É para ti.

Este texto hoje é para ti.
Para ti que perdeste o bem maior e mais precioso que a vida te deu.
Para ti que enfrentas diariamente o maior medo e o pior pesadelo de todas as que, tal como tu, são mães.

Deixa-me começar por te dizer que tenho perfeita noção que não conheço a tua dor. E é com todo o respeito que tenho por ela e por ti que não arrisco nenhuma palavra acerca dela. Quero apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes penso e nunca te disse.

Quero contar-te, hoje, que dou comigo, muitas vezes, a pensar em ti. Penso em ti quando distribuo pelos meus os beijos de boa noite. Penso em ti nas noites em que estou mais cansada e deixo a reclamação ocupar o lugar do amor que ambas carregamos no coração. Penso em ti quando me assusto. Penso em ti quando, mesmo com sono, o medo não me deixa adormecer. Penso tantas vezes em ti.

Gostava de te abraçar com a mesma força com que tu carregas o teu mundo de saudade. Com um abraço que, mesmo só por um momento, aliviasse a tua dor. Ou quem sabe até com um abraço que te fizesse ir lá acima, onde tantas vezes te imaginas a chegar, para logo a seguir te fazer regressar. Gostava de te pedir, e desculpa-me tanta ousadia, que aceites com amor os teus dias por cá. Mesmo aqueles que parecem não ter mais nada para agradecer.

Quero-te contar que as tuas pessoas estão sempre dispostas a ouvir-te. Mesmo as que nunca te fizeram nenhuma pergunta. Peço-te que não tenhas nunca receio que as tuas doces memórias possam incomodar alguém. E não te inibas de sorrir quando decides partilha-las. Nem de chorar. Gostava também que as tuas pessoas partilhassem mais contigo as suas alegrias. Não sei o que as impede de o fazer quando eu sei que tu continuas a sentir-te feliz pelos outros.

Sei que em dias de festa, nesta série de dias em que se transformou a tua vida, te falta sempre o actor principal.

Quero-te dizer que já chorei por ti. E que vou continuar a chorar. Este texto hoje é para ti. Quis apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes pensei e nunca te disse. 

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Imagem PINTEREST

Trabalhar a partir de casa?

Tanta vez acontece querermos muito muito uma coisa, até a experimentarmos, ou até ela se concretizar. E, na maior parte das vezes, não é bem como pensámos que ia ser. Quantas vezes não andamos a namorar durante semanas ou meses um casaco, uma mala ou umas botas e depois, quando finalmente ganhamos coragem para passar o cartão, “ah, afinal não é assim tão especial como parecia na montra”.

A comparação pode não ser a melhor, mas uma coisa eu tenho a certeza. Toda a mãe que tem crianças pequenas já sonhou, pelo menos uma vez na vida, com um trabalho perfeito, a partir de casa. Com horários (des)controlados por nós, com a casa sempre arrumada e uma secretária linda onde repousa um chá envolvido numa caneca que tem desenhada uma frase super inspiradora, daquelas que termina com um ♥.

O bebé Zé esteve (ainda está) ontem com uma alergia. Passámos a manhã no hospital e de tarde fiquei a trabalhar a partir de casa. Em dias de frio como o de ontem não há lugar mais desejado que a nossa casa. Mal entrei vi que não havia batatas para a sopa e fui num instante à mercearia comprar. Entrei no meu quarto para me descalçar e tive de fechar a porta rapidamente porque ouvia os pedidos de aflitos das minhas gavetas e pedir que as arrumasse. Fiz um chá. Liguei a braseira na camilha e pensei: “que luxo, estar assim em casa”. Mas não estava sozinha. O Kiki não tem aulas de tarde. O Pedro apareceu para acender a lareira (que querido). O bebe Zé pediu que lhe criasse um endereço de email e que jogasse monopólio com ele, apenas acedi a um dos pedidos. Criei um email que no nome do utilizador tem a palavra zezinho e só depois reflecti sobre isso, ao imagina-lo daqui a 10 ou 15 anos numa entrevista de emprego,”o meu endereço de email é zezinhomateiro …”

Eu que há anos que trabalho em open office com pessoas a entrar e a sair e o telefone a tocar, estava com uma dificuldade enorme em concentrar-me com o barulho dos meus filhos e com tudo o que estava à minha volta. Tive de ligar o spotify e colocar phones (a sério que o spotify fez uma playlist só para mim e a primeira música é Nothing’s Gonna Stop Us Now dosStarship?!). e pude cantar! No trabalho também canto mas com alguma contenção. Mas depois com os phones nos ouvidos estava preocupada por não ouvir o telefone, caso ele tocasse. Ou não ir a tempo de o atender só com o tempo que perco a pôr e a tirar aquela coisa enorme da cabeça.

Pessoas que trabalham em casa, não é super estranho fazer e receber telefonemas com a máquina da roupa a trabalhar? ou com o cão a ladrar? ou os miúdos no chão a brigar? É que em casa há toda uma série de barulhos muito diferentes dos que oiço normalmente no escritório.

Deu para perceber, em poucas horas, que trabalhar a partir de casa, como quase tudo na vida, tem vantagens e desvantagens, e não me parece que eu seria disciplinada o suficiente para o fazer. Mas admiro muito, e às vezes até invejo, quem tenha essa possibilidade e consiga corresponder. Eu, numa tarde, tive muito mais fome, mais conforto, menos concentração, mais sono, menos stress e a certeza que, a partir de casa, existiriam sempre mais horas extra.

É bom poder fazê-lo quando é preciso, mas todos os dias não sei se me adaptava.

Ainda há Pai Natal aqui em casa
Tive de usar os phones deles para me isolar do barulho que fazem a jogar
Inseparável da minha agenda de papel

E se?

13 Setembro 2005. Faltavam 1 ou 2 dias para terminar a licença de maternidade do João Maria. Primeiro filho. Primeiro sobrinho. Primeiro neto dos meus pais. Estava tudo bem. Estava tudo muito bem. Almocei em casa dos meus pais com a minha mãe e o meu irmão. Com o João Maria na cadeira do carrinho no chão da cozinha a sorrir para nós. E a minha mãe a dizer para eu pôr a cadeira em cima de uma cadeira da cozinha. E eu a dizer que no chão é mais seguro. Foi sempre um bebé tão fácil. Levava-o comigo sempre para todo o lado.

A minha mãe nessa altura fazia muitas feiras mas naquele dia estava em casa. Almoçámos os 3 bacalhau de cebolada da churrasqueira de São Domingos. Não sei se, passados 13 anos, 3 meses e 2 dias, mais alguma vez voltei a comer bacalhau de cebolada. Talvez até nunca mais me apeteça. Mas apetece-me sobretudo que a minha memória guarde todos os pormenores desse dia. Volto muitas vezes a eles, a esse dia. Hoje de manhã voltei e por isso os quis registar. Parte deles. Aqui. E se precisar deles sei que estão aqui. Foi a última vez que vi o meu irmão.

Durante o almoço perguntei-lhe há tempo não andava de mota. Não sei porque perguntei. Ainda hoje me arrependo de ter feito essa pergunta. E se… ? Há dias em que tenho receio de ter feito essa pergunta com algum gozo. “Então, compraste a mota e agora nunca andas nela?” sabem como são estas coisas de irmãos, meio provocar, meio implicar. E ele com aquela serenidade doce respondeu-me “não tenho tido dinheiro para a gasolina”. Mas nesse dia teve. Chegou por correio uma carta com um reembolso do IRS e ele pensou logo ir atestar a mota. E se… ?

Passei a tarde em casa com a minha mãe. O meu irmão tinha o quarto muito desarrumado. Acho até que estava pouco limpo. O João Maria adormeceu e eu arrumei e limpei o quarto do meu irmão, que em tempos tinha sido meu também. Ainda havia fotos minhas na cortiça pendurada na parede. Não sei se desleixe dele ou se gostava de ter ali as minhas fotografias. A minha mãe contou-me que ao final da tarde, quando chegou do trabalho, o meu irmão nem quis entrar no quarto. “Mãe, vou andar de mota, nem vou entrar no meu quarto para não o desarrumar. Até já, mãe.” E se… ?

O acidente aconteceu cerca de uma hora depois. Faleceu no local.

Foi a minha mãe que me contou. Por telefone. Ainda hoje me assusto com alguns telefonemas. E a minha mãe também. E o meu pai também. Todos recebemos a notícia por telefone. 

14 Setembro. Um dia depois. O meu pai quis sair cedo para ir comprar uma camisa toda preta. Vestiu-a logo na loja. Não lhe ficou nada bem. Para além de estar muito amarrotada e ter as marcas das dobras da prateleira da loja, era feia. Foi a camisa mais preta que eu vi até hoje. E se calhar a mais feia. Há dias que os olhos do meu pai ainda reflectem o preto dessa camisa. E as dobras também. Está tudo reflectido nos seus olhos. E eu não sei se sou só eu que vejo ou se as outras pessoas também vêem. Talvez algumas vejam. 

Já com a camisa preta vestida e a minha mãe vestida de preto também, e o João Maria com 5 meses feitos nesse dia entregue às amas que tomaram conta do meu irmão há 22 anos atrás, fomos os 3 – todos juntos agora já não éramos 4, éramos 3, mas para os 3, vamos sempre ser 4 – à Escola Prática de Cavalaria pedir a um primo nosso que levasse a notícia de nós os 3, de nós os 4, até à terra da minha avó. Seria muito doloroso ter de ligar a todos. À porta da E.P.C. o meu pai encontrou um amigo que lhe deu um forte abraço ao mesmo tempo que lhe dizia “É a vida, Costa. É a vida”. E eu no carro a pensar que era tudo menos a vida. Que a vida seria estarmos ali os 4. Embora que, para nós os 3, sejamos sempre 4, ainda dói (muito) só estarmos os 3. 

[continua…]

7, 10, 13 …tenho saudades

Gosto de parar e contemplar os meus filhos, de ficar a admira-los como quem olha para obra feita, tipo sensação de ver o cesto da roupa vazio (ai, aqui não me posso queixar porque não sou eu que despejo o cesto, mas ainda assim, conheço a sensação), se bem que… a comparação com o cesto da roupa vazio pode não ser a melhor, porque o trabalho com os filhos nunca está completo e várias vezes tenho a sensação que falho muito no papel de mãe, e sobretudo no de mãe que educa. Sou óptima nos mimos, abraços e brincadeiras, mas tenho de melhorar nas exigências, castigos e distribuição de tarefas. Sou só eu que me sinto culpada cada vez que um dos meus filhos se porta mal? Se eles respondem mal, eu acho que sou eu que não os estou a educar bem; quando têm más notas, sinto que não sou suficientemente exigente; quando são demasiado irrequietos e desobedientes tenho a certeza que lhes dou muito mais beijos que regras. São os meus, os meus filhos, são sim, são os meus filhos, podem não ser minha pertença, mas ainda assim, são meus, os meus.

Gosto de recordar de como eu era quando tinha a idade deles e as saudades que tenho desses tempos. Tenho muito boas recordações de uma infância simples e muito feliz. Quando os vejo aos três a brincar (e tanta vez a brigar) lembram-me muito eu com o meu irmão com a mesma idade deles. Eu e o Tio Pedro tínhamos 6 anos de diferença, a mesma que o João Maria (13) tem do Zézinho (07) – só que eles ainda têm um irmão pelo meio, o Kiki (10 anos).

Quando o meu irmão nasceu eu tinha 7 anos, tal como qualquer filho único, eu era uma menina mimada que estava habituada a ter praticamente tudo o que pedia. Na altura achei que os meus pais tinham decidido ter mais um filho apenas para me fazer a vontade, uma vez que eu pedia muito para ter um irmão. O meu desejo ter-se realizado foi o melhor presente que alguma vez recebi.

Tenho saudades da minha rua (já falei sobre isso aqui), do relógio ser substituído pela minha mãe a chamar-me à janela, das férias grandes serem enormes, do calor do verão, das minhas vizinhas sentadas no degrau à porta de casa. Tenho saudades dos meus cães, dos patos da minha avó Aida, das férias com a minha avó Albertina na Lousã (mais propriamente em Framilo, junto a V. N. Poiares) do pudim de atum da minha avó Aida – a minha avó fazia arroz com atum e ovo mexido numa forma branca de plástico da tupperware que ela orgulhosamente desenformava, sem nunca o desmanchar, nos dias em que eu ia almoçar a sua casa – que saudades do pudim de atum da minha avó Aida.

Tenho saudades do meu irmão ser bebé, tenho saudades dos primeiros beijinhos que me deu, tenho saudades das viagens de carro para as férias no Algarve, tenho saudades de me sentar ao colo da minha mãe, de nadar pendurada no pescoço do meu pai, de me deitar na cama com a minha avó Albertina que dormia com camisa de dormir e tinha sempre as pernas quentinhas onde deixava que eu entalasse os meus pés gelados.

Tenho saudades de ter 13 anos, tardes livres e matinés ao domingo à tarde na Horta da Fonte e na Discopark. Saudades do tempo em que ir ao cinema era um programa perfeito, de bater à porta dos vizinhos que tinham piscina, de fazer piqueniques às vezes apenas com sumo e pipocas. Saudades das festas de aniversários nas garagens a ouvir Phil Collins e a jogar ao quarto escuro.

Tenho tantas saudades. Saudades boas.

Espero que, embora com todas as diferenças que existem entre a minha infância e a dos meus filhos, entre a minha adolescência e a deles (ai socorro! ser mãe de adolescente, socorro – só não desespero porque tenho a sorte de ter amigas que estão a passar pelos mesmos desafios), também eles daqui a uns anos, se recordem de tudo o que estão a viver agora e possam dizer que têm tantas saudades como as que eu hoje tenho.

Eu com 7 anos, a idade do Zézinho

Eu com 10 anos, idade do Kiki

Eu com 13 anos, idade do João Maria (descubram-me!)

O Mundo ao Contrário

Fez ontem uma semana que o meu pai, depois de uns dias internados, teve alta do hospital para nossa casa. Percebi, no momento em que o meu pai ligou a dizer que ia sair naquele dia, que o local onde mais lhe apetecia estar, e o mais seguro, seria connosco em nossa casa. Exactamente como, não há tantos anos atrás, também a casa dele, ou melhor, a dos meus pais, foi o meu lugar seguro, onde mais me apetecia estar e o único que fazia sentido existir.

Quando lhe dei a mão para o ajudar a entrar no carro e percebi a sua fragilidade fiquei assustada, sobretudo até perceber se eu estaria à altura do desafio de o ajudar na sua recuperação, mesmo que por pouco tempo. Dei comigo a divagar sobre o que ele terá sentido nesse momento e se se estaria a recordar de quando, há 41 anos atrás, me pôs a mim no carro, primeira filha, para me levar para casa. Expectativas diferentes mas um mesmo sentimento, o amor mais descomprometido e duradouro de todos, o de pai e filha.

Confrontada com a nova condição de cuidadora, com o cuidado de proteger e não o do conforto de ser protegida, foi como se virassem o meu mundo ao contrário. Ainda ontem era o meu pai que me dava a mão para amparar os meus primeiros passos e agora é a minha que lhe serve de bengala. Mas afinal não está ao contrário. É apenas o mundo a ser mundo, a girar sobre si próprio, o que faz com que umas vez estejamos firmes e de pé e outras em desequilíbrio e ao contrário. E que bom sentir que, mesmo quando de cabeça para baixo, tudo se mantém no seu lugar.

Nesta última semana os meus filhos têm … nem sei bem como dizer sem parecer mais do que aquilo que eles realmente são… porque são meus e não consigo falar deles deixando de lado o facto de serem os meus, superado todas as minhas expectativas. É nestas alturas que vejo que não tenho feito (não temos, eu e o Zinho) assim tanta coisa mal feita com eles. O João Maria, no auge dos seus 13 anos, que marcam uma adolescência já há muito anunciada, ele que está há 8 dias sem a privacidade do seu quarto, e sem o conforto da sua cama, disse-me à noite enquanto eu aconchegava no sofá “mãe, o avô fica o tempo que for preciso, eu estou muito bem aqui”. O Kiki comentou comigo antes de ontem: “Mãe, vê-se mesmo que o avô se sente muito melhor aqui”. O bebé Zé já ajuda com os medicamentos e leva para a mesa o que corresponde à hora do jantar. E ontem, em dia de greve, com o bebé Zé sem escola, fizeram companhia um ao outro toda a manhã.

Temos passado todos muito tempo juntos e isso já não acontecia há muito tempo. Aliás, os seis, assim juntos, nunca tinha acontecido. E isso é bom. Muito bom.

O nosso paciente está muito melhor, também com enfermeiros destes não se esperava outra coisa, e ficará connosco o tempo que precisar para se recuperar. Agradecemos o facto de ele confiar em nós, de estarmos perto e de podermos todos contar uns com os outros.

 

 

Insuficiente ou insatisfeita?

Numa escala quantitativa de 1 a 100, qualquer nota igual ou superior a 50, é um resultado positivo. Para alguém como eu, não chegar ao 100, assumindo que faltou a diferença entre o resultado e o 100, ou pior, que errei o valor que quantifica essa diferença, qualquer resultado inferior ao 100 é insuficiente.

Se não chego onde quero, se o resultado é inferior ao que me propus, logo, é insuficiente. E pior que não chegar ao 100 é ter a certeza que nem sempre dou tudo em tudo o que faço, que nem sempre sou suficientemente capaz de dar o meu melhor.

Todos temos, mas especialmente todas as mulheres que são mães, papéis vários, que ora se distinguem, ora se aproximam e confundem-se entre si. Somos mães, mas continuamos a ser filhas, somos madrinhas e afilhadas, tias e sobrinhas, amadas e apaixonadas. E ao fim do dia, ou da semana, ou do fim-de-semana, ou das férias, ou do ano, a sensação é sempre que ficou alguma coisa por fazer. Ficou por responder aquele email que chegou com uma bandeira vermelha a gritar a sua prioridade, ficou por marcar a consulta do mais novo no ortopedista, ficou por devolver a chamada da minha mãe, ficou por reservar um fim-de-semana para dois, ou pelo menos um jantar naquele restaurante novo que já abriu há seis meses, ficou por marcar o almoço com a amiga que precisa tanto de desabafar, ficou por visitar o bebe que nasceu quase há um ano (no hospital não dá jeito, no primeiro mês a mãe está cansada, e já passaram 5 meses e a mãe já está a trabalhar), ficou por ver pelo menos um dos filmes nomeados para os oscars.

O mais velho já fez 13 anos no sábado, oficialmente um teenager, o que faz de mim, oficialmente, uma mãe de um teenager, com todos os desafios e desvios que isso nos traz aos dois. Eu acordei sem lhe ter comprado nenhum presente. Pior do que não ter comprado o presente, foi a sensação de não ter estado atenta o suficiente para sequer saber o que ele queria receber. Arrastei a minha querida sobrinha Maria comigo e com a minha falta de planeamento familiar (e não só), e em troca da melhor taça de açaí do mundo, rumámos em direcção aos 105 km de distância da loja preferida do João Maria. Com stress e após uma viagem express, fiquei feliz de saber que ainda acerto nos gostos do meu pequeno grande amor e a certeza que nunca mais deixo as compras para quem mais gosto para o último dia. Já no Natal eu tinha feito essa promessa, depois de ficar horas agarrada ao telefone a ligar para a MRW a perguntar pelos presentes que eu tinha encomendado a 3 dias da noite mais mágica do ano.

Serei mesmo insuficiente? Ou estou apenas insatisfeita comigo, nada que um bom filme e uma noite bem dormida não possam resolver? Agora vou só ali mudar a minha foto de perfil no Facebook. Aumenta-me o ego e entro na semana pronta para dar tudo.

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©Gonçalo Villaverde

Até à lua e voltar? Infinitos de infinitos?

É inquestionável o amor que sentimos pelos nossos filhos mas e o amor que eles sentem por nós? Quantas mães não ouviram já, ou leram em cartas e recados rasurados, gosto da mãe até à lua e voltar? Infinitos de infinitos?

O amor que os nossos filhos sentem por nós revela-se em cada pormenor do seu dia-a-dia e em cada acordar noite após noite. Felizmente, no que toca a noites, falo de barriga quase cheia. Os meus três filhos são quase três anjinhos a dormir, que dormem quase todas as noites pelo menos quase 10 horas seguidas.

O amor deles apresenta-se de todas as formas de arte que eles conhecem e dominam. Na arte da dramatização – com as birras de manhã para não ficarem na escola; na pintura –  com os desenhos que são, quase sempre sobre a mãe, que é, na maior parte das vezes, uma senhora alta, magra, de nariz largo e faces muito rosadas; na caça ao tesouro do conforto da cama da mãe em noites de pesadelos; no palco dos fins-de-semana por poderem ficar mais tempo na sala; na luta pelo lugar no sofá ao lado da mãe; na escrita criativa com as dedicatórias mais empenhadas e sobre avaliadas, confiantes que a sua mãe será sempre, ou pelo menos até serem adolescentes, a melhor mãe do mundo (esta parte da melhor mãe do mundo, a mim, sempre me deixou de consciência pouco tranquila, é só a mim?)

Naturalmente, com a idade, vão perdendo a vontade e o à vontade para grandes declarações de amor. Dos 3, o mais velho é o que, actualmente, menos se manifesta em relação aos sentimentos. Também eu, à medida que fui crescendo, deixei de escrever notas aos meus pais a dizer o quanto gosto deles. E gosto tanto. Já não faço desenhos com a cara deles colada ao peito, os braços a saírem da cabeça e os olhos colados às orelhas, já não lhes peço colo no centro de saúde quando vou às vacinas, nem chamo por eles a meia da noite quando há trovoadas. Também não lhes ligo de manhã a dizer que não me apetece ir trabalhar e que gostava de ficar a dormir até mais tarde ou, simplesmente, a esborrachar o sofá lá de casa.

Na semana passada, uma criança, a um dia de fazer 4 anos, morreu nos braços da mãe, sufocada com uma bola saltitona. Não quero explorar aqui a tragédia da história em detalhes – sei que é a vida, que por oposição à morte, se revela com toda a efemeridade e fragilidade, com retalhos que não são fáceis de cozer.

Basta um segundo para que tudo o que era, deixe de ser. Enquanto é, enquanto somos mães (e que o sejamos para sempre), enquanto somos filhas, netas, tias, enquanto somos sobrinhas, madrinhas e afilhadas, é dizer, falado, escrito e desenhado, as vezes que forem possíveis, com vontade e à vontade: Gosto de ti até à lua, ir e voltar, infinitos de infinitos. E mesmo depois, quando o que era já não é, vou continuar sempre a gostar de ti, até à lua e voltar, infinitos de infinitos.

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Eu acredito (e quero acreditar sempre) nos outros e, sobretudo, nos meus

Eu acredito (e quero acreditar sempre) nos outros e, sobretudo, nos meus. Não gosto de ouvir dizer que não há esperança nas pessoas, ou pior ainda, quando dizem que os animais são melhores que as pessoas. Não. Eu gosto muito de animais (fora gatos e melgas) mas gosto, sobretudo, das pessoas.

Serei eu uma sortuda por estar rodeada de pessoas boas? As minhas pessoas.

Eu conheço a Fernanda que todas as manhãs dá uma volta a mais à rotunda de São Bento para dar boleia ao Gonçalo para o trabalho, conheço uma Sandra que sobe e desce o planalto para levar o Gonçalo a casa. Conheço a Sofia que vai deixar (outra vez) a família dez dias para ir para um campo de refugiados em Dunquerque, conheço a Kika que aos domingos troca o sofá por casas que precisam de grandes limpezas e pequenas obras,  limpezas e obras essas que são feitas por ela e um grupo de amigos com idades entre 14 e os 17 anos que juntos arregaçam as mangas. Conheço o Sebastião e o Carlos, o Pedro e o Zé, o Gonçalo e a Teresa, que treinam miúdos às vezes em troca de tudo e, muitas vezes, em troca de nada. Conheço a Rita e a Susana que, às terças e às vezes também às quintas, saem de casa à hora que, habitualmente eu chego a casa e me sento no sofá, para cozinharem uma refeição quente na igreja e prepararem cabazes para famílias necessitadas. Esta semana estão a pedir cobertores, quem tiver para dar pode-me contactar por mensagem. Conheço a Madalena que diz sim a tudo e todos e anda com a mala do carro, que embora pequena, sempre a transbordar, ora de sacos de excesso, ora de sacos (os mesmos) de faltas. Conheço a Rosa que organiza festas de aniversários a quem nunca soube o que era juntar os amigos à volta de um bolo de aniversário. E ainda mexe uns cordelinhos para lhes transformar os sonhos em desejos e os desejos em presentes. Conheço a Rita que adoptou o João. Conheço a Dora que trabalha toda a imagem de um grupo de voluntárias que não têm um tostão para lhe pagar. Conheço a Joana e a Maria, a Pipa e a Teresa, que tiraram do calendário o feriado do dia 1 Novembro, encheram-se de sacas e sacos de ração para animais e foram entrega-las a terras onde o pasto ardeu por completo. Conheço a Sandra, que é advogada, e dá (do verbo dar = oferecer) apoio jurídico a mais de metade das associações e grupos de voluntariado que eu conheço e ainda arranja paciência para me ajudar, a mim, a responder a multas da PSP. Conheço a Marta que não perde uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, e a Paula, que é membro da direcção de uma fundação que, todos os meses, faz o pino e a cambalhota para ver se o dinheiro ganha a ginástica necessária. Conheço a Ana que, juntamente com as colegas do departamento de psiquiatria do hospital onde trabalham, desenvolveram um projecto de inclusão de doentes mentais através das artes. Conheço uma Patrícia, que é um bocadinho mais minha que todas estas pessoas que eu já falei aqui, e muitas haveria por falar, que basta sonhar que eu estou com algum problema para, no dia a seguir, me ligar a apresentar uma solução. Conheço uma Lurdes que já me fez companhia de carro até ao Algarve só para eu não ir sozinha ao jantar de 20 anos da minha turma da universidade, uma Sara que leva o meu Kiki à catequese, uma Domingas que leva o meu João Maria ao liceu e uma Tina que lhe dá dormida quando as festas de aniversário são a seguir ao jantar.

Estas são as minhas pessoas. São a base da minha pirâmide, o meu mapa de trajecto e o meu norte seguro. São as que quero comigo e ao meu lado, as que me fazem fugir dos pensamentos infectados vindos de compassos contaminados. É por elas que eu acredito (e quero sempre acreditar) nos outros, e sobretudo, nos meus.

Foto retirada do Pinterest

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Não pode ser verdade

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Não pode ser verdade. Lembro-de ser este o primeiro pensamento logo depois de receber o telefonema da minha mãe. Foi com esse pensamento que deixei o meu filho, com apenas 5 meses, a dormir no berço, entregue à minha sogra. Não pode ser verdade.
Eu já tinha perdido os meus 4 avós, mas isso eu sempre soube que um dia ia acontecer. Mas perder o meu único irmão estava longe de ser verdade, quando ele tinha apenas 22 anos e eu apenas 28 e o meu primeiro filho apenas 5 meses.

Durante muito tempo fui perseguida por esse pensamento – não pode ser verdade – e tantas vezes acreditei que não era. Poucos meses depois da morte do meu irmão viajei para fora do país. Recordo-me como me soube bem, ainda que por apenas alguns dias, estar longe daquela verdade. O regresso a ela foi, porém, inevitável. Estava tudo igual. O meu irmão não tinha voltado nem nunca mais ia voltar. A mudança do estado, de não querer acreditar na verdade para, aos poucos, começar a aceitar que não a posso alterar, é um processo longo e doloroso.

A semana passada encontrei a Catarina. É sempre bom, embora triste, falar com a Catarina. Não precisamos de introduções nem de metáforas para o que sentimos. Sabemos exactamente o que cada uma quer dizer. Seis anos era o que nos separava do irmão mais novo. O meu, o mais novo de dois. O da Catarina, o mais novo de três. Hoje nada nos separa. Partilhamos a mesma ausência e a mesma dor. A dor da Catarina é mais recente que a minha mas nem por isso é diferente. Talvez eu só esteja mais habituada a viver com ela. Talvez lhe saiba bem, também a ela, embora seja tão triste, falar comigo. Talvez por sabermos as duas, demasiado bem, o significado de Não pode ser verdade.

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Sim, eu sei, sou uma privilegiada

 

Sim, eu sei, sou uma privilegiada.

Moro a 12 minutos de carro do trabalho, a 5 minutos (a pé) de casa da sogra e a 15 minutos da casa da mãe. Estou a 15 minutos de um dos meus restaurantes preferidos e também a 15 minutos de uma das lojas onde mais gosto ir. Por acaso às compras já não vou há muito tempo. Até sei o dia. A última peça de roupa que comprei para mim foi um vestido preto no LIDL no dia 31 Agosto, ainda a Heidi Klum não sabia o que era o LIDL já eu andava a rebuscar as prateleiras metálicas do corredor central. Prometi a mim mesma que não comprava nem mais uma peça de roupa enquanto não virar do avesso os meus roupeiros e retirar o que está a mais. Mais de 2 meses sem comprar nada para mim é muito ou pouco? Deixei passar o fim dos saldos sem comprar nada, 2 meses já é algum tempo. Este domingo vou ser madrinha de crisma da minha cunhada, pelo menos umas collants devo ter de comprar, mas ainda vou espreitar se não está nenhuma embalagem nova presa por baixo da gaveta.

Moro numa vila. Posso ir ao pão de bicicleta, tenho uma daquelas giras de cesto à frente, presente do Zinho quando fiz 39, apareceu-me de surpresa no café ao pé do trabalho montado na bicicleta azul bebé com o cestinho à frente.

Mudei de emprego aos 40. De emprego e de área. Com a mudança de área fiz uma pós graduação às sextas e sábados com 3 filhos abaixo dos 12 anos e um marido que trabalha sempre ao sábado.

Tenho a casa que nunca sonhei ter, 2 cães e uma árvore centenária que não plantei mas onde já muitas vezes na sua sombra me deitei.

Já viajei por alguns países, mais do que os dedos das 2 mãos abertas conseguem contar. Não costumo almoçar em centros comerciais, nem jantar. Por acaso jantámos os 5 esta semanas nas galerias comerciais do Campo Pequeno mas porque não podíamos chegar atrasados ao tão esperado espectáculo do Wrestling ao vivo (sim fomos os 5 e divertimo-nos todos muito, que “biolência”).

No outro dia em visita às Caves Aliança explicaram-me que a razão do Joe Berardo expor as obras de arte da sua colecção privada (sua? ou um bocadinho minha também?) é que por se sentir um privilegiado em ter essas obras sente-se na obrigação de as partilhar com outras pessoas. Eu senti um bocadinho isso ao escrever-vos hoje, porque o privilégio de estarmos vivos precisa de ser relembrado e no meio de tantas queixas que vamos repetindo com facilidade, facilmente nos esquecemos de todos os pequenos (grandes) privilégios que temos.

Regressei ontem à noite de dois dias de trabalho no Luso por ocasião das 7ªs Jornadas de Enoturismo. Os miúdos ficaram com o pai. Quando entrei em casa estava o jantar quase terminado, a lareira acesa e o Zé Maria a fazer os trabalhos da escola na bancada da cozinha. Havia sopa feita num tupperware no frigorífico. Recebi beijinhos e um abraço prolongado.

Sou ou não sou uma privilegiada?

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Já estou a repetir fotografias! Preciso mesmo de tirar fotografias novas.