Insuficiente ou insatisfeita?

Numa escala quantitativa de 1 a 100, qualquer nota igual ou superior a 50, é um resultado positivo. Para alguém como eu, não chegar ao 100, assumindo que faltou a diferença entre o resultado e o 100, ou pior, que errei o valor que quantifica essa diferença, qualquer resultado inferior ao 100 é insuficiente.

Se não chego onde quero, se o resultado é inferior ao que me propus, logo, é insuficiente. E pior que não chegar ao 100 é ter a certeza que nem sempre dou tudo em tudo o que faço, que nem sempre sou suficientemente capaz de dar o meu melhor.

Todos temos, mas especialmente todas as mulheres que são mães, papéis vários, que ora se distinguem, ora se aproximam e confundem-se entre si. Somos mães, mas continuamos a ser filhas, somos madrinhas e afilhadas, tias e sobrinhas, amadas e apaixonadas. E ao fim do dia, ou da semana, ou do fim-de-semana, ou das férias, ou do ano, a sensação é sempre que ficou alguma coisa por fazer. Ficou por responder aquele email que chegou com uma bandeira vermelha a gritar a sua prioridade, ficou por marcar a consulta do mais novo no ortopedista, ficou por devolver a chamada da minha mãe, ficou por reservar um fim-de-semana para dois, ou pelo menos um jantar naquele restaurante novo que já abriu há seis meses, ficou por marcar o almoço com a amiga que precisa tanto de desabafar, ficou por visitar o bebe que nasceu quase há um ano (no hospital não dá jeito, no primeiro mês a mãe está cansada, e já passaram 5 meses e a mãe já está a trabalhar), ficou por ver pelo menos um dos filmes nomeados para os oscars.

O mais velho já fez 13 anos no sábado, oficialmente um teenager, o que faz de mim, oficialmente, uma mãe de um teenager, com todos os desafios e desvios que isso nos traz aos dois. Eu acordei sem lhe ter comprado nenhum presente. Pior do que não ter comprado o presente, foi a sensação de não ter estado atenta o suficiente para sequer saber o que ele queria receber. Arrastei a minha querida sobrinha Maria comigo e com a minha falta de planeamento familiar (e não só), e em troca da melhor taça de açaí do mundo, rumámos em direcção aos 105 km de distância da loja preferida do João Maria. Com stress e após uma viagem express, fiquei feliz de saber que ainda acerto nos gostos do meu pequeno grande amor e a certeza que nunca mais deixo as compras para quem mais gosto para o último dia. Já no Natal eu tinha feito essa promessa, depois de ficar horas agarrada ao telefone a ligar para a MRW a perguntar pelos presentes que eu tinha encomendado a 3 dias da noite mais mágica do ano.

Serei mesmo insuficiente? Ou estou apenas insatisfeita comigo, nada que um bom filme e uma noite bem dormida não possam resolver? Agora vou só ali mudar a minha foto de perfil no Facebook. Aumenta-me o ego e entro na semana pronta para dar tudo.

20180327_GONCALO VILLAVERDE_0715
©Gonçalo Villaverde

One thought on “Insuficiente ou insatisfeita?

  1. Que texto fantástico, como sempre!
    De facto queremos ser 100% mas não dá ….e eu só tenho um filhote!
    Parecemos baratas e por mais que se planeei, não dá para tudo. Ficamos com as intenções das visitas, das saídas ,…..do que nos faz bem sempre em troca de qualquer outra coisa.
    Temos de abrandar …..de sentir o vento na cara, de sentir o cheiro das coisas , de apreciar o nada …….. temos de ter Tempo! E será que queremos? Será que vamos saber ter tempo ? 😉 Não me parece !!! Não seríamos Nós!
    Beijinho grande 😘

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