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Filhos, as vossas notas não são o mais importante para mim

– Mãeiiiiiiiii

– Sim Kiki [não é mãeiiiiiii. é apenas mãe, mas deixa lá isso agora]

– Mãeiiii tive 75% a inglês

– É uma boa nota Kiki. Parabéns.

– Mas é só bom mãe, não é muito bom.

– Kiki, de 1 a 100 quanto é que és feliz?

– 1 milhão mãe.

– Kiki, em percentagem, se tivesses de dar uma nota à tua felicidade quanto é que davas?

– 100%! Mãe. Eu sou 100% feliz.

E foi com esta resposta do Kiki que dei comigo a pensar no que é realmente o mais importante para mim. E embora vocês não tenham paciência para ler os textos longos da mãe, o texto de hoje é para vocês.

Meus filhos, meus Marias, meus amores maiores, as vossas notas não são o mais importante para mim. Vou repetir. As vossas notas não são o mais importante para mim. E se alguma vez eu disser que são, por favor obriguem-me a ler este texto em voz alta no mínimo 10 vezes. As vossas notas não são o mais importante para mim. No meio de tantas incertezas que envolvem as decisões da maternidade, aqui eu não tenho dúvidas.

Se quero que tenham boas notas? quero muito. Se quero que se esforcem e sejam bons alunos? quero muito. Mas há 10 coisas (se calhar até mais) que para mim são mais importantes que as vossas notas e não têm necessariamente de ser por esta ordem:

  1. Que entendam a ligação entre as palavras esforço e recompensa e que acreditem que essa ligação vai estar sempre presente em tudo na vossa vida, na escola, em casa, na amizade e no amor. Que aceitem que embora não exista recompensa sem esforço, poderá existir esforço sem recompensa
  2. Que saibam que o valor de uma pessoa está sobretudo naquilo que ela dá e recebe e que isso não se expressa em nenhuma escala de avaliação
  3. Que se cuidem e se protejam muito, cada um de vocês e entre vocês. Que sejam os melhores amigos e que confiem uns nos outros como em mais ninguém
  4. Que não me vejam como uma amiga mas como a vossa mãe e que se percebam que essa relação vai sempre ser mais forte que qualquer outra de amizade
  5. Que continuem a puxar-me para dançar na cozinha e que eu largue sempre tudo por uma dança a 2 ou a 5 (“a sério que até esta é mais importante que as nossas notas? mãeiiiii tem noção que a partir de agora vai ser ainda mais dançar e ainda menos estudar?”)
  6. . Que me peçam festinhas nas costas e que me surpreendam com abraços pelas costas
  7. Que continuem a invadir a minha cama pela manhã com beijos lambuzados e abraços prolongados
  8. Que aprendam que em casa todos devem participar nas tarefas e não apenas ajudar
  9. Que sejam honestos convosco e com os outros. Educados com os colegas e com os professores. Educados dentro da sala de aula, na cantina e no café em frente à escola. Que respeitem outras opiniões ainda que contraditórias à vossa. Que não defendam a vossa opinião só porque sim, aceitem mudar se assim vos fizer mais sentido. Que denunciem o que não acharem correcto e que estejam atentos a quem precisar de ajuda
  10. Que se lembrem sempre que EU ESTOU AQUI ♥
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Campeonato Mundial de Surf 2017 em Peniche
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Torneio RCS sub14 25NOV17
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Torneio RCS sub14 25NOV17

Com o bom tempo vem também a falta dele

Com o bom tempo vem também a falta dele, dele do tempo, do tempo do pai. Os dias estão maiores e maiores são também as horas do final do dia, com o pai a chegar, por vezes, já depois da hora do jantar.

Eles são três. Mais os cães (2), mais a cabra (o Nando). E quando todos juntos, nem sempre se portam bem. Às vezes, mas assim só mesmo às vezes, apetecia-me entregar o tablet e os comandos da playstation também à cabra e aos cães, só que durasse o tempo de eu ver um episódio de uma série qualquer, ou de passar das primeiras 3 páginas da VISÃO.

Mesmo indo contra tudo o que sempre defendi, dou comigo a acenar-lhes, a todos, com a mão em movimentos na diagonal e grito-lhes num tom, que até poderia ser ameaçador, não tivesse uma voz de fina de leitãozinho que acabou de entalar a pilinha: “esperem só até eu contar isto ao vosso pai” “vou já ligar ao pai” “isto não vai ficar assim”. E logo a seguir lembro-me de como não gostava quando a minha mãe nos ameaçava com exactamente as mesmas palavras que eu debito agora contra a minha vontade.

Quando o pai abre a porta, entra e chama por nós, as queixas já passaram o prazo da acção, dando lugar a abraços e promessas de perdão. Sentados na mesa para jantar, e são quase todos os dias que jantamos juntos, mesmo que tarde e a más horas, disputamos ao segundo a atenção do pai. São várias as vezes que tenho de lhes pedir para se calarem “agora é a mãe a falar”. Dava jeito um sistema de senhas para ceder o palco às partilhas de todos. Na verdade, desde que comprámos a fiambreira que sentimos que também devíamos ter um dispensador de senhas, porque uma fiambreira, por norma, está sempre acompanhada de senhas e listas de espera.

É assim desde que me casei, já lá vão 16 anos e eu ainda não me habituei. Sempre que o calendário dita a mudança da hora para o horário de verão, o campo fica-nos com o melhor de nós, as horas que não nos permitem estarmos mais tempo juntos. Juntos os 2, os 5, os 8 (os cães e a cabra também devem sentir falta).

Chego até a ter saudades. Saudades da pessoa que vive na mesma casa que eu e se deita na mesma cama, ao meu lado, todos os dias.

Poderão ler mais reclamações aqui: Afinal, amanha devia ser sábado

 

Insuficiente ou insatisfeita?

Numa escala quantitativa de 1 a 100, qualquer nota igual ou superior a 50, é um resultado positivo. Para alguém como eu, não chegar ao 100, assumindo que faltou a diferença entre o resultado e o 100, ou pior, que errei o valor que quantifica essa diferença, qualquer resultado inferior ao 100 é insuficiente.

Se não chego onde quero, se o resultado é inferior ao que me propus, logo, é insuficiente. E pior que não chegar ao 100 é ter a certeza que nem sempre dou tudo em tudo o que faço, que nem sempre sou suficientemente capaz de dar o meu melhor.

Todos temos, mas especialmente todas as mulheres que são mães, papéis vários, que ora se distinguem, ora se aproximam e confundem-se entre si. Somos mães, mas continuamos a ser filhas, somos madrinhas e afilhadas, tias e sobrinhas, amadas e apaixonadas. E ao fim do dia, ou da semana, ou do fim-de-semana, ou das férias, ou do ano, a sensação é sempre que ficou alguma coisa por fazer. Ficou por responder aquele email que chegou com uma bandeira vermelha a gritar a sua prioridade, ficou por marcar a consulta do mais novo no ortopedista, ficou por devolver a chamada da minha mãe, ficou por reservar um fim-de-semana para dois, ou pelo menos um jantar naquele restaurante novo que já abriu há seis meses, ficou por marcar o almoço com a amiga que precisa tanto de desabafar, ficou por visitar o bebe que nasceu quase há um ano (no hospital não dá jeito, no primeiro mês a mãe está cansada, e já passaram 5 meses e a mãe já está a trabalhar), ficou por ver pelo menos um dos filmes nomeados para os oscars.

O mais velho já fez 13 anos no sábado, oficialmente um teenager, o que faz de mim, oficialmente, uma mãe de um teenager, com todos os desafios e desvios que isso nos traz aos dois. Eu acordei sem lhe ter comprado nenhum presente. Pior do que não ter comprado o presente, foi a sensação de não ter estado atenta o suficiente para sequer saber o que ele queria receber. Arrastei a minha querida sobrinha Maria comigo e com a minha falta de planeamento familiar (e não só), e em troca da melhor taça de açaí do mundo, rumámos em direcção aos 105 km de distância da loja preferida do João Maria. Com stress e após uma viagem express, fiquei feliz de saber que ainda acerto nos gostos do meu pequeno grande amor e a certeza que nunca mais deixo as compras para quem mais gosto para o último dia. Já no Natal eu tinha feito essa promessa, depois de ficar horas agarrada ao telefone a ligar para a MRW a perguntar pelos presentes que eu tinha encomendado a 3 dias da noite mais mágica do ano.

Serei mesmo insuficiente? Ou estou apenas insatisfeita comigo, nada que um bom filme e uma noite bem dormida não possam resolver? Agora vou só ali mudar a minha foto de perfil no Facebook. Aumenta-me o ego e entro na semana pronta para dar tudo.

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©Gonçalo Villaverde

Seis dias em viagem, sem eles

Desde há muitos anos que tenho de viajar em trabalho. Faz parte da área que escolhi. Fez parte do trabalho na agência de viagens onde estive 12 anos e faz parte do trabalho onde estou agora. Já deveria estar habituada, deveríamos estar, eu e eles, mas no momento de me despedir parece sempre a primeira vez.

Por experiência, reconheço que só lhes devo contar de véspera, ou até no próprio dia. Quanto maior for a antecedência que lhes contar, mais tempo andam a stressar com isso. A primeira viagem que fiz depois de nascer o João Maria, há cerca de 12 anos, ele tinha apenas um ano e um mês. Claro que me custou a mim o dobro do que lhe custou a ele. Quando cheguei o pai fez a surpresa de irem juntos esperar-me no aeroporto. Eu trazia uma mala cheia de saudade e necessidades, o bebé João encontrou no aeroporto um lugar cheio de curiosidades e tudo, nesse dia, tinha mais importância que o regresso da mãe. Não me esqueço do abraço que me deu, quando finalmente os seus olhos repousaram nos meus e se demoraram, para logo a seguir ficarem, os meus e os deles, molhados de alegria.

Cheguei ontem de uma viagem de seis dias, seis dias de mim sem eles e deles sem mim, seis dias que já terminaram e me trouxeram de volta a casa e aos meus. Foram também seis dias em que pensei que, para quem é mãe de 3 crianças pequenas, pode encontrar pelo menos 5 (pequenas grandes) vantagens em fazer uma viagem sozinha, de vez em quando.

  1. As malas – eu até gosto de fazer malas (detesto é desfazê-las), mas fazer mala para 5 é dose. Gosto de fazer apenas a minha mala, sozinha e com tempo, e poder escolher com calma o que vou vestir em cada dia.
  2. As manhãs – normalmente nas viagens de trabalho tenho de me levantar mais cedo do que o habitual, mas sabe-me bem vestir-me só a mim, descer as escadas e ter todo um pequeno-almoço já feito à minha espera, sem gritos, nem birras.
  3. As refeições – a preparação e a escolha das refeições numa casa de 5 é sempre um desafio. É bom estar 6 dias sem pensar no jantar e nos lanches da escola. Guardo sempre a terça-feira para almoçar com o mais velho e com a minha mãe. Também quero começar a organizar-me para conseguir almoçar uma vez por semana com cada um dos mais novos. Esta terça-feira não almocei com o João Maria, não fiquei à espera dele à porta do liceu (mesmo depois de ele já me ter pedido para eu esperar dentro do carro), não almocei a correr em casa da minha mãe, com ela sempre a pedir-me para comer só mais um bocadinho, não cheguei atrasada ao trabalho a seguir ao almoço.
  4. Um quarto de hotel e uma cama só para mim – esta não precisa de grandes explicações pois não? Uma cama sem visitantes de pés frios a meio da noite (mas que eu confesso que adoro e lhes digo muitas vezes que podem aparecer sempre que quiserem) e uma casa de banho só minha, que mesmo de porta aberta, tenho a certeza que ninguém vai entrar “Mãeeeee posso ficar aqui só um bocadinho?”
  5. Tempo para ler e pôr as séries em dia – tinha planeado adormecer com um braço por cima do mais recente do Afonso Cruz e o outro no écran do computador encostado ao  Jack e à Rebecca. Cá em casa sou só eu que delira com o This is us. O Kiki às vezes também gosta, mas eu desconfio que o que ele gosta mesmo é de se enroscar a mim na minha cama, enquanto eu respiro e me inspiro com a história fantástica desta família, ainda que seja apenas de ficção. Não li, nem vi um único episódio, e dei comigo muitas noites a pensar na falta que me fazem os beijinhos deles de boa noite, a pedirem que fique só mais um bocadinho, ou que conte só mais uma história.

É mais fácil não estar sabendo que eles estão bem, estão com o pai que se esforça nestes dias para que eles sintam o menos possível a falta da mãe. É verdade que me custa sempre ir e me sabe muito bem regressar, mas enquanto estou de viagem estou bem, e muitas das vezes até estou muito bem.

Se há metade de mim que lhe custa ir, há também a outra metade que quer sair, sentir, conhecer, ser, estar, saborear, viajar, e que me faz de certa forma, sentir privilegiada por poder escolher fazê-lo.

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Também poderão gostar de ler sobre a última viagem que fizemos os 5: Os Cinco em Cinque Terre

Até à lua e voltar? Infinitos de infinitos?

É inquestionável o amor que sentimos pelos nossos filhos mas e o amor que eles sentem por nós? Quantas mães não ouviram já, ou leram em cartas e recados rasurados, gosto da mãe até à lua e voltar? Infinitos de infinitos?

O amor que os nossos filhos sentem por nós revela-se em cada pormenor do seu dia-a-dia e em cada acordar noite após noite. Felizmente, no que toca a noites, falo de barriga quase cheia. Os meus três filhos são quase três anjinhos a dormir, que dormem quase todas as noites pelo menos quase 10 horas seguidas.

O amor deles apresenta-se de todas as formas de arte que eles conhecem e dominam. Na arte da dramatização – com as birras de manhã para não ficarem na escola; na pintura –  com os desenhos que são, quase sempre sobre a mãe, que é, na maior parte das vezes, uma senhora alta, magra, de nariz largo e faces muito rosadas; na caça ao tesouro do conforto da cama da mãe em noites de pesadelos; no palco dos fins-de-semana por poderem ficar mais tempo na sala; na luta pelo lugar no sofá ao lado da mãe; na escrita criativa com as dedicatórias mais empenhadas e sobre avaliadas, confiantes que a sua mãe será sempre, ou pelo menos até serem adolescentes, a melhor mãe do mundo (esta parte da melhor mãe do mundo, a mim, sempre me deixou de consciência pouco tranquila, é só a mim?)

Naturalmente, com a idade, vão perdendo a vontade e o à vontade para grandes declarações de amor. Dos 3, o mais velho é o que, actualmente, menos se manifesta em relação aos sentimentos. Também eu, à medida que fui crescendo, deixei de escrever notas aos meus pais a dizer o quanto gosto deles. E gosto tanto. Já não faço desenhos com a cara deles colada ao peito, os braços a saírem da cabeça e os olhos colados às orelhas, já não lhes peço colo no centro de saúde quando vou às vacinas, nem chamo por eles a meia da noite quando há trovoadas. Também não lhes ligo de manhã a dizer que não me apetece ir trabalhar e que gostava de ficar a dormir até mais tarde ou, simplesmente, a esborrachar o sofá lá de casa.

Na semana passada, uma criança, a um dia de fazer 4 anos, morreu nos braços da mãe, sufocada com uma bola saltitona. Não quero explorar aqui a tragédia da história em detalhes – sei que é a vida, que por oposição à morte, se revela com toda a efemeridade e fragilidade, com retalhos que não são fáceis de cozer.

Basta um segundo para que tudo o que era, deixe de ser. Enquanto é, enquanto somos mães (e que o sejamos para sempre), enquanto somos filhas, netas, tias, enquanto somos sobrinhas, madrinhas e afilhadas, é dizer, falado, escrito e desenhado, as vezes que forem possíveis, com vontade e à vontade: Gosto de ti até à lua, ir e voltar, infinitos de infinitos. E mesmo depois, quando o que era já não é, vou continuar sempre a gostar de ti, até à lua e voltar, infinitos de infinitos.

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A avó Helena despediu-se! Outra vez.

Há 8, ou 9 anos, não me recordo se o Kiki tinha 1 ou 2 anos, que sugerimos à avó Helena que se despedisse por nós, e agora, foi a avó que pediu para se despedir de nós. Há 8, ou 9 anos, não consigo saber ao certo quantos, que a avó Helena tem sido a rede da tenda onde actuamos os 5.  A avó vai buscar à escola – e sortudos destes miúdos que não frequentam AEICs, ATLs e afins – , arranja os cereais, lava as chuteiras, prepara o jantar, dá boleia para o treino,  procura os pares das meias perdidas e encontra os legos debaixo do sofá.

Há já mais de um ano que a avó tem vindo a avisar, que muito em breve, deixaria de ser cozinheira, motorista e engomadeira, para voltar a ser apenas mãe e avó. E agora chegou a altura, em que a avó não entrega a chave, mas apenas a pasta, à recém-chegada MJ. Amanhã quando der o toque de saída, vai ser a MJ que está à porta da escola à espera dos meus filhos, para os trazer para casa e dar cumprimento ao horário a cores que está preso no frigorífico com ímanes de vários países.

Coincidentemente, a semana em que a MJ entra na correria dos nossos horários, é uma semana que eu vou ter de trabalhar fora de horas, o pai começa a chegar cada vez mais tarde, e a meio do mês tenho uma viagem de trabalho em que vou estar fora de casa, e do país, 6 dias. A MJ vai ser o nosso SOS e, com toda a certeza, um número que vai estar sempre nas 5 chamadas recentes. Vou esforçar-me para não abusar em telefonemas repetidos e recados excessivos, tarefas infinitas e preocupações desmedidas.

Eles vão sentir a falta da presença diária da avó, eu vou sentir da minha mãe, e a minha mãe vai sentir a minha falta e a deles. Vais, não vais mãe? Mas sabes qual é a melhor parte? Agora que já não nos aturas todos dias nem nos arrumas os pratos com as torradas frias. Agora que já não reclamas com a lama nos bancos do teu carro, ficas com mais tempo livre para nos convidar para aqueles almoços de domingo no teu tacho de barro.

Obrigada por tudo MÃE.

Obrigada pela forma como te dedicas a nós. A mim, aos meus e aos teus, à minha e à nossa família. Obrigada.

Amanhã de manhã ligo. E no dia a seguir também. E no outro. E no outro a seguir ao outro. Só para combinarmos o almoço de domingo.

Também poderão gostar de ler: Para ti, que és minha MÃE

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O meu nome é Patrícia e …?

Já vos aconteceu de certeza estarem num grupo e pedirem-vos para se apresentarem. Explicar quem são, de onde vêm, ou onde estão e para onde vão, em apenas duas ou três frases, que se pedem curtas e objectivas, mas que sirvam de legenda a quem acabou de vos conhecer.

Há umas semanas atrás pediram-me que me apresentasse a um grupo de 15 pessoas que tinham acabado de entrar no mesmo espaço que eu e que iriam passar as próximas 6, 7 horas comigo. Começou o que estava mais à ponta, e eu no meio, fui ficando cada vez mais inquieta, sem saber muito bem o que dizer quando chegasse a minha vez. Cada pessoa se tornava, à medida que falava, numa pessoa mais interessante que a anterior, e eu, naturalmente, também queria tornar-me interessante para os outros. De repente todas as outras histórias de vida que me estavam a ser apresentadas se tornaram muito mais interessantes que a minha.

Rapidamente chegou a minha vez, e eu, num discurso completamente desorganizado, dei início à minha apresentação. As palavras começaram desordenadamente a ultrapassar-me e eu distraí-me com o barulho do meu próprio pensamento. Não me lembro bem do que disse. Sei que contei que trabalho no departamento de promoção de uma associação de produtores de vinho, que sou mãe de 3 rapazes e que pertenço a um grupo de voluntariado.

Gostava de ter falado no meu blog e na razão pela qual o comecei a escrever. Na verdade, era essa a razão pela qual eu me tinha inscrito no workshop de phone photography, para poder melhorar a imagem digital do meu blog. Não foi por trabalhar com vinhos, nem por ser mãe de 3 rapazes, foi também pelo grupo de voluntariado, para poder melhorar a presença nas redes sociais, mas foi sobretudo para tirar o maior partido do meu telefone e melhorar as fotografias deste blog.

“Olá, eu sou a Patrícia e tenho um blog desde que o meu irmão morreu.” Seria esta a forma mais directa de me apresentar? Será isso aquilo que mais me define junto dum grupo de 15 pessoas que acabei de conhecer? Que impressão quero eu causar? A de alguém interessante para os outros ou que sintam compaixão por mim e pela minha história? E sentir-me interessante para os outros é importante porquê? Se calhar até não é. Mas a verdade é, que desde essa apresentação que tenho andado a pensar, que quando me voltarem a pedir para me apresentar, quero estar melhor preparada.

“Olá, eu sou a Patrícia, tenho 3 filhos rapazes e 2 sobrinhas raparigas. Trabalho numa área que gosto muito e, na maior parte dos dias, estou feliz com as minhas escolhas e com a vida que me é oferecida todos os dias. Faço o melhor bolo de iogurte do mundo (é da bimby, mas o meu é mesmo o melhor) e adoro viajar”.

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Eu acredito (e quero acreditar sempre) nos outros e, sobretudo, nos meus

Eu acredito (e quero acreditar sempre) nos outros e, sobretudo, nos meus. Não gosto de ouvir dizer que não há esperança nas pessoas, ou pior ainda, quando dizem que os animais são melhores que as pessoas. Não. Eu gosto muito de animais (fora gatos e melgas) mas gosto, sobretudo, das pessoas.

Serei eu uma sortuda por estar rodeada de pessoas boas? As minhas pessoas.

Eu conheço a Fernanda que todas as manhãs dá uma volta a mais à rotunda de São Bento para dar boleia ao Gonçalo para o trabalho, conheço uma Sandra que sobe e desce o planalto para levar o Gonçalo a casa. Conheço a Sofia que vai deixar (outra vez) a família dez dias para ir para um campo de refugiados em Dunquerque, conheço a Kika que aos domingos troca o sofá por casas que precisam de grandes limpezas e pequenas obras,  limpezas e obras essas que são feitas por ela e um grupo de amigos com idades entre 14 e os 17 anos que juntos arregaçam as mangas. Conheço o Sebastião e o Carlos, o Pedro e o Zé, o Gonçalo e a Teresa, que treinam miúdos às vezes em troca de tudo e, muitas vezes, em troca de nada. Conheço a Rita e a Susana que, às terças e às vezes também às quintas, saem de casa à hora que, habitualmente eu chego a casa e me sento no sofá, para cozinharem uma refeição quente na igreja e prepararem cabazes para famílias necessitadas. Esta semana estão a pedir cobertores, quem tiver para dar pode-me contactar por mensagem. Conheço a Madalena que diz sim a tudo e todos e anda com a mala do carro, que embora pequena, sempre a transbordar, ora de sacos de excesso, ora de sacos (os mesmos) de faltas. Conheço a Rosa que organiza festas de aniversários a quem nunca soube o que era juntar os amigos à volta de um bolo de aniversário. E ainda mexe uns cordelinhos para lhes transformar os sonhos em desejos e os desejos em presentes. Conheço a Rita que adoptou o João. Conheço a Dora que trabalha toda a imagem de um grupo de voluntárias que não têm um tostão para lhe pagar. Conheço a Joana e a Maria, a Pipa e a Teresa, que tiraram do calendário o feriado do dia 1 Novembro, encheram-se de sacas e sacos de ração para animais e foram entrega-las a terras onde o pasto ardeu por completo. Conheço a Sandra, que é advogada, e dá (do verbo dar = oferecer) apoio jurídico a mais de metade das associações e grupos de voluntariado que eu conheço e ainda arranja paciência para me ajudar, a mim, a responder a multas da PSP. Conheço a Marta que não perde uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, e a Paula, que é membro da direcção de uma fundação que, todos os meses, faz o pino e a cambalhota para ver se o dinheiro ganha a ginástica necessária. Conheço a Ana que, juntamente com as colegas do departamento de psiquiatria do hospital onde trabalham, desenvolveram um projecto de inclusão de doentes mentais através das artes. Conheço uma Patrícia, que é um bocadinho mais minha que todas estas pessoas que eu já falei aqui, e muitas haveria por falar, que basta sonhar que eu estou com algum problema para, no dia a seguir, me ligar a apresentar uma solução. Conheço uma Lurdes que já me fez companhia de carro até ao Algarve só para eu não ir sozinha ao jantar de 20 anos da minha turma da universidade, uma Sara que leva o meu Kiki à catequese, uma Domingas que leva o meu João Maria ao liceu e uma Tina que lhe dá dormida quando as festas de aniversário são a seguir ao jantar.

Estas são as minhas pessoas. São a base da minha pirâmide, o meu mapa de trajecto e o meu norte seguro. São as que quero comigo e ao meu lado, as que me fazem fugir dos pensamentos infectados vindos de compassos contaminados. É por elas que eu acredito (e quero sempre acreditar) nos outros, e sobretudo, nos meus.

Foto retirada do Pinterest

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Um presente especial

Sempre gostei muito de dar presentes, presentes especiais para as pessoas que são especiais para mim. Gosto de pensar na pessoa enquanto escolho o presente, gosto de imaginar a sua reacção ao recebê-lo, gosto de surpreender e gosto que se note que a escolha do presente foi pensada ao pormenor. Está claro que nem sempre acerto, embora tente com entusiasmo.

Uma das pessoas a quem eu adorava dar presentes era ao Tio Pedro. Era tão fácil comprar-lhe um presente, primeiro porque havia sempre algo que ele queria e não podia comprar, depois porque com ele acertava sempre e dava-me um gozo enorme vê-lo a usar os presentes que eu lhe oferecia.

Este Natal ofereci 2 presentes muito especiais. Mandei imprimir todos os textos do meu blogue, em formato livro (em formato não, é mesmo um livro), e ofereci um exemplar ao meu pai e outro à minha sogra, os únicos da família que não têm facebook e não seguem o blogue. A minha sogra já há algum tempo que andava a pedir e eu ia respondendo que sim, que em breve iria imprimir e dar-lhe. O meu pai não me pediu, mas mesmo assim, eu sabia que ele também iria gostar de ler. Comecei por pensar fazer apenas uma encadernação bonita, embora não quisesse que parecesse um trabalho da escola agrafado ou preso por umas argolas. Pedi ajuda a um amigo que imediatamente colocou os seus recursos ao serviço de me concretizar esta ideia, que para mim e para quem eu ia oferecer, seria com certeza um presente único e com uma carga emotiva grande. A ideia rapidamente passou a projecto, o projecto deixou de ser apenas meu, e o resultado foi em tudo superior do que tudo o que eu tinha idealizado.

Mandei fazer 5 cópias, que entretanto se transformaram em 6. Seis cópias de um livro encadernado e com capa à medida. Seis cópias que contam parte da história do Tio Pedro e da minha também. Acabei por oferecer também um à minha mãe, à minha cunhada, à tia Té e guardei um para mim.

Às vezes penso, se esta desculpa de fazer um livro para oferecer ao meu pai e à minha sogra, não foi apenas uma forma de satisfazer um capricho meu. Mas agora que olho para ele, ali na minha mesa da sala, sei que valeu cada cêntimo que gastei. Para além de ter ouvido da minha sogra o melhor elogio de sempre “tens os pensamentos muito organizados na cabeça, está tudo aí como deve ser, já me tinham dito no outro dia na pastelaria”.

Agora digam-me lá, quantos de vós já ouviram tamanho elogio? Da sogra?

Gostei tanto da capa e gosto tanto de o ter assim, em cima da minha mesa da sala
Adorei adorei o resultado final

E, não menos importante, o Facebook decidiu mudar o seu algoritmo e a partir de agora vai mostrar-vos mais posts dos amigos e menos de páginas onde fizeram like. Querem saber quando há posts no blog? Vão à página de Facebook aqui, clicam onde diz “A Seguir” e seleccionam “Ver Primeiro”. Obrigada.

Vamos casar

“Vamos casar!” Está quase a fazer um ano que recebi um e-mail teu com a notícia que ias casar. E tu estás prestes a festejar o teu primeiro aniversário de casamento. Senti felicidade em cada palavra que escolheste para enviar aquele e-mail aos teus amigos e eu, orgulhosamente, incluída. Ler-te foi como se, de repente, te estivesse a observar a tratar pormenorizadamente de cada detalhe, com o cuidado de quem não quer que falhe nada naquele que ia ser o teu grande dia.

Disseste-me que o amor é assim, inesperado e louco. Lembro-me de ter ficado a pensar que bem que tu combinas com o amor, tu que és, tal e qual assim, inesperada e louca. Imagino que se, um dia, chegarmos a ir ver um concerto juntas, um daqueles que tantas vezes já tentámos combinar, e se por acaso no meio da multidão te perdesse e tivesse de te descrever a quem por lá andasse, diria que és assim, inesperada e louca. E feliz. Inesperadamente louca e feliz.

Disseste-me também, e o meu entusiasmo a aumentar à medida que deslizava os olhos pelas tuas palavras, que eu iria poder colaborar activamente naquele que seria um dos dias mais importante da tua vida. Imaginei que me emocionaria ao ver-te vestida de noiva (emociono-me sempre, até com as noivas que não conheço), pensei nas músicas que irias gostar de ter na festa (nem quero pensar o que sofreria um DJ nas mãos de uma noiva exigente como tu), cheguei até a pensar se teria algum vestido bem giro e que me ficasse bem à séria, que ainda não tivesse usado muitas vezes, ou se deveria começar já à procura de algo que me fizesse sentir como a pessoa mais gira da festa logo a seguir à noiva, e à mãe da noiva, e à irmã, e às madrinhas da noiva. Um vestido giro para o teu grande dia.

Demorei tempo até chegar à parte da mensagem em que dizias que, por opção de ambos, o tinham decidido fazer a dois.

“Ui! A Isa não só vai casar como está verdadeiramente apaixonada e encontrou alguém mesmo à medida daquilo que sempre sonhou.”

A única coisa que pretendias com a tua mensagem, para além de nos contares tão boa novidade, era que partilhássemos da tua felicidade, mesmo à distância, e que te enviássemos uma palavras nossas que irias ler no teu dia. Fiquei tão feliz por ti, ficámos eu e o meu (também teu) Pedro, felizes por ti e pelo teu Pedro (que passou a ser nosso também no dia que o apresentaste). Disse-te que sim, que te escreveria, e não o cheguei a fazer a não ser hoje, quase um ano depois. Desculpa a demora, mas eu sei que tu sabes que elas têm estado sempre aqui, só precisavam que eu as enviasse para ti. E se vamos partilhar da tua felicidade e de quem contigo escolheres para estar ao teu lado? Sem dúvida alguma que vamos!

Beijinho nosso, Isa, meu e do nosso Pedro, para ti e para o também nosso Pedro.

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O primeiro pedido de casamento (a dois na John Lennon Wall, Praga)
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O pedido de casamento em frente aos amigos (eu lá atrás)
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O email “Vamos casar”
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O casamento de sonho na praia (e as mensagens dos amigos a serem lidas)
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Família, os 4

Não pode ser verdade

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Não pode ser verdade. Lembro-de ser este o primeiro pensamento logo depois de receber o telefonema da minha mãe. Foi com esse pensamento que deixei o meu filho, com apenas 5 meses, a dormir no berço, entregue à minha sogra. Não pode ser verdade.
Eu já tinha perdido os meus 4 avós, mas isso eu sempre soube que um dia ia acontecer. Mas perder o meu único irmão estava longe de ser verdade, quando ele tinha apenas 22 anos e eu apenas 28 e o meu primeiro filho apenas 5 meses.

Durante muito tempo fui perseguida por esse pensamento – não pode ser verdade – e tantas vezes acreditei que não era. Poucos meses depois da morte do meu irmão viajei para fora do país. Recordo-me como me soube bem, ainda que por apenas alguns dias, estar longe daquela verdade. O regresso a ela foi, porém, inevitável. Estava tudo igual. O meu irmão não tinha voltado nem nunca mais ia voltar. A mudança do estado, de não querer acreditar na verdade para, aos poucos, começar a aceitar que não a posso alterar, é um processo longo e doloroso.

A semana passada encontrei a Catarina. É sempre bom, embora triste, falar com a Catarina. Não precisamos de introduções nem de metáforas para o que sentimos. Sabemos exactamente o que cada uma quer dizer. Seis anos era o que nos separava do irmão mais novo. O meu, o mais novo de dois. O da Catarina, o mais novo de três. Hoje nada nos separa. Partilhamos a mesma ausência e a mesma dor. A dor da Catarina é mais recente que a minha mas nem por isso é diferente. Talvez eu só esteja mais habituada a viver com ela. Talvez lhe saiba bem, também a ela, embora seja tão triste, falar comigo. Talvez por sabermos as duas, demasiado bem, o significado de Não pode ser verdade.

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