40? Apanha!

40-apanha40? Apanha!

Quando o Tio Pedro nasceu fomos de férias 2 Verões seguidos para a Praia da Areia Branca. O Tio Pedro tinha asma e o Dr. Mário Costa receitou-nos a todos o iodo das praias do oeste. Ficámos nuns apartamentos que tinham uma discoteca que se chamava A Gruta. Antes das portas se abrirem pela noite fora, as crianças podiam entrar e brincar no interior do escuro da Gruta – foi a primeira vez que vi uma bola de espelhos, e o que eu corri atrás das pintas da bola de espelhos. Havia também uma sala de convívio com baralhos de cartas e jogos de tabuleiro. Eu devia ter uns 6, 7 anos e era das mais novas que, por aquelas noites de férias grandes e com um irmão bebé, corria todos os cantos das salas comuns do aldeamento em busca de uma companhia para brincar. Numa dessas noites, numa mesa com baralhos de cartas, alguém me perguntou se eu sabia jogar ao 40 apanha.

Na altura achei estranha a entoação da pergunta mas mesmo assim aceitei o desafio, pois seria a única forma de aprender o jogo. Com muita satisfação, o meu adversário atirou todas as cartas para o ar e disse para eu as apanhar. E era só isto, o jogo do 40 apanha. Naquele instante prometi a mim mesma que nunca ia fazer esta partida a ninguém, ainda que por várias vezes tenha tido a tentação de o fazer ao Tio Pedro: “mano, sabes jogar ao 40 apanha?” mas nunca cheguei a atirar as cartas ao ar. Às vezes ainda me apetece ensinar este jogo parvo aos meus filhos: “filhos, venham cá! a mãe vai-vos ensinar um jogo novo”. Como nunca me ouvem à primeira, arrependo-me antes de os chamar segunda e terceira vez. Em vez disso, vou eu jogando sozinha ao jogo do apanha tudo e mais alguma coisa que eles deixam no chão, desde migalhas na cozinha a meias ao fundo da cama. Naquela noite de verão, na Praia da Areia Branca, eu podia ter decidido não apanhar as 40 cartas, mas apanhei. Apanhei as 40 cartas. Umas caíram no chão, outras em cima da mesa, fiz montinhos, apanhei-as e contei-as todas. Eram efectivamente 40. 40 cartas são muitas cartas, 40 é o dobro de 20, é 4 vezes o número 10 e 8 vezes o número 5. 40 é também o número de anos que eu celebro hoje. É quase um baralho completo mas sem os 8, 9, 10 e jokers.

40! Como é que alguém ainda acha que pode chegar ao pé de mim e dizer que a vida começa aos 40? A minha não, a minha vida começou exactamente há 40 anos. Porque será que dão tanta importância a fazer 40 anos? Por ter a ternura imortalizada numa canção palerma do Paco Bandeira? Prefiro oh Elvas, oh Elvas, sempre tenho um cunhado que é de lá e diverte-me imagina-lo no contrabando dos versos do amor e saudade que herdou da sua cidade.

40? Já vivi 40 anos, mais ou menos 14600 dias sem os extras dos anos bissextos. Uma infância na rua 19 de Março na Besteira (como eu odiava o nome e adorava a rua), kms de correrias a pé e de bicicleta marcados nos arranhões dos joelhos, arrepios ao ver o algodão com oxigenada a aproximar-se (mais tarde na faculdade percebi que o vodka também desinfecta feridas e arde muito menos), as aulas em Santarém com pampilhos da Bijou, tostas da Abidis e matinés no Cartaxo e em Almeirim; a Universidade do Algarve, onde há clima para estudar; ERASMUS na Finlândia antes de existirem os grupos de ERASMUS no Facebook, aliás, em 1998 nem email usávamos. Vivi 5 meses com uma finlandesa e uma sueca, que me obrigavam a pagar mais de metade da conta da água, uma vez que a única água que elas utilizavam era nas descargas do autoclismo. Fui à Suécia de barco e à Rússia de autocarro. Voltei enamorada, achava eu,  por um inglês que cometeu 2 erros que viriam a ditar o fim do curto relacionamento: 1) marcou viagem para me vir visitar 2) veio mesmo visitar-me. Ainda hoje acho que se ele nunca me tivesse vindo visitar aquilo por carta era capaz de ter durado mais algum tempo. Trabalhei na Expo 98 durante quase toda a exposição. Não foi toda porque caí das cavalitas de um finlandês e fiquei 3 semanas de baixa (por esta altura já eu tinha despachado de volta o inglês para a Finlândia). Até hoje, o meu pai não acredita que foi assim que eu caí. Na verdade, quem me viu naquela altura parecia mais que eu tinha levado uma tareia de um grupo de finlandeses. Acabei o curso e voltei a sair. 9 meses em Inglaterra e não foi para ir atrás do inglês, em 2000 já tinha cá o meu português de sempre e para sempre (não é bem de sempre, mas é assim que o sinto, meu de sempre e para sempre). Regressei. Namorei, casei e mudei-me para Alpiarça. Alpiarça para mim não era mais que uma rua com portões grandes todos iguais. Lembro-me de perguntar se havia cá alguma farmácia. “Há 3! Há 3 farmácias”, respondeu furioso o Pedro. Hoje, Alpiarça está no meu coração, com os seus portões grandes e as 3 farmácias, e é também onde o meu coração está. É a terra de onde os meus 3 filhos são naturais, é a terra onde eu quero viver hoje, amanhã e muito provavelmente depois de amanhã também.

Há 12 anos atrás o melhor e o pior aconteceram, dividindo-me no antes e no depois. Em Abril 2005 fui mãe pela primeira vez e passados 5 meses perdi o meu único irmão, o Tio Pedro. Nesse dia perdi também um bocadinho da minha mãe, do meu pai e de mim, que aos poucos tenho vindo a recuperar em pequenas e estreitas quantidades. Aprendi a viver com a perda e a ausência. Redefini prioridades. Reaprendi a olhar a vida com toda a fragilidade que a caracteriza. Fiz este blog que só eu e a minha mãe lemos mas que mesmo assim já me levou a contar a nossa história num programa de TV. Fiz (faço) amigos com facilidade mas guardo religiosamente os meus de sempre, aqueles com quem sei que as gargalhadas vão sempre soar mais alto que o silêncio das memórias de saudade.

Sigo. Com Fé na Vida e o Coração em Deus. Venham daí mais anos, venham mais cartas, venham os 8, 9 e 10 do baralho, venham também os jokers, venha outro baralho. Eu apanho ♥

15 thoughts on “40? Apanha!

    1. Patricia… leio e recomendo sempre! E é sempre um prazer. Parabens pelos 40 e que venham mais 40!
      A Gruta era um icon…tao bem que me lembro de tudo isso. Os meus “piquenos” continuam a passar 2 meses nas praias do Oeste ( cheias de iodo e frio!)

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  1. Adorei ler-te Patrícia. Parabens pelos 40. Não os 40 que fazes hoje, mas pelos que fazes todos os dias até hoje.
    Feliz por te ter conhecido. A ti e ao teu sorriso sincero.
    Beijinho grande

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  2. Que maravilha Pat!!
    Muitos parabéns minha querida, obrigada por fazer parte dos teus quarenta e por fazeres parte dos meus também!!
    Muitos beijinhos e continue a vida a dar nos mais milhares de motivos para celebrar!!!

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  3. Admiro muito a tua coragem de expores de uma maneira tão verdadeira os teus sentimentos. És uma mulher de muita coragem. Continua assim pelo menos nos próximos 40!!! Beijinhos

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  4. Muitos Parabéns Patrícia. Em breve seremos muitos a juntar-nos ao clube dos 40. Uma nota, há pelo menos uma pessoa mais a ler o que escreves, eu. Beijinhos para ti e para os teus piolhos.

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