a sua devida autorização, um bocadinho da sua história.

“O meu irmão?

Era a primeira pergunta que os meus pais ouviam assim que um de nós chegava a casa. Tanto eu como o P sabíamos, na grande maioria das vezes a resposta a esta pergunta, mas o gozo de ouvir que o nosso “companheiro de armas” estava a dois passos, levava sempre a melhor. – O teu irmão, está no escritório do 1.º andar! – respondia a minha mãe, antes de um de nós começar a subir as escadas a correr com uma vontade desenfreada de contar como tinha corrido aquele dia. Cada vez que me pedem para falar da forma como o falecimento do meu irmão me afectou, a primeira coisa que me recordo é este ritual que partilhávamos. Aceitar que, a resposta a esta pergunta, nunca mais seria a mesma, foi e continua a ser o maior desafio da minha vida.

Nos primeiros dias, estava demasiado confuso e “dorido” para conseguir processar o que me tinha acontecido e dai discernir como iria ser, dali em diante. Foi um turbilhão de sentimentos, que tive de aprender a processar e organizar de forma a encontrar uma janela que me permitisse sair de toda aquela confusão. A pouco e pouco, obriguei-me a levantar e a continuar com as minhas rotinas. Estabeleci objectivos e metas pessoais, porque compreendi que isso me podia ajudar a preencher e de alguma forma ocupar e limpar a minha cabeça e, por isso, decidi, “vou sair da minha zona de conforto, vou fazer Erasmus para a Republica Checa e volto daqui a uns tempos a Portugal!”

Ao longo do tempo, percebi ainda que, se começasse a “educar a forma como eu pensava” poderia também, acabar com os ataques de ansiedade que tinha desenvolvido, entretanto. Comecei a deixar de lamentar-me tanto e a agradecer mais tudo o que a vida me tinha dado e não, tudo aquilo que a vida me tinha tirado. Voltei a praticar desporto, a fazer o que mais me divertia e sobretudo a rodear-me de todos aqueles que me fazem sentir feliz de uma forma genuína. O meu irmão queria, o melhor para mim. Ser feliz, é o melhor que posso ser.”

Gostei muito da partilha do G porque me identifico com ela e também porque a achei especial por vir do lado do ainda apelidado sexo forte.

Os rapazes são ensinados desde pequenos a serem fortes, a não mostrarem as suas fraquezas e a ultrapassarem sempre os seus medos. “Um homem não chora”.

Pois eu todos os dias tento contrariar essa tendência aos meus 3 rapazes e digo-lhes muitas vezes que não há mal nenhum em falhar desde que se tenha tentado, que devemos sempre dar o nosso melhor mas que isso nem sempre é suficiente, que é normal ficarmos tristes se tivermos motivos para tal, que também podemos ser fracos mas que não devemos deixar que outros tirem proveito disso, que a felicidade não é estar sempre feliz, mas sim um grande conjunto de momentos felizes que se distinguem no oposto a todos os outros que não são.

1. A Noite Santa de Natal

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No seguimento do post de facebook de ontem, a primeira mensagem que me chegou foi sobre a Noite de Natal, a Noite Santa de Natal, aquela em que juntamos com alegria a nossa família à volta da mesa. Mas… e quando falta um elemento da família? E quando faltam dois?

O meu irmão morreu no dia 13 de Setembro de 2005 e passados 3 meses eu não estava nem aí para o Natal. Não conseguia suportar a ideia de me sentar à mesa sem a presença do meu irmão. O meu filho João Maria, na altura com 8 meses, também não iria sentir a falta de passar o Natal com outros familiares que não o pai e a mãe. Mandei mensagens aos amigos e familiares mais próximos a pedir que não trocassem presentes comigo, que não contassem comigo para os habituais jantares de Natal mas que me incluíssem nas suas orações. Convenci o Pedro e os meus pais, levámos o João Maria e as tralhas e marcámos hotel em Salamanca por 2 noites. Não nos esquecemos do Tio Pedro nem por um momento, mas estivemos juntos os 5 longe do que era a nossa situação actual, quase com uma falsa esperança que no regresso tudo pudesse estar como deveria, juntos na mesma dor e cada um a sofrer à sua maneira. Uma mãe, um pai, uma irmã, um sobrinho e um cunhado. Na noite de 24 de Dezembro jantámos tapas num restaurante mesmo giro no centro de Salamanca, passeámos muito, não decorámos a árvore de Natal nem trocámos presentes.

Esse foi o único Natal em que saímos uns dias para fora. Há 11 anos para cá que celebramos o Natal em família juntamente com cunhados, pais e sogros, filhos e sobrinhas. Com três crianças à mesa é impossível não ter alegria e embora a saudade esteja sempre presente, aprendemos de alguma forma a viver ou a decidir o que fazer com ela, não só na Noite Santa de Natal, mas igualmente em todas as outras do ano.

A M quis partilhar um bocadinho sobre a sua Noite de Natal sem a presença da mãe e do pai, mesmo passados tantos anos de os ter perdido, a saudade e as recordações continuam muito presentes.

“Há 23 anos apareceram as saudades, doíam demasiado e há 16 duplicaram. Como é possível doerem tanto! Doem mesmo demasiado, magoam muito, entristecem. No Natal voltavam com mais intensidade a lembrar o que perdemos. Mas este ano foi diferente… As saudades já não doem demasiado são saudades boas… Na nossa casa sempre que havia festas a minha mãe fazia uma receita de bacalhau, não sei como se chama, penso que nunca soube. Para nós era o bacalhau das festas e só a minha mãe fazia. Se é melhor que outras receitas? Penso que não, mas era o bacalhau que aparecia nas nossas festas. Que saudade boa! Já não é das que doem demasiado… Este ano o Natal seria passado com a família dos nossos maridos e por isso como é habitual nestes anos, fizemos a nossa Festa de Natal no fim-de-semana anterior em casa da minha irmã S. A mesa estava posta para os 17, nós, maridos e filhos, igual às dos outros anos. Mas a saudade apareceu, a boa, não a que dói demasiado e mostrou que éramos 19. Os pais estavam lá! Que saudade boa! E sentámo-nos, rimos e brincámos… Quando a S foi buscar o prato principal, feito pela tia do meu cunhado G, apareceu quase por magia o nosso bacalhau, o bacalhau da nossa mãe, o bacalhau que noutros tempos aparecia sempre na mesa das festas. Com o tabuleiro do bacalhau chegou também à mesa onde nos sentávamos todos toda a saudade, toda a saudade da boa”.

Obrigada querida M, que boa a tua partilha. Será possível sentir tanto amor e saudade num tabuleiro de bacalhau? Eu senti nesta tua partilha. Mas tu tão bem como eu sabes, que apenas sentimos saudade das coisas boas, sejam elas um bacalhau ou as memórias boas de quem já nos deixou.

Deixo-vos com algumas fotos do nosso Natal de 2005 em Salamanca, o primeiro Natal do meu filho João Maria e o primeiro sem o meu irmão. Naquela altura não lhe chamei Natal, chamei-lhe uns dias em Salamanca. Hoje ao rever estas fotos senti o Natal destes dias. Estávamos juntos, na dor e no amor, se a isso não chamar Natal então o que é o Natal? ♥

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Os 5 em Salamanca em Dezembro 2005. O João Maria no carrinho e o pai a tirar a foto
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João com 8 meses cheio de frio
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Eu com menos 12 anos
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Os 2 com menos 12 anos

Eu partilho e tu? Também queres partilhar?

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No outro dia cruzei-me com uma amiga, que infelizmente passou pelo mesmo que eu, perdeu o irmão de uma forma inesperada e igualmente muito jovem. Disse-me que lhe sabia bem ler este blog e que a tem ajudado a aliviar a sua dor. Eu que costumo dizer que basta-me tocar uma pessoa para já ter valido a pena ter criado o blog, gosto quando recebo um feedback tão bom como este.

No início do blog em 2006 foram várias as mensagens que recebi de pessoas que passavam por dores semelhantes à minha. Eu que não tenho todas (ou nenhumas) respostas, não me importo de partilhar como foi (é) comigo e de que forma a morte do meu irmão se manifestou na minha vida.

Por isso desafio-vos a perguntar, a partilhar, a falar, a comentar o que quiserem sobre a dor de perder um irmão (ou alguém próximo) por mensagem privada e eu vou respondendo por aqui, respeitando sempre a privacidade de quem enviou a mensagem. Mesmo que não tenha sido contigo podes ter a curiosidade de perguntar com o intuito de ajudar alguém.

Eu acredito que a partilha pode ajudar. E tu?

Como foi o primeiro Natal? O que fazem nos dias do aniversário? Como partilhar essa dor em família? E com os amigos? E com os filhos? Estas são apenas exemplos de algumas perguntas que já me têm feito.

Se isto faz sentido para ti partilha este post para que possa chegar a quem possa estar a precisar.