O caminho para a simplicidade

Não sei há quanto tempo sigo a página Pais com P Grande. Fascinam-me a sua escrita, a sua forma de estar na vida, de se dar aos outros e aos seus. Comecei por comentar alguns dos seus posts, trocámos algumas mensagens no messenger e a sua página é daquelas que ora me deixa em lágrimas, ora me deixa com um sorriso rasgado de emoção por tamanha gratidão. Em Junho deste ano começámos a falar com mais frequência. A Sofia estava a preparar uma das aventuras da sua vida e essa aventura ia trazê-la até mim, até Santarém, até Alpiarça, até à minha casa, até mim. Sem hesitar disse-lhe: “Sofia, vais ficar em minha casa. Quero muito receber-te.”

Só falei nisto ao Pedro e aos miúdos quando já estava muito perto da data e percebi que tinha mesmo de contar, só não sabia muito bem como.

– Meninos, vamos receber uma amiga da mãe cá em casa para a semana.

– É amiga da mãe?

– É.

– Mas a mãe conhece-a de onde? da Universidade? vive em França? já viveu numa carrinha? como assim? é hippie? tem tatuagens?

– Filhos, a mãe conheceu a Sofia na Internet.

Silêncio. E eu a ler os pensamentos do Pedro [Sim, senhora. Boa, Patrícia Alexandra. Eu aviso os meus filhos (porque é que quando não estamos de acordo os filhos passam a meus e teus em vez de nossos?) para não falarem com estranhos na Internet e tu, tu abres a porta da tua casa para uma estranha que conhecestes na Internet].

Chegou o dia de receber a Sofia. Com a chegada da Sofia chegou também a sua história, agora em primeira mão, do seu caminho de amor de Lisboa até Santiago de Compostela tendo como meta principal do seu destino: o AMOR cura tudo.  A Sofia apresentou-nos, a mim, à minha mãe, à minha sobrinha Maria, aos amigos que se juntaram a nós num final de tarde nas Portas do Sol, ao meu marido e aos meus filhos o seu caminho de amor. Mas eu percebi, no momento em que a abracei, que o seu caminho era também o da simplicidade e que o amor quando se revela, revela-se assim, simples como a Sofia.

Eu estava cheia de perguntas. Se bem me conhecem, eu não as poupo a ninguém, sobre a vida da minha nova amiga, sobre os desafios que teria de enfrentar até cortar a sua meta, sobre os meses que viveu com a sua família na Maria do Mar (têm mesmo de ler o blog da Sofia porque senão este meu texto fica demasiado longo). Eu desconhecia por exemplo que existem setas a indicar os caminhos de Fátima e Santiago Compostela em sítios onde eu passo todos os dias. Setas amarelas e azuis que eu nunca tinha visto. Estas são tão discretas que se revelam apenas a quem está a fazer o caminho, somente a quem está atento, assim como a Sofia se revelou a mim. Se estivermos muito ocupados com os pormenores não vimos o essencial e o essencial está, quase sempre, lá. Já dizia o Princepezinho “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

O mês passado estive, por desafio da minha amiga / colega / dream team Joana, num pequeno-almoço de networking só para mulheres. Eu adoro estas experiências e partilhas, adoro conhecer pessoas e ouvir as suas histórias embora fique sempre com a sensação que todas as outras histórias de vida são mais interessantes que a minha- não para mim – mas para os restantes presentes. Neste pequeno-almoço, quando chegou a minha vez de falar disse a todas que a minha vida era muito simples. Partilhei a história do meu blog e em poucas palavras falei daquilo que é o mais importante para mim. Eu que tinha estado tão entusiasmada a ouvir as histórias de todas, quando me calei senti também o entusiasmo das que me ouviam. E percebi que, muito provavelmente, a maior parte das pessoas (éramos um grupo pequenino mas muito rico em experiências) que ali estavam, aquilo que mais procuram e ambicionam é precisamente uma forma mais simples de (vi)verem as suas vidas. 

Uma vida mais simples e descomplicada. Mais com os que mais gostamos. Mais estar e menos ser. Mais ser e menos pensar. Menos desejar e mais agradecer. Mais sonhar e mais realizar. Menos falar e menos teclar. Mais ouvir e mais parar. Menos adiar e mais confirmar. Mais acreditar. Mais confiar. Mais amar. Mais do tamanho dos outros. Mais lado a lado. Mais bonito. Mais simples.

Querida Sofia, o teu caminho para a simplicidade é um ensinamento que eu não vou querer perder. 

Partilhas com amigos nas Portas do Sol
Nós e a Sofia.
Nada a ver com o texto. É só uma foto a fazer de conta que não sei que estou a ser fotografada.


FELIZ

Fiz o que sempre disse que não iria fazer

Sobre a bipolaridade das mães ou o efeito de um sábado fechada em casa e um domingo fora de casa à chuva (literalmente à chuva), por mera coincidência dois dias do calendário dos menos harmoniosos do mês (o DIU reduz em muito o efeito TPM mas não o elimina por completo). Este fim-de-semana fiz com dois dos meus filhos aquilo que disse que nunca faria. Estudei com eles. Estudei a matéria deles. Sentei-me ao lado deles a estudar, na esperança que eles, em estilo copy paste, estudassem também.

Eu que há uns meses escrevi um texto inspirador sobre tudo o que há de mais importante que as notas. Eu que sempre defendi, e continuo a defender, que o melhor que lhes posso ensinar é a saberem cuidar de si e a entenderem o efeito directo das consequências das suas atitudes, nomeadamente do seu esforço e da falta dele. Este fim-de-semana tive de alterar a minha tese de defesa e assumir que a autonomia de um adolescente a par com o seu livre arbítrio podem facilmente colidir com a minha vontade. Fiz o que sempre disse que não iria fazer. No sábado sentei-me com o mais velho a estudar e no domingo sentei-me com os dois mais velhos, a fazer o quê? novamente a estudar. Enquanto um me explicava numa voz quase adormecida os problemas económicos das pirâmides etárias dos países desenvolvidos, o outro respondia-me em inglês às perguntas que eu lhe fazia, e o Kiki com aquela cara fofa de Kiki admirado por me ouvir falar numa língua diferente da que uso quando lhe grito para ir tomar banho e não deixar nem a roupa espalhada no chão, nem a toalha molhada em cima da cama. E se eu experimentar chamá-los para a mesa em inglês? come on boys, dinner is on the table – será que resulta? E o Bebé Zé a reclamar que o fim-de-semana estava a terminar e que ainda não foi neste que o levámos ao cinema. É o segundo fim-de-semana que o Zé pede para ir ao cinema e não vamos. Esta semana vamos bebé, vamos antes de chegar o fim-de-semana querido Bebé Zé.

A Joana Paixão Brás do blog A Mãe é que sabe, perguntou ontem num post sobre o desafio de ter três filhos. E é isto que custa mais, Joana. Custa com a chegada do terceiro a falta de mais um par de braços, a falta de um terceiro colo, a falta de um dia extra de descanso pegado ao fim-de-semana. Custa não ter ido a Coimbra ver o jogo do Kiki para ficar com o João a estudar, custa não ter levado o Zé Maria ao cinema no domingo por ter ido a Alcochete acompanhar o jogo do João. É verdade que o amor se multiplica, mas o tempo infelizmente não. Hoje já é segunda. No próximo sábado trabalho. E entro na semana a pensar que este fim-de-semana dei tudo ao João, menos ao Kiki e tão pouco ao Zé. Fiz-lhe o seu bolo preferido, devolvi-lhe os comandos da playstation, que estavam hibernados desde segunda, e pouco mais.

Custa, e aqui nada tem a ver com o facto de ter 1, 2 ou 3 filhos, perceber que o mais velho passou pela primeira fase dos testes a estudar apenas para o suficiente. Sabendo eu que o suficiente não é suficiente, para além de que é a nota mais perto do insuficiente. Custa encontrar a melhor forma de transmitir aos meus filhos que devem estar preparados para a competição que existe actualmente e que se não forem bons alunos, ao invés de escolherem eles as oportunidades que existem, apenas ficarão com as sobras dos cursos que os outros não escolherem.  Custa fazê-los perceber, que em tudo o que fazemos, devemos esforçarmo-nos para o que o resultado seja muito bom, ou o melhor possível. Custa-lhes entender a mensagem que nem quando nos referimos a bondade, amor, vontade ou humildade, o suficiente é bom. O amor tem de ser sempre muito bom, assim como a vontade, a bondade e a humildade. Se não for bom ou muito bom não é suficiente. 

E agora, acabo, exactamente como comecei, com este comportamento bipolar que só uma mãe, como tantas outras mães, que se esforça sempre por dar o melhor, o muito bom ou o excelente, poderá entender. Se ainda não o fizeram, leiam-me também aqui.

João Maria, 8º ano
Pedro Maria (Kiki), 5º ano
Zé Maria (Bebé Zé), 2º ano

7, 10, 13 …tenho saudades

Gosto de parar e contemplar os meus filhos, de ficar a admira-los como quem olha para obra feita, tipo sensação de ver o cesto da roupa vazio (ai, aqui não me posso queixar porque não sou eu que despejo o cesto, mas ainda assim, conheço a sensação), se bem que… a comparação com o cesto da roupa vazio pode não ser a melhor, porque o trabalho com os filhos nunca está completo e várias vezes tenho a sensação que falho muito no papel de mãe, e sobretudo no de mãe que educa. Sou óptima nos mimos, abraços e brincadeiras, mas tenho de melhorar nas exigências, castigos e distribuição de tarefas. Sou só eu que me sinto culpada cada vez que um dos meus filhos se porta mal? Se eles respondem mal, eu acho que sou eu que não os estou a educar bem; quando têm más notas, sinto que não sou suficientemente exigente; quando são demasiado irrequietos e desobedientes tenho a certeza que lhes dou muito mais beijos que regras. São os meus, os meus filhos, são sim, são os meus filhos, podem não ser minha pertença, mas ainda assim, são meus, os meus.

Gosto de recordar de como eu era quando tinha a idade deles e as saudades que tenho desses tempos. Tenho muito boas recordações de uma infância simples e muito feliz. Quando os vejo aos três a brincar (e tanta vez a brigar) lembram-me muito eu com o meu irmão com a mesma idade deles. Eu e o Tio Pedro tínhamos 6 anos de diferença, a mesma que o João Maria (13) tem do Zézinho (07) – só que eles ainda têm um irmão pelo meio, o Kiki (10 anos).

Quando o meu irmão nasceu eu tinha 7 anos, tal como qualquer filho único, eu era uma menina mimada que estava habituada a ter praticamente tudo o que pedia. Na altura achei que os meus pais tinham decidido ter mais um filho apenas para me fazer a vontade, uma vez que eu pedia muito para ter um irmão. O meu desejo ter-se realizado foi o melhor presente que alguma vez recebi.

Tenho saudades da minha rua (já falei sobre isso aqui), do relógio ser substituído pela minha mãe a chamar-me à janela, das férias grandes serem enormes, do calor do verão, das minhas vizinhas sentadas no degrau à porta de casa. Tenho saudades dos meus cães, dos patos da minha avó Aida, das férias com a minha avó Albertina na Lousã (mais propriamente em Framilo, junto a V. N. Poiares) do pudim de atum da minha avó Aida – a minha avó fazia arroz com atum e ovo mexido numa forma branca de plástico da tupperware que ela orgulhosamente desenformava, sem nunca o desmanchar, nos dias em que eu ia almoçar a sua casa – que saudades do pudim de atum da minha avó Aida.

Tenho saudades do meu irmão ser bebé, tenho saudades dos primeiros beijinhos que me deu, tenho saudades das viagens de carro para as férias no Algarve, tenho saudades de me sentar ao colo da minha mãe, de nadar pendurada no pescoço do meu pai, de me deitar na cama com a minha avó Albertina que dormia com camisa de dormir e tinha sempre as pernas quentinhas onde deixava que eu entalasse os meus pés gelados.

Tenho saudades de ter 13 anos, tardes livres e matinés ao domingo à tarde na Horta da Fonte e na Discopark. Saudades do tempo em que ir ao cinema era um programa perfeito, de bater à porta dos vizinhos que tinham piscina, de fazer piqueniques às vezes apenas com sumo e pipocas. Saudades das festas de aniversários nas garagens a ouvir Phil Collins e a jogar ao quarto escuro.

Tenho tantas saudades. Saudades boas.

Espero que, embora com todas as diferenças que existem entre a minha infância e a dos meus filhos, entre a minha adolescência e a deles (ai socorro! ser mãe de adolescente, socorro – só não desespero porque tenho a sorte de ter amigas que estão a passar pelos mesmos desafios), também eles daqui a uns anos, se recordem de tudo o que estão a viver agora e possam dizer que têm tantas saudades como as que eu hoje tenho.

Eu com 7 anos, a idade do Zézinho

Eu com 10 anos, idade do Kiki

Eu com 13 anos, idade do João Maria (descubram-me!)

Uma casa com 5 é assustador, não?

IMG_7233
Aldeia da Pedralva

IMG_7240
(foto quase igual, mas nunca ficamos bem os 5 por isso tive de colocar 2 fotos)

Há uns tempos a trocar mensagens com uma amiga, na altura grávida de terceira viagem, e hoje mãe de uma bebé que se juntou aos 2 rapazes lá de casa, ela perguntava-me como era ter (ou melhor, SER) uma família numerosa, pergunta à qual ela própria respondeu no  imediato “é assustador mas tudo se faz”.

E eu fiquei, desde esse dia, com este post aqui em rascunho e a pensar se será assim tão diferente o dia-a-dia de quem tem 1, 2, 3 ou mais filhos. E sim, há diferenças. Quem diz que onde comem 2, comem 3 ou 4, com certeza não sabe a diferença entre fazer 1, 2 ou 5 camas; apanhar brinquedos do chão de 1, 2 ou 3 quartos; fazer trabalhos de casa com 1, 2 ou 3 filhos; ir buscar à noite 1, 2 ou 3 adolescentes; acompanhar jogos e outras actividades de 1, 2 ou 3 miúdos; dobrar meias de 1, 2 ou 4 rapazes (obrigada, Maria José!); fazer lanches de manhã sem trocar os aromas dos iogurtes para 1, 2 ou 3 mochilas.

Cada filho vem com as suas preferências, feitio e jeito de ser. Há que ter sempre presente que embora sejamos UM grupo de 5 pessoas, somos também CINCO pessoas que, por acaso, pertencemos a um mesmo conjunto que é a nossa família. Que eles, para além de serem UM conjunto de três filhos, são também TRÊS filhos, TRÊS pessoas diferentes que por acaso são irmãos e são meus filhos. Que só porque o Zé não gosta de queijo, eu não devo mandar sempre sandes de fiambre ao João e ao Kiki, que só porque o João e o Kiki jogam e gostam de rugby, o Zé Maria pode preferir o futebol ou o ténis e que eu vou ter de lhe dar o mesmo espaço e tempo para escolher e decidir, mesmo que isso se transforme em muito mais trabalho para mim.

Há que definir prioridades e organizar muito bem tudo o que é essencial para garantir o bom funcionamento do que é mais importante – eu sei o que estão a pensar neste momento “e quais são exactamente essas prioridades? quando o tempo (e/ou o dinheiro) é pouco o que é que é essencial? o que é afinal o mais importante?” – não sei responder porque as prioridades mudam a cada instante. Numa família de 5 o ritmo por vezes atinge velocidades alucinantes e muitas vezes o mais importante é só mesmo: parar, baixar o tom de voz, lembrar-me o quanto gostamos uns dos outros e sorrir. Tento sempre nunca abdicar de manter os mimos à frente das tarefas, desafio diariamente os limites da minha paciência, especialmente no início e final de dia, e procuro truques que permitam contrariar as leis do tempo que não pára.

Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6 (como eu já contei aqui), e muitas vezes mais de 6 com os amigos que tanto gostamos de receber, há tachos grandes e tabuleiros que enchem o forno, há sempre migalhas no chão da sala e pingos de água no chão da casa-de-banho, há contas grandes de gás, luz, água e supermercado, há barulho, há marcas de mãos sujas nas paredes e no comando da televisão, há muito barulho e estranha-se quando o silêncio prevalece.

Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6, há também coisas que são iguais a todas as outras famílias, independentemente de serem famílias de 2, 3 ou 5 pessoas. Há mantas no sofá onde nos enroscamos e tantas vezes adormecemos, há preguiça aos domingos e tostas mistas ao jantar, há beijinhos que tentam curar feridas e abraços prolongados de quem quer afogar a saudade. Numa casa de uma família numerosa, nesta onde moram 5 pessoas, actualmente 6, resmunga-se quando a sopa é igual 3 dias seguidos e discute-se quando alguém deixa o pacote de bolachas vazio na gaveta. Há, nesta família de 5, actualmente 6, sobretudo muito AMOR (que nunca falte) e RESPEITO (que nem sempre se consegue). Há muito boa vontade (na maior parte dos dias) – e há afinal uma prioridade que é constante e que posso partilhar convosco: não desistir nunca de nenhum e nisso incluir-me também a mim.

[também poderão gostar de ler Interesses e preferências de 4+1]

O Mundo ao Contrário

Fez ontem uma semana que o meu pai, depois de uns dias internados, teve alta do hospital para nossa casa. Percebi, no momento em que o meu pai ligou a dizer que ia sair naquele dia, que o local onde mais lhe apetecia estar, e o mais seguro, seria connosco em nossa casa. Exactamente como, não há tantos anos atrás, também a casa dele, ou melhor, a dos meus pais, foi o meu lugar seguro, onde mais me apetecia estar e o único que fazia sentido existir.

Quando lhe dei a mão para o ajudar a entrar no carro e percebi a sua fragilidade fiquei assustada, sobretudo até perceber se eu estaria à altura do desafio de o ajudar na sua recuperação, mesmo que por pouco tempo. Dei comigo a divagar sobre o que ele terá sentido nesse momento e se se estaria a recordar de quando, há 41 anos atrás, me pôs a mim no carro, primeira filha, para me levar para casa. Expectativas diferentes mas um mesmo sentimento, o amor mais descomprometido e duradouro de todos, o de pai e filha.

Confrontada com a nova condição de cuidadora, com o cuidado de proteger e não o do conforto de ser protegida, foi como se virassem o meu mundo ao contrário. Ainda ontem era o meu pai que me dava a mão para amparar os meus primeiros passos e agora é a minha que lhe serve de bengala. Mas afinal não está ao contrário. É apenas o mundo a ser mundo, a girar sobre si próprio, o que faz com que umas vez estejamos firmes e de pé e outras em desequilíbrio e ao contrário. E que bom sentir que, mesmo quando de cabeça para baixo, tudo se mantém no seu lugar.

Nesta última semana os meus filhos têm … nem sei bem como dizer sem parecer mais do que aquilo que eles realmente são… porque são meus e não consigo falar deles deixando de lado o facto de serem os meus, superado todas as minhas expectativas. É nestas alturas que vejo que não tenho feito (não temos, eu e o Zinho) assim tanta coisa mal feita com eles. O João Maria, no auge dos seus 13 anos, que marcam uma adolescência já há muito anunciada, ele que está há 8 dias sem a privacidade do seu quarto, e sem o conforto da sua cama, disse-me à noite enquanto eu aconchegava no sofá “mãe, o avô fica o tempo que for preciso, eu estou muito bem aqui”. O Kiki comentou comigo antes de ontem: “Mãe, vê-se mesmo que o avô se sente muito melhor aqui”. O bebé Zé já ajuda com os medicamentos e leva para a mesa o que corresponde à hora do jantar. E ontem, em dia de greve, com o bebé Zé sem escola, fizeram companhia um ao outro toda a manhã.

Temos passado todos muito tempo juntos e isso já não acontecia há muito tempo. Aliás, os seis, assim juntos, nunca tinha acontecido. E isso é bom. Muito bom.

O nosso paciente está muito melhor, também com enfermeiros destes não se esperava outra coisa, e ficará connosco o tempo que precisar para se recuperar. Agradecemos o facto de ele confiar em nós, de estarmos perto e de podermos todos contar uns com os outros.

 

 

(RE)Encontrei-te a Sul

(RE)Encontrei-te a Sul, no meu então sul, sem saber que rapidamente te transformarias no meu Norte. Passaram já 19 anos desde esse dia. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Os primeiros 5 meses foram a 300 km de distância, com pouca calma e muita ânsia, e nem sempre nos víamos ao fim-de-semana. A primeira vez que pensámos fazer uma surpresa um ao outro escolhemos fazê-la no mesmo dia. O resultado foi um fim-de-semana cada um para o seu lado, no sítio onde cada um de nós esperava vir a surpreender o outro. Operação de charme mal sucedida mas que nunca ficará esquecida.

Não satisfeita com isso, aumentei a distância para quase 10 vezes mais. Eu nove meses em Inglaterra e tu nove meses aqui. O tempo a passar e o namoro a continuar. Quando cheguei entrámos juntos numa agência de viagens em Alcântara para marcar uma viagem, desta vez a dois, para o México. Encurtámos a distância para uma viagem mais perto e mais barata e saímos de lá  com dois bilhetes para uns dias no Funchal e mais uns tantos em Porto Santo. Ao fim de dois dias em Porto Santo (em Outubro de 2000 em Porto Santo estávamos nós, os empregados do hotel e o rancho folclórico que animava as noites no hotel e nós, para eles não desanimarem, dançávamos com eles) mudámos a viagem e regressámos ao Funchal.

Com os pés já assentes no continente pediste-me em casamento logo a seguir à nossa viagem. Aqueles dias nas ilhas tinham sido o máximo de tempo que tínhamos passado perto um do outro. Marcámos casamento para maio e antecipámos para fevereiro. Pediste-me em casamento num restaurante que já não existe (pouco tempo depois foi mandado demolir) com um anel que eu troquei na semana seguinte (e o problema não era apenas o tamanho).

Passaram já 19 anos desde o princípio dos dois. São quase duas décadas, é metade da minha vida, mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

Já nos magoámos e já nos perdoámos. Provavelmente vamos voltar a magoar-nos e espero que tenhamos a mesma vontade de nos voltarmos a perdoar. É metade da minha vida vivida contigo. Mas é inteira que me sinto por poder partilha-la contigo.

É tudo mais do que alguma vez imaginei. Ou sonhei. É a minha vida toda presa no teu olhar em mim. É o teu olhar demorado pousado em mim. São os meus sonhos e os teus projectos. É o teu sorriso a entrar em casa. É o teu deixar-me ir e o meu regresso no teu abraço. É a tua clareza e a minha certeza.

És tu. Sou eu quando estou contigo.

Somos os dois.

[Também poderão gostar de ler: Um dia vamos voltar a ser dois]

IMG_7610IMG_7680

Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos?

Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos? Não me refiro aos imóveis, esses, como o próprio nome indica, não se mexem, portanto podem-nos deixar estar exactamente no mesmo sítio, onde sempre estiveram.

Eu digo as nossas coisas, as que andam connosco de um lado para o outro e que carregam as nossas impressões digitais, preferências e sentimentos. O que vai ser da minha fita azul do cabelo que eu só uso em casa ou na praia? Quem vai abrir e fechar os meus livros? E se lá dentro estiver alguma lista de supermercado antiga? Ou uma mensagem esquecida? Para onde irão parar os meus álbuns de fotografias? As fotografias dos meus pais e dos meus avós, algumas de familiares que os meus filhos e netos já não vão conhecer, nem sequer em fotografia? O que lhes fazem quando eu não estiver cá para lhes contar ou relembrar?

Até que geração se vai falar do Tio Pedro na minha família? Eu tenho filhos e muito provavelmente os meus filhos também terão filhos, eu poderei ser avó, bisavó, estando ou não presente fisicamente, há uma grande probabilidade de eu ser avó e bisavó. Mas o Tio Pedro não. Não teve filhos. É tio dos meus filhos e será tio avô dos meus netos – é assim, não é? mesmo não estando fisicamente connosco? Para mim é. Os meus filhos sabem quem é o Tio Pedro, já leram sobre ele, fazem perguntas e ouvem-me muitas vezes a recorda-lo. Mas irão eles falar dele aos seus filhos? Aos meus netos? Aos sobrinhos netos do Tio Pedro? Será que vão colocar nas suas casas uma fotografia dele? Quem é que se vai lembrar que ele uma vez caiu de bicicleta e foi no banco de trás comigo para o hospital, muito agarrado a mim, com a minha mãe a apitar e os 4 piscas ligados?

Voltando às coisas que são nossas e que são apenas coisas, mas que por serem nossas não são coisas iguais às coisas dos outros, tenho a certeza que ninguém deixa em testamento uma argola de prata comprada num quiosque na Zambujeira do Mar (tenho dúvidas se será mesmo prata, uma vez que tenho a parte de cima da orelha tão vermelha e a doer-me tanto, que  já só consigo deitar a cabeça do lado direito e se continuar a insistir a usa-la corro grandes riscos de perder não só a argola mas também a orelha esquerda). O Pedro, meu marido, muito experiente em furos (não destes, mas ainda sim tem experiência em furos, diz que a parte de cima das orelhas não foi feita para ser furada. Grande argumento Senhor Pedro, então e a de baixo foi?

O que vai acontecer às minhas cartas? As que recebi quando estava na universidade, a fazer ERASMUS ou mesmo as de início de namoro quando fiz 9 meses de INOV Contacto em Inglaterra – não posso deixar isso a ninguém – será que devo ser prudente ao máximo de as queimar já para ter a certeza que não vão um dia parar a um caixote de mudanças que por engano vai parar a um imóvel que não o meu? E todas as que eu escrevi e estão espalhadas em várias casas? Onde poderão ir parar? Será que alguém, para além do seu destinatário, as vai ler? Se bem que, pelo menos para mim, as minhas cartas, as recebidas e as enviadas, só têm interesse se forem lidas por alguém que me conheça. E, ainda assim, não têm muito interesse, a não ser os desenhos que o Pedro fazia quando não sabia o que me escrever ou para preencher a folha até ao fim. Ele não gostava de espaços vazios entre nós. Ainda hoje não gosta. Só nas noites muito quentes, aí mantemos a distância máxima. Nas restantes dormimos tipo lapas (ora porque queremos, ora porque temos filhos de lapas a ocupar o espaço quase todo da nossa cama).

Todas estas coisas que partilho agora vieram-me à cabeça nas férias, numa viagem de carro de Portimão até Olhão, no dia em que fomos à Ilha do Farol. Quando não estamos a trabalhar sobra-nos muito mais tempo para pensar em coisas nas quais habitualmente não pensamos. Nas férias também tenho sempre muitas ideias de negócios e criação de micro-empresas que nunca chegam a sair daí. Da minha cabeça. Mesmo sem saírem, na incubadora de empresas que mantenho dentro da minha cabeça facilmente se transformam em grandes empresas de sucesso com direito a case study e entrevistas para a televisão em horário nobre (isto já não existe, pois não? horário nobre na televisão?). Voltando à viagem de carro, encontrei na mala do meu carro a bolsa dos CDs do Tio Pedro. Abri a bolsa, sem pedir autorização (a sério que é só a mim que isto me faz confusão?) e mexi nos CDs. Aquela bolsa anda no meu carro há meses e eu nem sequer a pedi emprestada. E devia, porque ela não é minha.

Ouvi, ouvimos os 5, com reclamações e curiosidade dos mais novos e, da minha parte muita saudade, os CDs de Guano Apes e Silence 4. Ainda sei as letras de cor. A nossa cabeça consegue ser maravilhosa de uma forma surpreendente. Eu diria mais. Mágica.

IMG_7620
Conseguem ver a argola no furo de cima?

 

Oh meu querido ♥ ALENTEJO

Uma das coisas boas que a idade nos traz (agora assim de repente só me estou a lembrar de uma) é termos mais certezas do que gostamos, não gostamos e/ou adoramos.

Todos nós, de alguma forma, arrumamos na nossa cabeça as pessoas em pequenos grupos – digam-me por favor que não sou sou eu que faço isto – de acordo com as suas preferências. Ai! Eu passo a explicar. Não me interpretem mal. Não é bem arrumá-las em diversas categorias, é assim mais agrupa-las. É praticamente a mesma coisa, não é? E com que finalidade? Literalmente nenhuma. É que há tanta informação aqui dentro, e eu que até gosto de ver as coisas bonitinhas e arrumadinhas, que eu vou fazendo pequenos grupos, mas são só coisas minhas, para me darem alguma orientação.

Há as pessoas que gostam de bolas de Berlim com creme e as que nem lhes tocam se tiverem creme;  as que preferem Londres a Paris e as que lhes é completamente indiferente (really? então mas Londres tem alguma coisa que ver com Paris?); as que adoram Pink Floyd, as que nem por isso (eu) e as que preferem Pearl Jam (já vi duas vezes ao vivo e ainda quero MAIS); as que seriam incapazes de passar uma noite à porta da loja para comprar um bilhete para qualquer que seja o espectáculo e as que são (já eu, noites mal dormidas só em nome dos meus grandes amores e felizmente foram muito poucas); as que não se importam de acordar cedo e as que se importam sempre de acordar independentemente da hora (odeio fazer parte deste grupo); as que gostam de sardinhas e as que preferem carapaus (eu gosto mesmo é da salada algarvia em cima do pão molhado com a gordura da sardinha); as que praia é sinónimo de Algarve e as que não.

Pois eu, que toda a vida fiz férias no Algarve, estudei e adorei lá viver 4 anos incríveis (diz que há amigos dos meus filhos que já lêem o blog, não vou mesmo poder falar sobre isso aqui), sou Alentejo. Eu sou cada vez mais Alentejo. Sou petiscos, ondas e água fria. Sou percebes e pão alentejano com tudo (pão esse que ao fim de uma semana me provoca uns gases bastante incomodativos). Eu sou verão, mas com temperaturas amenas. Sou esplanada com o sol a por-se no mar. E que mágico é o por do sol no Alentejo. Sou camisola com capuz ao final do dia e manta na cama à noite. Sou manhãs de nevoeiro e cheiro a mar autêntico e verdadeiro.

Há qualquer coisa na costa alentejana que me deixa a alma tatuada (ainda não foi este verão que fiz uma tatuagem – é difícil escolher o quê). É aqui que eu sou mais eu e que encontro mais dos meus. Sou também Londres, bola de Berlim sem creme, Pearl Jam e festivais de verão. Sou família, amigos e manhãs mal humoradas. Sou sardinhas e sou Alentejo.

Mas porque somos 5 e há que respeitar as decisões e condicionantes da tribo, também sou Algarve. Sou o movimento dos primeiros dias de Agosto com os amigos todos a chegar. Sou praia e mergulhos até à noite (impossível no Alentejo). Sou pizzas Nosolo (vou conseguir assinantes para uma petição para terem na carta uma pizza de chourição picante) e sangria com bola de sorvete de limão. Sou ilha do Farol (um ano destes passo lá uma semana) e sunset no Cais Aqui. Sou sobretudo tudo o que mais gosto. Somos todos, não?

[Nota: estivemos pela primeira vez uma semana de férias em Odeceixe. No mapa já é Algarve mas em tudo o resto é Alentejo ♥]

IMG_7204
Café da Praia, Odeceixe

IMG_7210
Eu a pedir boleia, Odeceixe

IMG_7223
2 Pescadores apanhados desprevenidos, Odeceixe

IMG_7265
A vista da janela da sala, Odeceixe

IMG_7296
O meu mais novo, Odeceixe

IMG_7312
O meu do meio, Odeceixe

IMG_7184
Meus, Odeceixe

IMG_7200
À espera que ele se ponha, Odeceixe

IMG_7216
Foto pela minha amiga Sara, Aldeia da Pedralva

Vais viajar em trabalho? Então só tens mesmo é de aproveitar

O meu blog hoje é para todas as mães que são desafiadas, convidadas e/ou obrigadas a viajar em trabalho:

  • Aceitem o desafio. À excepção das saudades, tudo vai decorrer normalmente na vossa ausência. Vão todos comer, dormir e acordar, embora não necessariamente pela ordem que vocês gostariam. São só uns dias e o pai pode mudar os horários por uns dias. O pai também pode pedir ajuda aos avós, tios, vizinhos, padrinhos, amigos (vêem como podem contar com tanta gente?).
  • Não precisam de deixar todas as refeições prontas, afinal para que é que foi inventado o take away? E aquele livro do Jamie Olivier que o pai tem na cozinha e ainda nunca teve oportunidade de passar do prefácio? Talvez esteja na altura de entrar de cabeça no enredo principal da história.
  • Se o hotel onde estão for bom, peçam jantar room service uma noite e abusem das séries todas que estão em falta há meses.
  • Saiam à noite pelo menos numa das noites. Quando vai ser a próxima vez que podem sair sem pagar baby sitter? E dançar num sítio onde ninguém vos conhece?
  • Deixem a todos (marido, pai e filhos) um recado na almofada. Faço sempre isso quando faço uma viagem sem eles. Deixo um recado personalizado por baixo da almofada que normalmente eles só vêem quando se vão deitar. No outro dia encontrei um recado que deixei ao bebé Zé há 4 meses, sublinhado a cores por ele.
  • Não telefonem muito, os mais novos ficam ansiosos e confusos “afinal a mãe está onde? Parece tão próxima no telefone”.
  • Não tragam sempre presentes. Pode haver viagens onde não seja possível comprar nada e depois é uma desilusão enorme para todos.
  • Não stressem muito com aeroportos e afins (eu stresso). Bem sei que a nossa Europa aparentemente segura tem mostrado da pior forma toda a sua fragilidade, mas já que têm de ir, pois que seja com toda a confiança.
  • Aproveitem! Mesmo que em trabalho, uma viagem é uma viagem. É sempre uma oportunidade de conhecer outro país, outras cidades (e ainda estão a receber por isso).

São desafiadas a viajar em trabalho? Digam sim. Arrisquem na vossa vida profissional. Sermos mães só nos torne mais fortes e nunca menos capazes. Observem e aprendam. Regressem com saudades, não abusem nas ausências e aproveitem todas as vivências.

Também poderão gostar de ler: Seis dias em viagem, sem eles.

As fotos em baixo são de várias viagens de trabalho – não parece pois não?

Este slideshow necessita de JavaScript.

A rua onde eu cresci

Passei ontem na rua onde eu vivi e cresci dos 3 aos 18 anos. E de repente a rua pareceu-me muito mais pequena. E a casa onde eu morei 15 anos parece-me mais feia. Mudaram-lhe os azulejos, mas teria sido melhor tirarem-nos. Nunca gostei de casas com azulejos, pelo menos por fora. E agora moro numa casa cheia de azulejos por dentro. Já cá estavam e eu gosto deles. Mas não gosto dos azulejos que estão do lado de fora da casa onde eu vivi. E cresci. Gosto dos azulejos azuis da casa do meu vizinho da frente. Têm uma flor fina, são muitos, azuis clarinhos, e a flor clara também, muitas flores viradas para o mesmo lado, menos uma. E todas as vezes que lá passo a pé demoro tempo até encontrar a flor azul clarinha que está virada para o lado contrário de todas as outras. Terá sido engano ou propositado?

Nada me parece igual na rua onde eu vivi. E cresci. Só as memórias estão iguais. Mas nem as memórias. Essas parecem-me muito melhores agora do que as vivências naquela altura. E o meu irmão lá em todas as memórias.  E elas a subirem-me do coração até aos olhos. Sem passarem pela boca. Chegam aos olhos já molhadas. E espessas. Lágrimas espessas, que tal como no vinho, demoram mais tempo a cair. Marcam o caminho por onde passam, sejam o do copo para a boca, ou o do coração para os olhos, e dos olhos à boca, onde voltam a ser água.

Mas nessa rua, onde eu cresci e durante 15 anos vivi, foram poucas as lágrimas e nenhum o vinho que bebi. Bebi muitas vezes água do mesmo copo dos vizinhos, quando tomávamos de assalto as cozinhas com a porta destrancada. Sobretudo nas tardes em que o calor fazia tremer a linha do horizonte.

E a minha avó a querer que eu dormisse a sesta. E a casa a ficar toda escura para não deixar entrar o calor. E a televisão escura também. E as fotografias. Tudo escuro, tudo a preto e branco. Menos a minha avó. Menos as minhas avós. As duas eram feitas de cores alegres e gargalhadas demoradas. E as saudades que tenho delas. Saudades que às vezes parecem ser maiores que as memórias. E o meu irmão sempre lá. Nas memórias e nas saudades.

E o meu irmão ali, sempre ali, na rua a brincar, sempre com as faces rosadas, a subir às árvores e a jogar à bola. E os poucos carros que passavam interrompiam o jogo.

E o meu irmão aqui. Sempre aqui. Nas memórias e nas saudades. Nas lágrimas espessas e presas. Aqui. Sempre aqui.