O Coração da Melancia

Sempre que abro uma melancia lembro-me da mesa da cozinha da D. Eugénia. E com a memória das melancias que vi abrirem-se nessa mesa, vem uma série de outras memórias desse tempo não menos coloridas e saborosas. Recordo a forma como o Hugo e a Sílvia, meus amigos e netos da D. Eugénia disputavam o centro da melancia, ao qual chamavam coração. Acho que nunca mais ouvi ninguém falar no coração da melancia. E chamavam-lhe o coração não por estar ao centro, mas por ser a melhor parte e a mais cobiçada por todos os que sentavam à volta da mesa. E eu que na altura nem gostava muito de melancia, ficava sentada a vê-los saborearem cada dentada e a pensar que todos preferiam o coração por ser mais doce e não ter pevides.

Brinquei tanto na casa da D. Eugénia. Eu morava perto e almoçava depressa para poder ir ter com eles o mais breve possível. Passávamos juntos grande parte das férias de Verão. Eu, a Sílvia, o Hugo, a Lurdes, a Vera, a Beta, a Sofia e tantos outros, não perdi o rasto de quase nenhum, e claro o Tio Pedro. Os irmãos mais novos tinham obrigatoriamente de andar connosco, as mães assim o obrigavam. Nas suas bicicletas mais pequenas tinham de pedalar o dobro para não nos perderem de vista. “Podes ir, mas levas o teu irmão” e eu levava, e pedalava depressa e ele pedalava atrás de mim, e caso deixasse de o ver, disfarçadamente desacelerava e esperava por ele.
Três meses de férias na rua, alguns dias de praia com os pais, e às vezes na praia a convite dos pais dos amigos. Sempre felizes a brincar na rua onde crescemos, em casa dos amigos, dos vizinhos, dos avós dos amigos, dos que tinham piscinas ou tanques. “Ai filha não vás já para a rua, faz aqui uma sestinha com a avó” e a minha avó fechava as janelas todas, a casa ficava escura, fresca e em silêncio e eu escapava me para casa da Sílvia e do Hugo e para o coração da melancia na cozinha da D. Eugénia.
A D. Eugénia vivia numa casa que nas férias de verão recebia três meninos que vinham de Lisboa, e era mesmo assim que lhe achávamos, os meninos de Lisboa, porque nos anos 70/80 os meninos de Lisboa não eram iguais aos meninos da Portela das Padeiras, ou do casal da Besteira (nome que eu sempre detestei). Quer dizer, não eram iguais no dia em que chegavam com as cassetes novas de bandas que nunca tínhamos ouvido falar, mas passados 2 ou 3 dias, e de já termos juntos decorado todas as asneiras das letras dos Peste e Sida, já éramos todos muito iguais.
Aqui há uns anos em Lisboa, numa reunião de trabalho, encontrei um desses meninos de Lisboa. Encontrei a Marta, com o mesmo sorriso e olhos grandes. E de repente ali estávamos, passados tantos anos, iguais. Iguais nas memórias e iguais ao que éramos e em segundos eu vi nos olhos grandes da Marta o coração da melancia na mesa da cozinha da D. Eugénia, ouvi as cassetes e nós a cantar, cheirei as cestas dos nossos piqueniques, refresquei-me nos banhos do tanque e ri-me com as bolas de água e serradura que atirámos para um muro alto de um vizinho e que o tivemos de limpar no dia a seguir.

Hoje de férias em Agosto, em casa com os meus, o coração da melancia é quase sempre para mim, e enquanto lhes preparo 3 taças e lhes tiro as pevides, penso em todas as memórias doces que guardo da mesa da cozinha da D. Eugénia.

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