A rua onde eu cresci

Passei ontem na rua onde eu vivi e cresci dos 3 aos 18 anos. E de repente a rua pareceu-me muito mais pequena. E a casa onde eu morei 15 anos parece-me mais feia. Mudaram-lhe os azulejos, mas teria sido melhor tirarem-nos. Nunca gostei de casas com azulejos, pelo menos por fora. E agora moro numa casa cheia de azulejos por dentro. Já cá estavam e eu gosto deles. Mas não gosto dos azulejos que estão do lado de fora da casa onde eu vivi. E cresci. Gosto dos azulejos azuis da casa do meu vizinho da frente. Têm uma flor fina, são muitos, azuis clarinhos, e a flor clara também, muitas flores viradas para o mesmo lado, menos uma. E todas as vezes que lá passo a pé demoro tempo até encontrar a flor azul clarinha que está virada para o lado contrário de todas as outras. Terá sido engano ou propositado?

Nada me parece igual na rua onde eu vivi. E cresci. Só as memórias estão iguais. Mas nem as memórias. Essas parecem-me muito melhores agora do que as vivências naquela altura. E o meu irmão lá em todas as memórias.  E elas a subirem-me do coração até aos olhos. Sem passarem pela boca. Chegam aos olhos já molhadas. E espessas. Lágrimas espessas, que tal como no vinho, demoram mais tempo a cair. Marcam o caminho por onde passam, sejam o do copo para a boca, ou o do coração para os olhos, e dos olhos à boca, onde voltam a ser água.

Mas nessa rua, onde eu cresci e durante 15 anos vivi, foram poucas as lágrimas e nenhum o vinho que bebi. Bebi muitas vezes água do mesmo copo dos vizinhos, quando tomávamos de assalto as cozinhas com a porta destrancada. Sobretudo nas tardes em que o calor fazia tremer a linha do horizonte.

E a minha avó a querer que eu dormisse a sesta. E a casa a ficar toda escura para não deixar entrar o calor. E a televisão escura também. E as fotografias. Tudo escuro, tudo a preto e branco. Menos a minha avó. Menos as minhas avós. As duas eram feitas de cores alegres e gargalhadas demoradas. E as saudades que tenho delas. Saudades que às vezes parecem ser maiores que as memórias. E o meu irmão sempre lá. Nas memórias e nas saudades.

E o meu irmão ali, sempre ali, na rua a brincar, sempre com as faces rosadas, a subir às árvores e a jogar à bola. E os poucos carros que passavam interrompiam o jogo.

E o meu irmão aqui. Sempre aqui. Nas memórias e nas saudades. Nas lágrimas espessas e presas. Aqui. Sempre aqui.

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