Fiz o que sempre disse que não iria fazer

Sobre a bipolaridade das mães ou o efeito de um sábado fechada em casa e um domingo fora de casa à chuva (literalmente à chuva), por mera coincidência dois dias do calendário dos menos harmoniosos do mês (o DIU reduz em muito o efeito TPM mas não o elimina por completo). Este fim-de-semana fiz com dois dos meus filhos aquilo que disse que nunca faria. Estudei com eles. Estudei a matéria deles. Sentei-me ao lado deles a estudar, na esperança que eles, em estilo copy paste, estudassem também.

Eu que há uns meses escrevi um texto inspirador sobre tudo o que há de mais importante que as notas. Eu que sempre defendi, e continuo a defender, que o melhor que lhes posso ensinar é a saberem cuidar de si e a entenderem o efeito directo das consequências das suas atitudes, nomeadamente do seu esforço e da falta dele. Este fim-de-semana tive de alterar a minha tese de defesa e assumir que a autonomia de um adolescente a par com o seu livre arbítrio podem facilmente colidir com a minha vontade. Fiz o que sempre disse que não iria fazer. No sábado sentei-me com o mais velho a estudar e no domingo sentei-me com os dois mais velhos, a fazer o quê? novamente a estudar. Enquanto um me explicava numa voz quase adormecida os problemas económicos das pirâmides etárias dos países desenvolvidos, o outro respondia-me em inglês às perguntas que eu lhe fazia, e o Kiki com aquela cara fofa de Kiki admirado por me ouvir falar numa língua diferente da que uso quando lhe grito para ir tomar banho e não deixar nem a roupa espalhada no chão, nem a toalha molhada em cima da cama. E se eu experimentar chamá-los para a mesa em inglês? come on boys, dinner is on the table – será que resulta? E o Bebé Zé a reclamar que o fim-de-semana estava a terminar e que ainda não foi neste que o levámos ao cinema. É o segundo fim-de-semana que o Zé pede para ir ao cinema e não vamos. Esta semana vamos bebé, vamos antes de chegar o fim-de-semana querido Bebé Zé.

A Joana Paixão Brás do blog A Mãe é que sabe, perguntou ontem num post sobre o desafio de ter três filhos. E é isto que custa mais, Joana. Custa com a chegada do terceiro a falta de mais um par de braços, a falta de um terceiro colo, a falta de um dia extra de descanso pegado ao fim-de-semana. Custa não ter ido a Coimbra ver o jogo do Kiki para ficar com o João a estudar, custa não ter levado o Zé Maria ao cinema no domingo por ter ido a Alcochete acompanhar o jogo do João. É verdade que o amor se multiplica, mas o tempo infelizmente não. Hoje já é segunda. No próximo sábado trabalho. E entro na semana a pensar que este fim-de-semana dei tudo ao João, menos ao Kiki e tão pouco ao Zé. Fiz-lhe o seu bolo preferido, devolvi-lhe os comandos da playstation, que estavam hibernados desde segunda, e pouco mais.

Custa, e aqui nada tem a ver com o facto de ter 1, 2 ou 3 filhos, perceber que o mais velho passou pela primeira fase dos testes a estudar apenas para o suficiente. Sabendo eu que o suficiente não é suficiente, para além de que é a nota mais perto do insuficiente. Custa encontrar a melhor forma de transmitir aos meus filhos que devem estar preparados para a competição que existe actualmente e que se não forem bons alunos, ao invés de escolherem eles as oportunidades que existem, apenas ficarão com as sobras dos cursos que os outros não escolherem.  Custa fazê-los perceber, que em tudo o que fazemos, devemos esforçarmo-nos para o que o resultado seja muito bom, ou o melhor possível. Custa-lhes entender a mensagem que nem quando nos referimos a bondade, amor, vontade ou humildade, o suficiente é bom. O amor tem de ser sempre muito bom, assim como a vontade, a bondade e a humildade. Se não for bom ou muito bom não é suficiente. 

E agora, acabo, exactamente como comecei, com este comportamento bipolar que só uma mãe, como tantas outras mães, que se esforça sempre por dar o melhor, o muito bom ou o excelente, poderá entender. Se ainda não o fizeram, leiam-me também aqui.

João Maria, 8º ano
Pedro Maria (Kiki), 5º ano
Zé Maria (Bebé Zé), 2º ano

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