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Filhos, as vossas notas não são o mais importante para mim

– Mãeiiiiiiiii

– Sim Kiki [não é mãeiiiiiii. é apenas mãe, mas deixa lá isso agora]

– Mãeiiii tive 75% a inglês

– É uma boa nota Kiki. Parabéns.

– Mas é só bom mãe, não é muito bom.

– Kiki, de 1 a 100 quanto é que és feliz?

– 1 milhão mãe.

– Kiki, em percentagem, se tivesses de dar uma nota à tua felicidade quanto é que davas?

– 100%! Mãe. Eu sou 100% feliz.

E foi com esta resposta do Kiki que dei comigo a pensar no que é realmente o mais importante para mim. E embora vocês não tenham paciência para ler os textos longos da mãe, o texto de hoje é para vocês.

Meus filhos, meus Marias, meus amores maiores, as vossas notas não são o mais importante para mim. Vou repetir. As vossas notas não são o mais importante para mim. E se alguma vez eu disser que são, por favor obriguem-me a ler este texto em voz alta no mínimo 10 vezes. As vossas notas não são o mais importante para mim. No meio de tantas incertezas que envolvem as decisões da maternidade, aqui eu não tenho dúvidas.

Se quero que tenham boas notas? quero muito. Se quero que se esforcem e sejam bons alunos? quero muito. Mas há 10 coisas (se calhar até mais) que para mim são mais importantes que as vossas notas e não têm necessariamente de ser por esta ordem:

  1. Que entendam a ligação entre as palavras esforço e recompensa e que acreditem que essa ligação vai estar sempre presente em tudo na vossa vida, na escola, em casa, na amizade e no amor. Que aceitem que embora não exista recompensa sem esforço, poderá existir esforço sem recompensa
  2. Que saibam que o valor de uma pessoa está sobretudo naquilo que ela dá e recebe e que isso não se expressa em nenhuma escala de avaliação
  3. Que se cuidem e se protejam muito, cada um de vocês e entre vocês. Que sejam os melhores amigos e que confiem uns nos outros como em mais ninguém
  4. Que não me vejam como uma amiga mas como a vossa mãe e que se percebam que essa relação vai sempre ser mais forte que qualquer outra de amizade
  5. Que continuem a puxar-me para dançar na cozinha e que eu largue sempre tudo por uma dança a 2 ou a 5 (“a sério que até esta é mais importante que as nossas notas? mãeiiiii tem noção que a partir de agora vai ser ainda mais dançar e ainda menos estudar?”)
  6. . Que me peçam festinhas nas costas e que me surpreendam com abraços pelas costas
  7. Que continuem a invadir a minha cama pela manhã com beijos lambuzados e abraços prolongados
  8. Que aprendam que em casa todos devem participar nas tarefas e não apenas ajudar
  9. Que sejam honestos convosco e com os outros. Educados com os colegas e com os professores. Educados dentro da sala de aula, na cantina e no café em frente à escola. Que respeitem outras opiniões ainda que contraditórias à vossa. Que não defendam a vossa opinião só porque sim, aceitem mudar se assim vos fizer mais sentido. Que denunciem o que não acharem correcto e que estejam atentos a quem precisar de ajuda
  10. Que se lembrem sempre que EU ESTOU AQUI ♥
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Campeonato Mundial de Surf 2017 em Peniche
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Torneio RCS sub14 25NOV17
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Torneio RCS sub14 25NOV17

Uma casa com 5 é assustador, não?

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Aldeia da Pedralva
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(foto quase igual, mas nunca ficamos bem os 5 por isso tive de colocar 2 fotos)

Há uns tempos a trocar mensagens com uma amiga, na altura grávida de terceira viagem, e hoje mãe de uma bebé que se juntou aos 2 rapazes lá de casa, ela perguntava-me como era ter (ou melhor, SER) uma família numerosa, pergunta à qual ela própria respondeu no  imediato “é assustador mas tudo se faz”.

E eu fiquei, desde esse dia, com este post aqui em rascunho e a pensar se será assim tão diferente o dia-a-dia de quem tem 1, 2, 3 ou mais filhos. E sim, há diferenças. Quem diz que onde comem 2, comem 3 ou 4, com certeza não sabe a diferença entre fazer 1, 2 ou 5 camas; apanhar brinquedos do chão de 1, 2 ou 3 quartos; fazer trabalhos de casa com 1, 2 ou 3 filhos; ir buscar à noite 1, 2 ou 3 adolescentes; acompanhar jogos e outras actividades de 1, 2 ou 3 miúdos; dobrar meias de 1, 2 ou 4 rapazes (obrigada, Maria José!); fazer lanches de manhã sem trocar os aromas dos iogurtes para 1, 2 ou 3 mochilas.

Cada filho vem com as suas preferências, feitio e jeito de ser. Há que ter sempre presente que embora sejamos UM grupo de 5 pessoas, somos também CINCO pessoas que, por acaso, pertencemos a um mesmo conjunto que é a nossa família. Que eles, para além de serem UM conjunto de três filhos, são também TRÊS filhos, TRÊS pessoas diferentes que por acaso são irmãos e são meus filhos. Que só porque o Zé não gosta de queijo, eu não devo mandar sempre sandes de fiambre ao João e ao Kiki, que só porque o João e o Kiki jogam e gostam de rugby, o Zé Maria pode preferir o futebol ou o ténis e que eu vou ter de lhe dar o mesmo espaço e tempo para escolher e decidir, mesmo que isso se transforme em muito mais trabalho para mim.

Há que definir prioridades e organizar muito bem tudo o que é essencial para garantir o bom funcionamento do que é mais importante – eu sei o que estão a pensar neste momento “e quais são exactamente essas prioridades? quando o tempo (e/ou o dinheiro) é pouco o que é que é essencial? o que é afinal o mais importante?” – não sei responder porque as prioridades mudam a cada instante. Numa família de 5 o ritmo por vezes atinge velocidades alucinantes e muitas vezes o mais importante é só mesmo: parar, baixar o tom de voz, lembrar-me o quanto gostamos uns dos outros e sorrir. Tento sempre nunca abdicar de manter os mimos à frente das tarefas, desafio diariamente os limites da minha paciência, especialmente no início e final de dia, e procuro truques que permitam contrariar as leis do tempo que não pára.

Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6 (como eu já contei aqui), e muitas vezes mais de 6 com os amigos que tanto gostamos de receber, há tachos grandes e tabuleiros que enchem o forno, há sempre migalhas no chão da sala e pingos de água no chão da casa-de-banho, há contas grandes de gás, luz, água e supermercado, há barulho, há marcas de mãos sujas nas paredes e no comando da televisão, há muito barulho e estranha-se quando o silêncio prevalece.

Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6, há também coisas que são iguais a todas as outras famílias, independentemente de serem famílias de 2, 3 ou 5 pessoas. Há mantas no sofá onde nos enroscamos e tantas vezes adormecemos, há preguiça aos domingos e tostas mistas ao jantar, há beijinhos que tentam curar feridas e abraços prolongados de quem quer afogar a saudade. Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6, resmunga-se quando a sopa é igual 3 dias seguidos e discute-se quando alguém deixa o pacote de bolachas vazio na gaveta. Há, nesta família de 5, actualmente 6, sobretudo muito AMOR (que nunca falte) e RESPEITO (que nem sempre se consegue). Há muito boa vontade (na maior parte dos dias) – e há afinal uma prioridade que é constante e que posso partilhar convosco: não desistir nunca de nenhum e nisso incluir-me também a mim.

[também poderão gostar de ler Interesses e preferências de 4+1]

O Mundo ao Contrário

Fez ontem uma semana que o meu pai, depois de uns dias internados, teve alta do hospital para nossa casa. Percebi, no momento em que o meu pai ligou a dizer que ia sair naquele dia, que o local onde mais lhe apetecia estar, e o mais seguro, seria connosco em nossa casa. Exactamente como, não há tantos anos atrás, também a casa dele, ou melhor, a dos meus pais, foi o meu lugar seguro, onde mais me apetecia estar e o único que fazia sentido existir.

Quando lhe dei a mão para o ajudar a entrar no carro e percebi a sua fragilidade fiquei assustada, sobretudo até perceber se eu estaria à altura do desafio de o ajudar na sua recuperação, mesmo que por pouco tempo. Dei comigo a divagar sobre o que ele terá sentido nesse momento e se se estaria a recordar de quando, há 41 anos atrás, me pôs a mim no carro, primeira filha, para me levar para casa. Expectativas diferentes mas um mesmo sentimento, o amor mais descomprometido e duradouro de todos, o de pai e filha.

Confrontada com a nova condição de cuidadora, com o cuidado de proteger e não o do conforto de ser protegida, foi como se virassem o meu mundo ao contrário. Ainda ontem era o meu pai que me dava a mão para amparar os meus primeiros passos e agora é a minha que lhe serve de bengala. Mas afinal não está ao contrário. É apenas o mundo a ser mundo, a girar sobre si próprio, o que faz com que umas vez estejamos firmes e de pé e outras em desequilíbrio e ao contrário. E que bom sentir que, mesmo quando de cabeça para baixo, tudo se mantém no seu lugar.

Nesta última semana os meus filhos têm … nem sei bem como dizer sem parecer mais do que aquilo que eles realmente são… porque são meus e não consigo falar deles deixando de lado o facto de serem os meus, superado todas as minhas expectativas. É nestas alturas que vejo que não tenho feito (não temos, eu e o Zinho) assim tanta coisa mal feita com eles. O João Maria, no auge dos seus 13 anos, que marcam uma adolescência já há muito anunciada, ele que está há 8 dias sem a privacidade do seu quarto, e sem o conforto da sua cama, disse-me à noite enquanto eu aconchegava no sofá “mãe, o avô fica o tempo que for preciso, eu estou muito bem aqui”. O Kiki comentou comigo antes de ontem: “Mãe, vê-se mesmo que o avô se sente muito melhor aqui”. O bebé Zé já ajuda com os medicamentos e leva para a mesa o que corresponde à hora do jantar. E ontem, em dia de greve, com o bebé Zé sem escola, fizeram companhia um ao outro toda a manhã.

Temos passado todos muito tempo juntos e isso já não acontecia há muito tempo. Aliás, os seis, assim juntos, nunca tinha acontecido. E isso é bom. Muito bom.

O nosso paciente está muito melhor, também com enfermeiros destes não se esperava outra coisa, e ficará connosco o tempo que precisar para se recuperar. Agradecemos o facto de ele confiar em nós, de estarmos perto e de podermos todos contar uns com os outros.

 

 

(RE)Encontrei-te a Sul

(RE)Encontrei-te a Sul, no meu então sul, sem saber que rapidamente te transformarias no meu Norte. Passaram já 19 anos desde esse dia. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Os primeiros 5 meses foram a 300 km de distância, com pouca calma e muita ânsia, e nem sempre nos víamos ao fim-de-semana. A primeira vez que pensámos fazer uma surpresa um ao outro escolhemos fazê-la no mesmo dia. O resultado foi um fim-de-semana cada um para o seu lado, no sítio onde cada um de nós esperava vir a surpreender o outro. Operação de charme mal sucedida mas que nunca ficará esquecida.

Não satisfeita com isso, aumentei a distância para quase 10 vezes mais. Eu nove meses em Inglaterra e tu nove meses aqui. O tempo a passar e o namoro a continuar. Quando cheguei entrámos juntos numa agência de viagens em Alcântara para marcar uma viagem, desta vez a dois, para o México. Encurtámos a distância para uma viagem mais perto e mais barata e saímos de lá  com dois bilhetes para uns dias no Funchal e mais uns tantos em Porto Santo. Ao fim de dois dias em Porto Santo (em Outubro de 2000 em Porto Santo estávamos nós, os empregados do hotel e o rancho folclórico que animava as noites no hotel e nós, para eles não desanimarem, dançávamos com eles) mudámos a viagem e regressámos ao Funchal.

Com os pés já assentes no continente pediste-me em casamento logo a seguir à nossa viagem. Aqueles dias nas ilhas tinham sido o máximo de tempo que tínhamos passado perto um do outro. Marcámos casamento para maio e antecipámos para fevereiro. Pediste-me em casamento num restaurante que já não existe (pouco tempo depois foi mandado demolir) com um anel que eu troquei na semana seguinte (e o problema não era apenas o tamanho).

Passaram já 19 anos desde o princípio dos dois. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Já nos magoámos e já nos perdoámos. Provavelmente vamos voltar a magoar-nos e espero que tenhamos a mesma vontade de nos voltarmos a perdoar. É metade da minha vida vivida contigo. Mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

É tudo mais do que alguma vez imaginei. Ou sonhei. É a minha vida toda presa no teu olhar em mim. É o teu olhar demorado pousado em mim. São os meus sonhos e os teus projectos. É o teu sorriso a entrar em casa. É o teu deixar-me ir e o meu regresso no teu abraço. É a tua clareza e a minha certeza.

És tu. Sou eu quando estou contigo.

Somos os dois.

[Também poderão gostar de ler: Um dia vamos voltar a ser dois]

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Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos?

Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos? Não me refiro aos imóveis, esses, como o próprio nome indica, não se mexem, portanto podem-nos deixar estar exactamente no mesmo sítio, onde sempre estiveram.

Eu digo as nossas coisas, as que andam connosco de um lado para o outro e que carregam as nossas impressões digitais, preferências e sentimentos. O que vai ser da minha fita azul do cabelo que eu só uso em casa ou na praia? Quem vai abrir e fechar os meus livros? E se lá dentro estiver alguma lista de supermercado antiga? Ou uma mensagem esquecida? Para onde irão parar os meus álbuns de fotografias? As fotografias dos meus pais e dos meus avós, algumas de familiares que os meus filhos e netos já não vão conhecer, nem sequer em fotografia? O que lhes fazem quando eu não estiver cá para lhes contar ou relembrar?

Até que geração se vai falar do Tio Pedro na minha família? Eu tenho filhos e muito provavelmente os meus filhos também terão filhos, eu poderei ser avó, bisavó, estando ou não presente fisicamente, há uma grande probabilidade de eu ser avó e bisavó. Mas o Tio Pedro não. Não teve filhos. É tio dos meus filhos e será tio avô dos meus netos – é assim, não é? mesmo não estando fisicamente connosco? Para mim é. Os meus filhos sabem quem é o Tio Pedro, já leram sobre ele, fazem perguntas e ouvem-me muitas vezes a recorda-lo. Mas irão eles falar dele aos seus filhos? Aos meus netos? Aos sobrinhos netos do Tio Pedro? Será que vão colocar nas suas casas uma fotografia dele? Quem é que se vai lembrar que ele uma vez caiu de bicicleta e foi no banco de trás comigo para o hospital, muito agarrado a mim, com a minha mãe a apitar e os 4 piscas ligados?

Voltando às coisas que são nossas e que são apenas coisas, mas que por serem nossas não são coisas iguais às coisas dos outros, tenho a certeza que ninguém deixa em testamento uma argola de prata comprada num quiosque na Zambujeira do Mar (tenho dúvidas se será mesmo prata, uma vez que tenho a parte de cima da orelha tão vermelha e a doer-me tanto, que  já só consigo deitar a cabeça do lado direito e se continuar a insistir a usa-la corro grandes riscos de perder não só a argola mas também a orelha esquerda). O Pedro, meu marido, muito experiente em furos (não destes, mas ainda sim tem experiência em furos, diz que a parte de cima das orelhas não foi feita para ser furada. Grande argumento Senhor Pedro, então e a de baixo foi?

O que vai acontecer às minhas cartas? As que recebi quando estava na universidade, a fazer ERASMUS ou mesmo as de início de namoro quando fiz 9 meses de INOV Contacto em Inglaterra – não posso deixar isso a ninguém – será que devo ser prudente ao máximo de as queimar já para ter a certeza que não vão um dia parar a um caixote de mudanças que por engano vai parar a um imóvel que não o meu? E todas as que eu escrevi e estão espalhadas em várias casas? Onde poderão ir parar? Será que alguém, para além do seu destinatário, as vai ler? Se bem que, pelo menos para mim, as minhas cartas, as recebidas e as enviadas, só têm interesse se forem lidas por alguém que me conheça. E, ainda assim, não têm muito interesse, a não ser os desenhos que o Pedro fazia quando não sabia o que me escrever ou para preencher a folha até ao fim. Ele não gostava de espaços vazios entre nós. Ainda hoje não gosta. Só nas noites muito quentes, aí mantemos a distância máxima. Nas restantes dormimos tipo lapas (ora porque queremos, ora porque temos filhos de lapas a ocupar o espaço quase todo da nossa cama).

Todas estas coisas que partilho agora vieram-me à cabeça nas férias, numa viagem de carro de Portimão até Olhão, no dia em que fomos à Ilha do Farol. Quando não estamos a trabalhar sobra-nos muito mais tempo para pensar em coisas nas quais habitualmente não pensamos. Nas férias também tenho sempre muitas ideias de negócios e criação de micro-empresas que nunca chegam a sair daí. Da minha cabeça. Mesmo sem saírem, na incubadora de empresas que mantenho dentro da minha cabeça facilmente se transformam em grandes empresas de sucesso com direito a case study e entrevistas para a televisão em horário nobre (isto já não existe, pois não? horário nobre na televisão?). Voltando à viagem de carro, encontrei na mala do meu carro a bolsa dos CDs do Tio Pedro. Abri a bolsa, sem pedir autorização (a sério que é só a mim que isto me faz confusão?) e mexi nos CDs. Aquela bolsa anda no meu carro há meses e eu nem sequer a pedi emprestada. E devia, porque ela não é minha.

Ouvi, ouvimos os 5, com reclamações e curiosidade dos mais novos e, da minha parte muita saudade, os CDs de Guano Apes e Silence 4. Ainda sei as letras de cor. A nossa cabeça consegue ser maravilhosa de uma forma surpreendente. Eu diria mais. Mágica.

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Conseguem ver a argola no furo de cima?

 

Oh meu querido ♥ ALENTEJO

Uma das coisas boas que a idade nos traz (agora assim de repente só me estou a lembrar de uma) é termos mais certezas do que gostamos, não gostamos e/ou adoramos.

Todos nós, de alguma forma, arrumamos na nossa cabeça as pessoas em pequenos grupos – digam-me por favor que não sou sou eu que faço isto – de acordo com as suas preferências. Ai! Eu passo a explicar. Não me interpretem mal. Não é bem arrumá-las em diversas categorias, é assim mais agrupa-las. É praticamente a mesma coisa, não é? E com que finalidade? Literalmente nenhuma. É que há tanta informação aqui dentro, e eu que até gosto de ver as coisas bonitinhas e arrumadinhas, que eu vou fazendo pequenos grupos, mas são só coisas minhas, para me darem alguma orientação.

Há as pessoas que gostam de bolas de Berlim com creme e as que nem lhes tocam se tiverem creme;  as que preferem Londres a Paris e as que lhes é completamente indiferente (really? então mas Londres tem alguma coisa que ver com Paris?); as que adoram Pink Floyd, as que nem por isso (eu) e as que preferem Pearl Jam (já vi duas vezes ao vivo e ainda quero MAIS); as que seriam incapazes de passar uma noite à porta da loja para comprar um bilhete para qualquer que seja o espectáculo e as que são (já eu, noites mal dormidas só em nome dos meus grandes amores e felizmente foram muito poucas); as que não se importam de acordar cedo e as que se importam sempre de acordar independentemente da hora (odeio fazer parte deste grupo); as que gostam de sardinhas e as que preferem carapaus (eu gosto mesmo é da salada algarvia em cima do pão molhado com a gordura da sardinha); as que praia é sinónimo de Algarve e as que não.

Pois eu, que toda a vida fiz férias no Algarve, estudei e adorei lá viver 4 anos incríveis (diz que há amigos dos meus filhos que já lêem o blog, não vou mesmo poder falar sobre isso aqui), sou Alentejo. Eu sou cada vez mais Alentejo. Sou petiscos, ondas e água fria. Sou percebes e pão alentejano com tudo (pão esse que ao fim de uma semana me provoca uns gases bastante incomodativos). Eu sou verão, mas com temperaturas amenas. Sou esplanada com o sol a por-se no mar. E que mágico é o por do sol no Alentejo. Sou camisola com capuz ao final do dia e manta na cama à noite. Sou manhãs de nevoeiro e cheiro a mar autêntico e verdadeiro.

Há qualquer coisa na costa alentejana que me deixa a alma tatuada (ainda não foi este verão que fiz uma tatuagem – é difícil escolher o quê). É aqui que eu sou mais eu e que encontro mais dos meus. Sou também Londres, bola de Berlim sem creme, Pearl Jam e festivais de verão. Sou família, amigos e manhãs mal humoradas. Sou sardinhas e sou Alentejo.

Mas porque somos 5 e há que respeitar as decisões e condicionantes da tribo, também sou Algarve. Sou o movimento dos primeiros dias de Agosto com os amigos todos a chegar. Sou praia e mergulhos até à noite (impossível no Alentejo). Sou pizzas Nosolo (vou conseguir assinantes para uma petição para terem na carta uma pizza de chourição picante) e sangria com bola de sorvete de limão. Sou ilha do Farol (um ano destes passo lá uma semana) e sunset no Cais Aqui. Sou sobretudo tudo o que mais gosto. Somos todos, não?

[Nota: estivemos pela primeira vez uma semana de férias em Odeceixe. No mapa já é Algarve mas em tudo o resto é Alentejo ♥]

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Café da Praia, Odeceixe
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Eu a pedir boleia, Odeceixe
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2 Pescadores apanhados desprevenidos, Odeceixe
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A vista da janela da sala, Odeceixe
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O meu mais novo, Odeceixe
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O meu do meio, Odeceixe
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Meus, Odeceixe
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À espera que ele se ponha, Odeceixe
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Foto pela minha amiga Sara, Aldeia da Pedralva

Vais viajar em trabalho? Então só tens mesmo é de aproveitar

O meu blog hoje é para todas as mães que são desafiadas, convidadas e/ou obrigadas a viajar em trabalho:

  • Aceitem o desafio. À excepção das saudades, tudo vai decorrer normalmente na vossa ausência. Vão todos comer, dormir e acordar, embora não necessariamente pela ordem que vocês gostariam. São só uns dias e o pai pode mudar os horários por uns dias. O pai também pode pedir ajuda aos avós, tios, vizinhos, padrinhos, amigos (vêem como podem contar com tanta gente?).
  • Não precisam de deixar todas as refeições prontas, afinal para que é que foi inventado o take away? E aquele livro do Jamie Olivier que o pai tem na cozinha e ainda nunca teve oportunidade de passar do prefácio? Talvez esteja na altura de entrar de cabeça no enredo principal da história.
  • Se o hotel onde estão for bom, peçam jantar room service uma noite e abusem das séries todas que estão em falta há meses.
  • Saiam à noite pelo menos numa das noites. Quando vai ser a próxima vez que podem sair sem pagar baby sitter? E dançar num sítio onde ninguém vos conhece?
  • Deixem a todos (marido, pai e filhos) um recado na almofada. Faço sempre isso quando faço uma viagem sem eles. Deixo um recado personalizado por baixo da almofada que normalmente eles só vêem quando se vão deitar. No outro dia encontrei um recado que deixei ao bebé Zé há 4 meses, sublinhado a cores por ele.
  • Não telefonem muito, os mais novos ficam ansiosos e confusos “afinal a mãe está onde? Parece tão próxima no telefone”.
  • Não tragam sempre presentes. Pode haver viagens onde não seja possível comprar nada e depois é uma desilusão enorme para todos.
  • Não stressem muito com aeroportos e afins (eu stresso). Bem sei que a nossa Europa aparentemente segura tem mostrado da pior forma toda a sua fragilidade, mas já que têm de ir, pois que seja com toda a confiança.
  • Aproveitem! Mesmo que em trabalho, uma viagem é uma viagem. É sempre uma oportunidade de conhecer outro país, outras cidades (e ainda estão a receber por isso).

São desafiadas a viajar em trabalho? Digam sim. Arrisquem na vossa vida profissional. Sermos mães só nos torne mais fortes e nunca menos capazes. Observem e aprendam. Regressem com saudades, não abusem nas ausências e aproveitem todas as vivências.

Também poderão gostar de ler: Seis dias em viagem, sem eles.

As fotos em baixo são de várias viagens de trabalho – não parece pois não?

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A rua onde eu cresci

Passei ontem na rua onde eu vivi e cresci dos 3 aos 18 anos. E de repente a rua pareceu-me muito mais pequena. E a casa onde eu morei 15 anos parece-me mais feia. Mudaram-lhe os azulejos, mas teria sido melhor tirarem-nos. Nunca gostei de casas com azulejos, pelo menos por fora. E agora moro numa casa cheia de azulejos por dentro. Já cá estavam e eu gosto deles. Mas não gosto dos azulejos que estão do lado de fora da casa onde eu vivi. E cresci. Gosto dos azulejos azuis da casa do meu vizinho da frente. Têm uma flor fina, são muitos, azuis clarinhos, e a flor clara também, muitas flores viradas para o mesmo lado, menos uma. E todas as vezes que lá passo a pé demoro tempo até encontrar a flor azul clarinha que está virada para o lado contrário de todas as outras. Terá sido engano ou propositado?

Nada me parece igual na rua onde eu vivi. E cresci. Só as memórias estão iguais. Mas nem as memórias. Essas parecem-me muito melhores agora do que as vivências naquela altura. E o meu irmão lá em todas as memórias.  E elas a subirem-me do coração até aos olhos. Sem passarem pela boca. Chegam aos olhos já molhadas. E espessas. Lágrimas espessas, que tal como no vinho, demoram mais tempo a cair. Marcam o caminho por onde passam, sejam o do copo para a boca, ou o do coração para os olhos, e dos olhos à boca, onde voltam a ser água.

Mas nessa rua, onde eu cresci e durante 15 anos vivi, foram poucas as lágrimas e nenhum o vinho que bebi. Bebi muitas vezes água do mesmo copo dos vizinhos, quando tomávamos de assalto as cozinhas com a porta destrancada. Sobretudo nas tardes em que o calor fazia tremer a linha do horizonte.

E a minha avó a querer que eu dormisse a sesta. E a casa a ficar toda escura para não deixar entrar o calor. E a televisão escura também. E as fotografias. Tudo escuro, tudo a preto e branco. Menos a minha avó. Menos as minhas avós. As duas eram feitas de cores alegres e gargalhadas demoradas. E as saudades que tenho delas. Saudades que às vezes parecem ser maiores que as memórias. E o meu irmão sempre lá. Nas memórias e nas saudades.

E o meu irmão ali, sempre ali, na rua a brincar, sempre com as faces rosadas, a subir às árvores e a jogar à bola. E os poucos carros que passavam interrompiam o jogo.

E o meu irmão aqui. Sempre aqui. Nas memórias e nas saudades. Nas lágrimas espessas e presas. Aqui. Sempre aqui.

Três filhos, três meses de férias

Três filhos com 7, 10 e 13 anos três meses de férias e eu com apenas três semanas. O fim do ano lectivo vem sempre carregado de temperaturas elevadas e preocupações agravadas. O que fazer aos três nos próximos três meses menos três semanas? Todos os anos parece tarefa impossível arrumar no calendário tantos dias de férias.

Se por um lado os quero no sossego do lar, e conhecendo desde já as boas qualidades da playstation enquanto babysitter, por outro lado não os quero a esborrachar sofá o dia todo e a clicar em botões sem parar. Mas esta semana estão os três em casa. Também lhes sabe bem acordarem sem outros planos que não sejam brigarem uns com os outros. Combinei com a nossa Maria José assegurar uma parte da manhã (normalmente só lá está em casa de tarde) e já só ficam a sobrar três meses menos as minhas três semanas de semanas e menos esta semana. Estes dias, embora eu esteja a trabalhar, também têm um sabor a férias. Acordo mais tarde (isto é tão importante para mim). Levanto-me mais tarde (e sim Pedro, custa-me mais a mim do que a ti). Visto-me apenas a mim. Arranjo apenas um pequeno-almoço (por acaso hoje para começar saí de casa sem comer nada) e não chego atrasada, ou se chegar… não posso culpar ninguém, sou eu a única culpada (quer dizer, bem vistas as coisas, nos restantes dias do ano em que me atraso sou eu a culpada e injustamente muitas vezes culpo os miúdos).

Para a semana o Zé Maria vai fazer um ATL da Câmara Municipal de Alpiarça, o Kiki vai para os Pirilampos e o João Maria preenche a agenda pela Bijou, escadas do seminário e piscinas dos amigos ou recebe os amigos em nossa casa. Na semana a seguir segue o João Maria para o último ano de Pirilampos (ainda bem que os manos estão em 2 semanas diferentes) e ficam o Kiki e o Zé juntos no ATL em Alpiarça. De seguida chegam as minhas três semanas de férias e entra, cheio de força, o enorme mês de Agosto.

Meu querido e longo mês de Agosto ao qual se junta a primeira quinzena de Setembro: vamos ter de elaborar juntos um plano em parceria com as avós, primas, Maria José, playstation, o tomatal e a piscina do nosso quintal.

Todos os anos é a mesma coisa e todos os anos temos conseguido resolver. Parece quase magia como é que conseguimos encaixar três filhos três meses de férias em programas planeados e outros que vão sendo inventados.

E por aí?

 

 

(des)ligada

Estou sem whatsapp há 3 dias. Facebook igualmente. Deixei ficar o instagram. Gosto de ver imagens sem legenda. Também gosto com legendas. Há 3 dias que não leio nenhuma declaração de amor nem nenhum comentário com rancor. Há 3 dias que estou mais (des)ligada. Desligada dos outros. Ligada em mim.

Nestes 3 dias que passaram vi mais e melhor as pessoas e falei mais e melhor com mais pessoas. Atendi chamadas de quem precisava mesmo de falar comigo e liguei a quem eu precisava mesmo de falar. Olhei mais e pausadamente para a pessoa que estava à minha frente na fila do supermercado e para a que estava ao meu lado no semáforo vermelho também. Perdi um almoço combinado com amigas e uma discussão de intrigas. Perdi ainda um vídeo novo de um bebe a rir e outro antigo de um ladrão a fugir. Já não oiço a música da Luciana Abreu há 3 dias. Nem a da Maria Leal. Talvez não tenha sido ainda suficiente o tempo para as esquecer de vez.

Devo ter perdido também algum aniversário, daqueles que celebramos na cronologia com “parabéns, beijinhos”. Eu por vezes acrescento “saúde e felicidades”, que é sempre bom de se desejar, nem que seja a um amigo do amigo em comum.

Tive finalmente tempo para ir aos correios levantar o último livro que comprei: “Dicionário de Erros Frequentes”. Que pequena grande maravilha. Tenho me divertido à brava. Até de manhã lhe pego, assim só para lhe tocar e espreitar se a foto de capa se mantém igual.

Protegi-me mais dos outros e sobretudo protegi os outros de mim. Escrevi mais. Trabalhei mais e melhor. Dormi mais e melhor. Desliguei-me das notificações e partilhei menos emoções.

Sobrevivi e usufruí. Já me apetece (des)ligar-me de novo ainda que saiba que novo já nem o cheiro a mofo.

Reajo a quente face a comportamentos mornos. Alguns dirão ser próprio da idade. Eu prefiro culpar este meu espírito de imaturidade. Ainda assim, prefiro-o à falta de verdade. Embora apenas por 3 dias, soube-me bem a ausência de mim nos outros e dos outros em mim. Talvez até, vivesse melhor assim.

E agora? partilho o texto onde?

Fotos PINTEREST.

 

Com o bom tempo vem também a falta dele

Com o bom tempo vem também a falta dele, dele do tempo, do tempo do pai. Os dias estão maiores e maiores são também as horas do final do dia, com o pai a chegar, por vezes, já depois da hora do jantar.

Eles são três. Mais os cães (2), mais a cabra (o Nando). E quando todos juntos, nem sempre se portam bem. Às vezes, mas assim só mesmo às vezes, apetecia-me entregar o tablet e os comandos da playstation também à cabra e aos cães, só que durasse o tempo de eu ver um episódio de uma série qualquer, ou de passar das primeiras 3 páginas da VISÃO.

Mesmo indo contra tudo o que sempre defendi, dou comigo a acenar-lhes, a todos, com a mão em movimentos na diagonal e grito-lhes num tom, que até poderia ser ameaçador, não tivesse uma voz de fina de leitãozinho que acabou de entalar a pilinha: “esperem só até eu contar isto ao vosso pai” “vou já ligar ao pai” “isto não vai ficar assim”. E logo a seguir lembro-me de como não gostava quando a minha mãe nos ameaçava com exactamente as mesmas palavras que eu debito agora contra a minha vontade.

Quando o pai abre a porta, entra e chama por nós, as queixas já passaram o prazo da acção, dando lugar a abraços e promessas de perdão. Sentados na mesa para jantar, e são quase todos os dias que jantamos juntos, mesmo que tarde e a más horas, disputamos ao segundo a atenção do pai. São várias as vezes que tenho de lhes pedir para se calarem “agora é a mãe a falar”. Dava jeito um sistema de senhas para ceder o palco às partilhas de todos. Na verdade, desde que comprámos a fiambreira que sentimos que também devíamos ter um dispensador de senhas, porque uma fiambreira, por norma, está sempre acompanhada de senhas e listas de espera.

É assim desde que me casei, já lá vão 16 anos e eu ainda não me habituei. Sempre que o calendário dita a mudança da hora para o horário de verão, o campo fica-nos com o melhor de nós, as horas que não nos permitem estarmos mais tempo juntos. Juntos os 2, os 5, os 8 (os cães e a cabra também devem sentir falta).

Chego até a ter saudades. Saudades da pessoa que vive na mesma casa que eu e se deita na mesma cama, ao meu lado, todos os dias.

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