João Fragoso, Fragoso, João

João Fragoso, Fragoso, João,

A Sandra ligou-me esta semana. A tua Sandra, a sempre tua Sandra ligou-me e eu não pude logo atender. Quando peguei no telefone vi para além da chamada perdida, um sms a dizer “preciso de falar contigo. Beijinhos”. Liguei de volta assim que pude. Temos falado com alguma regularidade. Andamos desde o verão a tentar combinar um almoço, ou um jantar ou um almoço e um jantar. Sei que vontade e conversa vão sobrar para muitos encontros se assim os conseguirmos agendar. Incrível como distribuímos mal o tempo por aqueles com quem gostamos mais de o partilhar. A Sandra, a sempre tua Sandra, pediu-me que escrevesse sobre ti. Fiquei em pânico, disse que não sabia como o fazer, que tinha medo de não conseguir, não da forma como ela poderia estar à espera. Mas não há possibilidade alguma de dizer não à tua Sandra, e isso tu sabes tão bem. E aqui estou eu. Pedi-lhe ajuda e aceitei o desafio. Pedi-lhe que partilhasse comigo tudo o que eu não sei de ti, que me contasse histórias e preferências, episódios e referências tuas, mais ou menos pormenorizadas, lembranças mais ou menos desarrumadas. E a Sandra, a tua sempre Sandra tem-me contado tanto João! Desembrulhou no chat do facebook (sim, a Sandra já tem facebook, com uma foto de perfil onde apareces a dar-lhe um beijo terno no rosto) uma série de frases e eu a vê-a a sorrir a escrevê-las para mim e logo a seguir uma pausa. E eu do lado de cá sem saber se foi o telefone que tocou ou o fôlego que a parou. E fico a olhar para o écran do computador, à espera que caia mais uma mensagem sobre ti, sem saber se do outro lado a tua Sandra, a tua sempre Sandra, abandonou o teclado para mexer no refogado do tacho, para atender o telefone ou para se recuperar da falta de ti.

Tanto de ti que eu não sabia e a tua, a sempre tua Sandra contou-me. Equipas de Jovens de Nossa Senhora (tal como eu), escuteiro em criança e mais tarde de volta para acompanhar os filhos, pai sempre presente e é aí que o coração da mãe Sandra sofre a dobrar, pela falta irremediável do pai dos vossos filhos, também tu perdeste o teu pai cedo demais, benfiquista com lugar cativo no estádio e no coração, banda preferida The Cure, futebol, basket e ténis, surf e skimming, snooker, poker e sueca, os concertos com a Margarida, a Fórmula 1 com o João Maria, as touradas a três, os fins-de-semana a dois, as férias e os planos a quatro. “Melhor sorriso do mundo. Super bem disposto, de bem com a vida”.

Passámos férias juntos pelo menos duas vezes. Parque de Campismo de Monte Gordo, eu com os meus pais, e vocês em tendas mais afastadas, e dois ou três anos mais tarde, já sem os meus pais, nós nuns apartamentos em Manta Rota. Nós e a tua Sandra, e a Sara e o Zagalo. E o meu irmão. E tu que gostavas mais daquela ponta do Algarve, da água quente, das praias com grande extensão de areia e do cheiro a sardinha assada nas esplanadas. E a Sandra a preferir o Frango da Guia em Albufeira e a noite em Vilamoura. Mas na verdade quem gostava mais de sair à noite eras tu. E dançar. Dançar muito. Os dois chegavam sempre a bom porto e juntos encontraram a vossa praia. Sei que as férias dos últimos anos as passaram junto a Tavira, onde te iniciaste a ti e ao João Maria nas aulas de surf.

Foste especial até na forma como nos deixaste. Partiste no dia em que fazias 43 anos, aquele que deveria ser de festa e é assim que queremos que continue a ser, o dia do teu aniversário, de festa por tudo o que foste e por tudo o que fomos contigo. É também o dia de aniversário do meu pai, e tu que festejaste tão poucos aniversários com o teu, tinhas apenas 18 anos quando ele morreu. Somos os dois cúmplices na ausência prolongada da nossa amizade e na partilha da dor de quem perdeu familiares próximos cedo demais. Eu estava a almoçar com o meu Pedro, o meu pai e amigos do meu pai num restaurante em Vila Chã de Ourique. Falei ao telefone com o David, que inconformado e incrédulo me confirmou a notícia que nenhum de nós queria ouvir. Mesmo sem eu lhe responder ele repetia do outro lado “não pode ser Patrícia, não é verdade”. E logo a mim, e logo a ti, e ao David. E logo a nós que conhecemos tão bem o significado dessas palavras, “não pode ser, não é verdade”, e nós por dentro a rejeitar todas as confirmações e todas as retaliações. Passaram 11 anos desde a morte do meu irmão, quase 12, e eu sei exactamente as palavras que a minha mãe me disse naquela noite. E a minha sogra a ralhar comigo porque eu não estava a dizer a verdade. E eu em silêncio a desligar a chamada à minha mãe e a desejar chegar a Santarém para poder desmentir tudo. E a minha sogra a chorar e eu a não querer acreditar. O João Maria no berço. O meu telefone a tocar. Ele a querer mamar. E a minha vida toda a continuar.

João, tenho tantas saudades do meu irmão e tanta curiosidade pelo sítio que vos une aos dois. Pedi-lhe que te recebesse de braços abertos. Encontraste-o? Reconheceste-o? Passam tempo juntos? Fazem companhia um ao outro? Abraçam-se a cada vitória do nosso clube? Surfam juntos nas nuvens que vos escondem de nós? Manda-lhe um abraço forte. Meu. Outro para ti. Não tenho presente a memória do teu abraço mas a Sandra, a tua sempre Sandra, diz que o melhor abraço do mundo é o teu, apertado até faltar a respiração e repleto de amor e paz.

Fiz 40 anos há pouco tempo. Fiz uma festa gira mesmo à minha medida. Juntei quase uma centena de amigos. No dia a seguir uma amiga perguntou-me como é que se mantém contacto com quase uma centena de amigos. Não se mantém, mas a amizade não se esgota na ausência e agora que penso nisso, faltavas lá tu, e a Sandra, e o David.

Chorei tanto no vosso casamento. Não sei se dos copos que bebi, se de te ver chorar a ti, choraste compulsivamente quando a tua Sandra subiu vestida de noiva ao palco para cantar o Restolho da Mafalda Veiga, ou do meu ex-namorado, o teu amigo Pedro, através de quem cheguei até ti, ter escolhido a festa do teu casamento para distribuir convites para o seu casamento. E eu ali, sozinha, a chorar, magra e muito morena mas sozinha e sem nada nas mãos para distribuir. Casaste em Junho não foi? Eu na altura vivia em Faro e em Junho já tinha um bronze mais ou menos invejável. Curiosamente no dia do teu funeral também estive sozinha. E a chorar. Menos morena, sem bronze invejável, sem nada nas mãos para distribuir e a chorar.

‘A paz começa com um sorriso’ dizia Madre Teresa de Calcutá. Soube pela Sandra que eras devoto da Madre Teresa de Calcutá. O Papa Francisco (Xiquinho como lhe gostavas de chamar), disse na cerimónia da sua canonização, onde tinhas programado estar presente com os escuteiros que tanto gostavas, que terá dificuldade em lhe chamar Santa Teresa porque “Sua Santidade foi tão próxima a nós, tão suave e espontânea que vai continuar a ser chamada de mãe, Madre Teresa”. Eu diria antes que a paz encerrava no teu sorriso, aquele que sabias tão bem mostrar, de forma bem diferente a quem gostavas, de sorriso aberto e rasgado, e a quem não, de testa franzida e sorriso fechado.

O sorriso deixaste-o à tua Sandra. À tua sempre Sandra. Consegues imaginá-la a sorrir pelos dois? A cada lembrança que tem de tudo o que foram um com o outro? Tal e qual a amizade, também o amor não se esgota na ausência. Alimenta-se da saudade e multiplica-se sem perder a identidade.

jfragoso (1)

João Fragoso 11.05.73 – 11.05.2016

28 thoughts on “João Fragoso, Fragoso, João

  1. Patricia tens o dom de nos tocar no coração! Guarda o sempre bem junto a ti, nao o percas nunca! Um dia tb eu te vou pedir que escrevas por mim
    obrigada por nos chegares ao coração

    Sonia Rosa

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  2. Fiquei por momentos sem palavras e a pensar…nos momentos…

    O texto está lindo.

    Tens o dom da escrita. (Leio com regularidade o que escreves para o teu irmão)

    A Sandra vai gostar e o João também.

    Beijo grande para ti, outro para a Sandra e um beijo gigante para o João Fragoso.

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  3. Lindo texto, carregado de recordações mas também de esperança. Que a Sandra do João tenha a força necessária para fazer face a esta ausência.

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  4. Só consegui chorar, quase soluçar, entre o poder do amor e a angustia da saudade.
    Patrícia, muitos parabéns pela tua escrita limpa e cheia de sentimento. Simples e profunda.
    Sandra e Joao, o amor incondicional não tem forma nem tempo. Um beijo no coração de ambos.

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  5. Quando se escreve sobre alguém que nos tocou tanto ( que ainda nos toca ), ficamos quase com a ponta dos dedos dormentes, com medo quase do delinear sentido das palavras , atrás delas vêm os pensamentos as lembranças os sorrisos e as lágrimas , não há uma única vez que pense no João , no nosso querido João , que o coração não dispare irremediavelmente, ler o teu texto é estar à mesa com ele, com vocês todos em amena conversa de 26 de Abril de um ano qualquer, confesso que quase sempre choro cada vez que penso no João no nosso querido João , e que apesar de toda a distância temporal é provavelmente um dos sorrisos que mais custa não ver, não ouvir, não partilhar. Irei para sempre recordar o João, o nosso querido João como das pessoas que mais me tocou no coração, enquanto escrevo estas palavras choro desalmadamente e só posso concluir o óbvio , que o João o nosso querido João, nos faz falta, tanta falta, que por fim só me resta sorrir à distância de um abraço que um dia se concretizará. Um beijinho para a querida Sandra e para ti.

    Zagalo.

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  6. Patrícia, sem palavras! Ao ver agora a foto reconhecia. Recordei, o seu olhar meio e sempre com brilho, só pode! Alguém que escreve um texto como este é alguém Especial. Fantástico! As lágrimas que podem “surgir” são da emoção do que escreve….tocam-nos. Um beijinho e não deixem nunca de escrever

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  7. Patrícia realmente conseguiste tocar em algo especial com estas palavras. Conseguiste que por momentos os personagens estivessem tão presentes tão ali. Beijinhos

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  8. Quase todas as recordações que guardo do João da Sandra estão ligadas à Sandra do João. São do início das nossas vidas, dos tempos mais lindos e poderosos, que nos deixaram tão boas recordações e sentimentos para o resto da vida. Daqueles que nem a distância consegue apagar.

    As tuas palavras são tão cheias e tão lindas quanto o João, o sorriso e o abraço quente e amigo do João… Deixa muitas saudades, mas deixa acima de tudo muito orgulho por ter cruzado a minha vida.

    Grata pela linda homenagem que lhe fizeste!

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    1. Obrigada Patrícia! E eu ouvi-os muita vez a falar de ti. Temos muitos amigos em comum, até o nome e as nossas vidas nunca se cruzaram. Obrigada pelas tuas palavras. Beijinhos

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  9. Obrigada Patrícia, são das histórias que fazemos a nossa história e passar tantos sentimentos para os textos e partilhá-los com os outros é de uma enorme generosidade. A ti João, nunca te esqueceremos…

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  10. Não dá para ler sem chorar…
    Estou para aqui com os olhos inchados e nariz a pingar a tentar dar de jantar às minhas filhas sem que elas percebam a razão deste meu estado. “Entrou-me uma coisa para o olho. Estou constipada”, enfim…
    Não há palavras para descrever a falta que o João nos faz, especialmente aos miúdos, à Sandra, à minha tia, ao meu primo Tó…
    Um grande obrigado pela bonita homenagem. Tocou-me profundamente… 💖💖💖

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    1. Não deveria ser para chorar, mas sei que a saudade dói muito e é impossível não chorarmos a morte de quem gostamos. Grande beijinho para si! Obrigada

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  11. Fantástico Patrícia é tão real, tão apaixonante que dá vontade de ler e reler!
    Parabéns um beijinho grande
    E um especial para a Sandra e o João

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  12. Olá Patrícia! Li o teu texto e não mais consegui parar de pensar…
    Recordo-me da última vez que estive com o nosso João, não dissemos uma palavra mas aquele olhar e aquele abracinho do costume encheu-me a alma. E é isso que conforta as minhas saudades…
    lembro me de te ver no funeral sozinha…

    A minha fragosinha…
    aquela amiga especial, sempre especial, com um sorriso a esconder o que lhe vai no coração e pronta a resolver os problemas dos outros…

    Não sou de muitas palavras mas este texto fez-me…recordar…

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