O caminho para a simplicidade

Não sei há quanto tempo sigo a página Pais com P Grande. Fascinam-me a sua escrita, a sua forma de estar na vida, de se dar aos outros e aos seus. Comecei por comentar alguns dos seus posts, trocámos algumas mensagens no messenger e a sua página é daquelas que ora me deixa em lágrimas, ora me deixa com um sorriso rasgado de emoção por tamanha gratidão. Em Junho deste ano começámos a falar com mais frequência. A Sofia estava a preparar uma das aventuras da sua vida e essa aventura ia trazê-la até mim, até Santarém, até Alpiarça, até à minha casa, até mim. Sem hesitar disse-lhe: “Sofia, vais ficar em minha casa. Quero muito receber-te.”

Só falei nisto ao Pedro e aos miúdos quando já estava muito perto da data e percebi que tinha mesmo de contar, só não sabia muito bem como.

– Meninos, vamos receber uma amiga da mãe cá em casa para a semana.

– É amiga da mãe?

– É.

– Mas a mãe conhece-a de onde? da Universidade? vive em França? já viveu numa carrinha? como assim? é hippie? tem tatuagens?

– Filhos, a mãe conheceu a Sofia na Internet.

Silêncio. E eu a ler os pensamentos do Pedro [Sim, senhora. Boa, Patrícia Alexandra. Eu aviso os meus filhos (porque é que quando não estamos de acordo os filhos passam a meus e teus em vez de nossos?) para não falarem com estranhos na Internet e tu, tu abres a porta da tua casa para uma estranha que conhecestes na Internet].

Chegou o dia de receber a Sofia. Com a chegada da Sofia chegou também a sua história, agora em primeira mão, do seu caminho de amor de Lisboa até Santiago de Compostela tendo como meta principal do seu destino: o AMOR cura tudo.  A Sofia apresentou-nos, a mim, à minha mãe, à minha sobrinha Maria, aos amigos que se juntaram a nós num final de tarde nas Portas do Sol, ao meu marido e aos meus filhos o seu caminho de amor. Mas eu percebi, no momento em que a abracei, que o seu caminho era também o da simplicidade e que o amor quando se revela, revela-se assim, simples como a Sofia.

Eu estava cheia de perguntas. Se bem me conhecem, eu não as poupo a ninguém, sobre a vida da minha nova amiga, sobre os desafios que teria de enfrentar até cortar a sua meta, sobre os meses que viveu com a sua família na Maria do Mar (têm mesmo de ler o blog da Sofia porque senão este meu texto fica demasiado longo). Eu desconhecia por exemplo que existem setas a indicar os caminhos de Fátima e Santiago Compostela em sítios onde eu passo todos os dias. Setas amarelas e azuis que eu nunca tinha visto. Estas são tão discretas que se revelam apenas a quem está a fazer o caminho, somente a quem está atento, assim como a Sofia se revelou a mim. Se estivermos muito ocupados com os pormenores não vimos o essencial e o essencial está, quase sempre, lá. Já dizia o Princepezinho “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

O mês passado estive, por desafio da minha amiga / colega / dream team Joana, num pequeno-almoço de networking só para mulheres. Eu adoro estas experiências e partilhas, adoro conhecer pessoas e ouvir as suas histórias embora fique sempre com a sensação que todas as outras histórias de vida são mais interessantes que a minha- não para mim – mas para os restantes presentes. Neste pequeno-almoço, quando chegou a minha vez de falar disse a todas que a minha vida era muito simples. Partilhei a história do meu blog e em poucas palavras falei daquilo que é o mais importante para mim. Eu que tinha estado tão entusiasmada a ouvir as histórias de todas, quando me calei senti também o entusiasmo das que me ouviam. E percebi que, muito provavelmente, a maior parte das pessoas (éramos um grupo pequenino mas muito rico em experiências) que ali estavam, aquilo que mais procuram e ambicionam é precisamente uma forma mais simples de (vi)verem as suas vidas. 

Uma vida mais simples e descomplicada. Mais com os que mais gostamos. Mais estar e menos ser. Mais ser e menos pensar. Menos desejar e mais agradecer. Mais sonhar e mais realizar. Menos falar e menos teclar. Mais ouvir e mais parar. Menos adiar e mais confirmar. Mais acreditar. Mais confiar. Mais amar. Mais do tamanho dos outros. Mais lado a lado. Mais bonito. Mais simples.

Querida Sofia, o teu caminho para a simplicidade é um ensinamento que eu não vou querer perder. 

Partilhas com amigos nas Portas do Sol
Nós e a Sofia.
Nada a ver com o texto. É só uma foto a fazer de conta que não sei que estou a ser fotografada.


FELIZ

Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos?

Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos? Não me refiro aos imóveis, esses, como o próprio nome indica, não se mexem, portanto podem-nos deixar estar exactamente no mesmo sítio, onde sempre estiveram.

Eu digo as nossas coisas, as que andam connosco de um lado para o outro e que carregam as nossas impressões digitais, preferências e sentimentos. O que vai ser da minha fita azul do cabelo que eu só uso em casa ou na praia? Quem vai abrir e fechar os meus livros? E se lá dentro estiver alguma lista de supermercado antiga? Ou uma mensagem esquecida? Para onde irão parar os meus álbuns de fotografias? As fotografias dos meus pais e dos meus avós, algumas de familiares que os meus filhos e netos já não vão conhecer, nem sequer em fotografia? O que lhes fazem quando eu não estiver cá para lhes contar ou relembrar?

Até que geração se vai falar do Tio Pedro na minha família? Eu tenho filhos e muito provavelmente os meus filhos também terão filhos, eu poderei ser avó, bisavó, estando ou não presente fisicamente, há uma grande probabilidade de eu ser avó e bisavó. Mas o Tio Pedro não. Não teve filhos. É tio dos meus filhos e será tio avô dos meus netos – é assim, não é? mesmo não estando fisicamente connosco? Para mim é. Os meus filhos sabem quem é o Tio Pedro, já leram sobre ele, fazem perguntas e ouvem-me muitas vezes a recorda-lo. Mas irão eles falar dele aos seus filhos? Aos meus netos? Aos sobrinhos netos do Tio Pedro? Será que vão colocar nas suas casas uma fotografia dele? Quem é que se vai lembrar que ele uma vez caiu de bicicleta e foi no banco de trás comigo para o hospital, muito agarrado a mim, com a minha mãe a apitar e os 4 piscas ligados?

Voltando às coisas que são nossas e que são apenas coisas, mas que por serem nossas não são coisas iguais às coisas dos outros, tenho a certeza que ninguém deixa em testamento uma argola de prata comprada num quiosque na Zambujeira do Mar (tenho dúvidas se será mesmo prata, uma vez que tenho a parte de cima da orelha tão vermelha e a doer-me tanto, que  já só consigo deitar a cabeça do lado direito e se continuar a insistir a usa-la corro grandes riscos de perder não só a argola mas também a orelha esquerda). O Pedro, meu marido, muito experiente em furos (não destes, mas ainda sim tem experiência em furos, diz que a parte de cima das orelhas não foi feita para ser furada. Grande argumento Senhor Pedro, então e a de baixo foi?

O que vai acontecer às minhas cartas? As que recebi quando estava na universidade, a fazer ERASMUS ou mesmo as de início de namoro quando fiz 9 meses de INOV Contacto em Inglaterra – não posso deixar isso a ninguém – será que devo ser prudente ao máximo de as queimar já para ter a certeza que não vão um dia parar a um caixote de mudanças que por engano vai parar a um imóvel que não o meu? E todas as que eu escrevi e estão espalhadas em várias casas? Onde poderão ir parar? Será que alguém, para além do seu destinatário, as vai ler? Se bem que, pelo menos para mim, as minhas cartas, as recebidas e as enviadas, só têm interesse se forem lidas por alguém que me conheça. E, ainda assim, não têm muito interesse, a não ser os desenhos que o Pedro fazia quando não sabia o que me escrever ou para preencher a folha até ao fim. Ele não gostava de espaços vazios entre nós. Ainda hoje não gosta. Só nas noites muito quentes, aí mantemos a distância máxima. Nas restantes dormimos tipo lapas (ora porque queremos, ora porque temos filhos de lapas a ocupar o espaço quase todo da nossa cama).

Todas estas coisas que partilho agora vieram-me à cabeça nas férias, numa viagem de carro de Portimão até Olhão, no dia em que fomos à Ilha do Farol. Quando não estamos a trabalhar sobra-nos muito mais tempo para pensar em coisas nas quais habitualmente não pensamos. Nas férias também tenho sempre muitas ideias de negócios e criação de micro-empresas que nunca chegam a sair daí. Da minha cabeça. Mesmo sem saírem, na incubadora de empresas que mantenho dentro da minha cabeça facilmente se transformam em grandes empresas de sucesso com direito a case study e entrevistas para a televisão em horário nobre (isto já não existe, pois não? horário nobre na televisão?). Voltando à viagem de carro, encontrei na mala do meu carro a bolsa dos CDs do Tio Pedro. Abri a bolsa, sem pedir autorização (a sério que é só a mim que isto me faz confusão?) e mexi nos CDs. Aquela bolsa anda no meu carro há meses e eu nem sequer a pedi emprestada. E devia, porque ela não é minha.

Ouvi, ouvimos os 5, com reclamações e curiosidade dos mais novos e, da minha parte muita saudade, os CDs de Guano Apes e Silence 4. Ainda sei as letras de cor. A nossa cabeça consegue ser maravilhosa de uma forma surpreendente. Eu diria mais. Mágica.

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Conseguem ver a argola no furo de cima?

 

Oh meu querido ♥ ALENTEJO

Uma das coisas boas que a idade nos traz (agora assim de repente só me estou a lembrar de uma) é termos mais certezas do que gostamos, não gostamos e/ou adoramos.

Todos nós, de alguma forma, arrumamos na nossa cabeça as pessoas em pequenos grupos – digam-me por favor que não sou sou eu que faço isto – de acordo com as suas preferências. Ai! Eu passo a explicar. Não me interpretem mal. Não é bem arrumá-las em diversas categorias, é assim mais agrupa-las. É praticamente a mesma coisa, não é? E com que finalidade? Literalmente nenhuma. É que há tanta informação aqui dentro, e eu que até gosto de ver as coisas bonitinhas e arrumadinhas, que eu vou fazendo pequenos grupos, mas são só coisas minhas, para me darem alguma orientação.

Há as pessoas que gostam de bolas de Berlim com creme e as que nem lhes tocam se tiverem creme;  as que preferem Londres a Paris e as que lhes é completamente indiferente (really? então mas Londres tem alguma coisa que ver com Paris?); as que adoram Pink Floyd, as que nem por isso (eu) e as que preferem Pearl Jam (já vi duas vezes ao vivo e ainda quero MAIS); as que seriam incapazes de passar uma noite à porta da loja para comprar um bilhete para qualquer que seja o espectáculo e as que são (já eu, noites mal dormidas só em nome dos meus grandes amores e felizmente foram muito poucas); as que não se importam de acordar cedo e as que se importam sempre de acordar independentemente da hora (odeio fazer parte deste grupo); as que gostam de sardinhas e as que preferem carapaus (eu gosto mesmo é da salada algarvia em cima do pão molhado com a gordura da sardinha); as que praia é sinónimo de Algarve e as que não.

Pois eu, que toda a vida fiz férias no Algarve, estudei e adorei lá viver 4 anos incríveis (diz que há amigos dos meus filhos que já lêem o blog, não vou mesmo poder falar sobre isso aqui), sou Alentejo. Eu sou cada vez mais Alentejo. Sou petiscos, ondas e água fria. Sou percebes e pão alentejano com tudo (pão esse que ao fim de uma semana me provoca uns gases bastante incomodativos). Eu sou verão, mas com temperaturas amenas. Sou esplanada com o sol a por-se no mar. E que mágico é o por do sol no Alentejo. Sou camisola com capuz ao final do dia e manta na cama à noite. Sou manhãs de nevoeiro e cheiro a mar autêntico e verdadeiro.

Há qualquer coisa na costa alentejana que me deixa a alma tatuada (ainda não foi este verão que fiz uma tatuagem – é difícil escolher o quê). É aqui que eu sou mais eu e que encontro mais dos meus. Sou também Londres, bola de Berlim sem creme, Pearl Jam e festivais de verão. Sou família, amigos e manhãs mal humoradas. Sou sardinhas e sou Alentejo.

Mas porque somos 5 e há que respeitar as decisões e condicionantes da tribo, também sou Algarve. Sou o movimento dos primeiros dias de Agosto com os amigos todos a chegar. Sou praia e mergulhos até à noite (impossível no Alentejo). Sou pizzas Nosolo (vou conseguir assinantes para uma petição para terem na carta uma pizza de chourição picante) e sangria com bola de sorvete de limão. Sou ilha do Farol (um ano destes passo lá uma semana) e sunset no Cais Aqui. Sou sobretudo tudo o que mais gosto. Somos todos, não?

[Nota: estivemos pela primeira vez uma semana de férias em Odeceixe. No mapa já é Algarve mas em tudo o resto é Alentejo ♥]

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Café da Praia, Odeceixe

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Eu a pedir boleia, Odeceixe

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2 Pescadores apanhados desprevenidos, Odeceixe

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A vista da janela da sala, Odeceixe

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O meu mais novo, Odeceixe

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O meu do meio, Odeceixe

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Meus, Odeceixe

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À espera que ele se ponha, Odeceixe

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Foto pela minha amiga Sara, Aldeia da Pedralva

Vais viajar em trabalho? Então só tens mesmo é de aproveitar

O meu blog hoje é para todas as mães que são desafiadas, convidadas e/ou obrigadas a viajar em trabalho:

  • Aceitem o desafio. À excepção das saudades, tudo vai decorrer normalmente na vossa ausência. Vão todos comer, dormir e acordar, embora não necessariamente pela ordem que vocês gostariam. São só uns dias e o pai pode mudar os horários por uns dias. O pai também pode pedir ajuda aos avós, tios, vizinhos, padrinhos, amigos (vêem como podem contar com tanta gente?).
  • Não precisam de deixar todas as refeições prontas, afinal para que é que foi inventado o take away? E aquele livro do Jamie Olivier que o pai tem na cozinha e ainda nunca teve oportunidade de passar do prefácio? Talvez esteja na altura de entrar de cabeça no enredo principal da história.
  • Se o hotel onde estão for bom, peçam jantar room service uma noite e abusem das séries todas que estão em falta há meses.
  • Saiam à noite pelo menos numa das noites. Quando vai ser a próxima vez que podem sair sem pagar baby sitter? E dançar num sítio onde ninguém vos conhece?
  • Deixem a todos (marido, pai e filhos) um recado na almofada. Faço sempre isso quando faço uma viagem sem eles. Deixo um recado personalizado por baixo da almofada que normalmente eles só vêem quando se vão deitar. No outro dia encontrei um recado que deixei ao bebé Zé há 4 meses, sublinhado a cores por ele.
  • Não telefonem muito, os mais novos ficam ansiosos e confusos “afinal a mãe está onde? Parece tão próxima no telefone”.
  • Não tragam sempre presentes. Pode haver viagens onde não seja possível comprar nada e depois é uma desilusão enorme para todos.
  • Não stressem muito com aeroportos e afins (eu stresso). Bem sei que a nossa Europa aparentemente segura tem mostrado da pior forma toda a sua fragilidade, mas já que têm de ir, pois que seja com toda a confiança.
  • Aproveitem! Mesmo que em trabalho, uma viagem é uma viagem. É sempre uma oportunidade de conhecer outro país, outras cidades (e ainda estão a receber por isso).

São desafiadas a viajar em trabalho? Digam sim. Arrisquem na vossa vida profissional. Sermos mães só nos torne mais fortes e nunca menos capazes. Observem e aprendam. Regressem com saudades, não abusem nas ausências e aproveitem todas as vivências.

Também poderão gostar de ler: Seis dias em viagem, sem eles.

As fotos em baixo são de várias viagens de trabalho – não parece pois não?

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(des)ligada

Estou sem whatsapp há 3 dias. Facebook igualmente. Deixei ficar o instagram. Gosto de ver imagens sem legenda. Também gosto com legendas. Há 3 dias que não leio nenhuma declaração de amor nem nenhum comentário com rancor. Há 3 dias que estou mais (des)ligada. Desligada dos outros. Ligada em mim.

Nestes 3 dias que passaram vi mais e melhor as pessoas e falei mais e melhor com mais pessoas. Atendi chamadas de quem precisava mesmo de falar comigo e liguei a quem eu precisava mesmo de falar. Olhei mais e pausadamente para a pessoa que estava à minha frente na fila do supermercado e para a que estava ao meu lado no semáforo vermelho também. Perdi um almoço combinado com amigas e uma discussão de intrigas. Perdi ainda um vídeo novo de um bebe a rir e outro antigo de um ladrão a fugir. Já não oiço a música da Luciana Abreu há 3 dias. Nem a da Maria Leal. Talvez não tenha sido ainda suficiente o tempo para as esquecer de vez.

Devo ter perdido também algum aniversário, daqueles que celebramos na cronologia com “parabéns, beijinhos”. Eu por vezes acrescento “saúde e felicidades”, que é sempre bom de se desejar, nem que seja a um amigo do amigo em comum.

Tive finalmente tempo para ir aos correios levantar o último livro que comprei: “Dicionário de Erros Frequentes”. Que pequena grande maravilha. Tenho me divertido à brava. Até de manhã lhe pego, assim só para lhe tocar e espreitar se a foto de capa se mantém igual.

Protegi-me mais dos outros e sobretudo protegi os outros de mim. Escrevi mais. Trabalhei mais e melhor. Dormi mais e melhor. Desliguei-me das notificações e partilhei menos emoções.

Sobrevivi e usufruí. Já me apetece (des)ligar-me de novo ainda que saiba que novo já nem o cheiro a mofo.

Reajo a quente face a comportamentos mornos. Alguns dirão ser próprio da idade. Eu prefiro culpar este meu espírito de imaturidade. Ainda assim, prefiro-o à falta de verdade. Embora apenas por 3 dias, soube-me bem a ausência de mim nos outros e dos outros em mim. Talvez até, vivesse melhor assim.

E agora? partilho o texto onde?

Fotos PINTEREST.

 

Seis dias em viagem, sem eles

Desde há muitos anos que tenho de viajar em trabalho. Faz parte da área que escolhi. Fez parte do trabalho na agência de viagens onde estive 12 anos e faz parte do trabalho onde estou agora. Já deveria estar habituada, deveríamos estar, eu e eles, mas no momento de me despedir parece sempre a primeira vez.

Por experiência, reconheço que só lhes devo contar de véspera, ou até no próprio dia. Quanto maior for a antecedência que lhes contar, mais tempo andam a stressar com isso. A primeira viagem que fiz depois de nascer o João Maria, há cerca de 12 anos, ele tinha apenas um ano e um mês. Claro que me custou a mim o dobro do que lhe custou a ele. Quando cheguei o pai fez a surpresa de irem juntos esperar-me no aeroporto. Eu trazia uma mala cheia de saudade e necessidades, o bebé João encontrou no aeroporto um lugar cheio de curiosidades e tudo, nesse dia, tinha mais importância que o regresso da mãe. Não me esqueço do abraço que me deu, quando finalmente os seus olhos repousaram nos meus e se demoraram, para logo a seguir ficarem, os meus e os deles, molhados de alegria.

Cheguei ontem de uma viagem de seis dias, seis dias de mim sem eles e deles sem mim, seis dias que já terminaram e me trouxeram de volta a casa e aos meus. Foram também seis dias em que pensei que, para quem é mãe de 3 crianças pequenas, pode encontrar pelo menos 5 (pequenas grandes) vantagens em fazer uma viagem sozinha, de vez em quando.

  1. As malas – eu até gosto de fazer malas (detesto é desfazê-las), mas fazer mala para 5 é dose. Gosto de fazer apenas a minha mala, sozinha e com tempo, e poder escolher com calma o que vou vestir em cada dia.
  2. As manhãs – normalmente nas viagens de trabalho tenho de me levantar mais cedo do que o habitual, mas sabe-me bem vestir-me só a mim, descer as escadas e ter todo um pequeno-almoço já feito à minha espera, sem gritos, nem birras.
  3. As refeições – a preparação e a escolha das refeições numa casa de 5 é sempre um desafio. É bom estar 6 dias sem pensar no jantar e nos lanches da escola. Guardo sempre a terça-feira para almoçar com o mais velho e com a minha mãe. Também quero começar a organizar-me para conseguir almoçar uma vez por semana com cada um dos mais novos. Esta terça-feira não almocei com o João Maria, não fiquei à espera dele à porta do liceu (mesmo depois de ele já me ter pedido para eu esperar dentro do carro), não almocei a correr em casa da minha mãe, com ela sempre a pedir-me para comer só mais um bocadinho, não cheguei atrasada ao trabalho a seguir ao almoço.
  4. Um quarto de hotel e uma cama só para mim – esta não precisa de grandes explicações pois não? Uma cama sem visitantes de pés frios a meio da noite (mas que eu confesso que adoro e lhes digo muitas vezes que podem aparecer sempre que quiserem) e uma casa de banho só minha, que mesmo de porta aberta, tenho a certeza que ninguém vai entrar “Mãeeeee posso ficar aqui só um bocadinho?”
  5. Tempo para ler e pôr as séries em dia – tinha planeado adormecer com um braço por cima do mais recente do Afonso Cruz e o outro no écran do computador encostado ao  Jack e à Rebecca. Cá em casa sou só eu que delira com o This is us. O Kiki às vezes também gosta, mas eu desconfio que o que ele gosta mesmo é de se enroscar a mim na minha cama, enquanto eu respiro e me inspiro com a história fantástica desta família, ainda que seja apenas de ficção. Não li, nem vi um único episódio, e dei comigo muitas noites a pensar na falta que me fazem os beijinhos deles de boa noite, a pedirem que fique só mais um bocadinho, ou que conte só mais uma história.

É mais fácil não estar sabendo que eles estão bem, estão com o pai que se esforça nestes dias para que eles sintam o menos possível a falta da mãe. É verdade que me custa sempre ir e me sabe muito bem regressar, mas enquanto estou de viagem estou bem, e muitas das vezes até estou muito bem.

Se há metade de mim que lhe custa ir, há também a outra metade que quer sair, sentir, conhecer, ser, estar, saborear, viajar, e que me faz, de certa forma, sentir privilegiada por poder escolher fazê-lo.

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Também poderão gostar de ler sobre a última viagem que fizemos os 5: Os Cinco em Cinque Terre

O meu nome é Patrícia e …?

Já vos aconteceu de certeza estarem num grupo e pedirem-vos para se apresentarem. Explicar quem são, de onde vêm, ou onde estão e para onde vão, em apenas duas ou três frases, que se pedem curtas e objectivas, mas que sirvam de legenda a quem acabou de vos conhecer.

Há umas semanas atrás pediram-me que me apresentasse a um grupo de 15 pessoas que tinham acabado de entrar no mesmo espaço que eu e que iriam passar as próximas 6, 7 horas comigo. Começou o que estava mais à ponta, e eu no meio, fui ficando cada vez mais inquieta, sem saber muito bem o que dizer quando chegasse a minha vez. Cada pessoa se tornava, à medida que falava, numa pessoa mais interessante que a anterior, e eu, naturalmente, também queria tornar-me interessante para os outros. De repente todas as outras histórias de vida que me estavam a ser apresentadas se tornaram muito mais interessantes que a minha.

Rapidamente chegou a minha vez, e eu, num discurso completamente desorganizado, dei início à minha apresentação. As palavras começaram desordenadamente a ultrapassar-me e eu distraí-me com o barulho do meu próprio pensamento. Não me lembro bem do que disse. Sei que contei que trabalho no departamento de promoção de uma associação de produtores de vinho, que sou mãe de 3 rapazes e que pertenço a um grupo de voluntariado.

Gostava de ter falado no meu blog e na razão pela qual o comecei a escrever. Na verdade, era essa a razão pela qual eu me tinha inscrito no workshop de phone photography, para poder melhorar a imagem digital do meu blog. Não foi por trabalhar com vinhos, nem por ser mãe de 3 rapazes, foi também pelo grupo de voluntariado, para poder melhorar a presença nas redes sociais, mas foi sobretudo para tirar o maior partido do meu telefone e melhorar as fotografias deste blog.

“Olá, eu sou a Patrícia e tenho um blog desde que o meu irmão morreu.” Seria esta a forma mais directa de me apresentar? Será isso aquilo que mais me define junto dum grupo de 15 pessoas que acabei de conhecer? Que impressão quero eu causar? A de alguém interessante para os outros ou que sintam compaixão por mim e pela minha história? E sentir-me interessante para os outros é importante porquê? Se calhar até não é. Mas a verdade é, que desde essa apresentação que tenho andado a pensar, que quando me voltarem a pedir para me apresentar, quero estar melhor preparada.

“Olá, eu sou a Patrícia, tenho 3 filhos rapazes e 2 sobrinhas raparigas. Trabalho numa área que gosto muito e, na maior parte dos dias, estou feliz com as minhas escolhas e com a vida que me é oferecida todos os dias. Faço o melhor bolo de iogurte do mundo (é da bimby, mas o meu é mesmo o melhor) e adoro viajar”.

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Mais tempo, mais amor, mais Natal, mais devagar

Muito se tem escrito sobre o desacelerar e o viver mais devagar, sobretudo para quem tem crianças. Passamos a vida a correr atrás dos horários, dos nossos, dos deles e dos dos outros. Eu digo muitas vezes que “passo a vida a correr para chegar sempre atrasada”. Sou daquelas pessoas que está sempre no ir e que não gosta de dizer não a nada nem a ninguém. Já tive fins-de-semana de marcar almoços, lanches e jantares em sítios diferentes e andar a correr de um lado para o outro com os miúdos a reboque, para chegar às capelinhas todas. Por esta altura do Natal a azáfama costuma ser ainda maior. Almoços de Natal, presentes, lanches de Natal, presentes, jantares de Natal e mais presentes.

Este ano prometi a mim mesma viver esta época mais devagar. Com mais tempo, mais amor, mais Natal e mais devagar.

Tenho a casa em obras, inicialmente era só o sótão e um dos quartos, mas hoje de manhã quando saí de casa as obras já tinham chegado à cozinha. A noite de 24 (é só daqui a 2 dias) é em nossa casa, com os meus pais, os meus cunhados e os meus sogros. Comprei os brinquedos todos online e ainda não chegou nenhum. Há que acreditar até ao fim, ainda faltam 2 dias e 1 é deles é domingo, mas é esta a época da magia não é? Ainda me faltam comprar 7 presentes. Se não fizer tudo com mais tempo, mais amor, mais Natal e mais devagar como é que vou conseguir viver o mais importante e preparar a ceia de Natal numa mesa com velas bonitas e acesas?

Vou ficar calma e aproveitar esta época. Com mais tempo, mais amor, mais Natal e mais devagar.

Não vou discutir com ninguém que se ponha à minha frente na confusão das lojas nos dias 23 e 24. Por acaso no outro dia de manhã na pastelaria para tomar o pequeno-almoço, e eu que nunca tomo o pequeno-almoço, mas como não tenho de despachar os miúdos nas férias, sabe-me bem sair de casa e tomar o pequeno-almoço fora, reclamei com uma senhora que estava a querer passar-me à frente mas afinal enganei-me. A senhora tinha chegado antes de mim. Se fosse hoje não reclamava. Hoje, amanhã e depois quero dar a minha vez nas filas aos que estão atrasados e aos mais apressados, porque eu não quero ter pressa.

Não quero mais jantares obrigados com presentes embrulhados. Quero dar e receber tempo. Mais tempo, mais amor, mais Natal e mais devagar. Este ano foi o ano das festas dos 40, a minha e a de muitas amigas. Foram todas diferentes e especiais. A Joana (Joana, a inspirares-me há mais de um 1/4 de século) fez uma coisa no aniversário dela que me tocou especialmente. Escreveu uma mensagem personalizada a cada um dos convidados. Gostei tanto que pensei logo em imitar e fazer o mesmo numa próxima oportunidade. Tenho a mensagem da Joana na minha mesa de cabeceira, embrulhado com uma fita que a Anita me trouxe do Perú a enrolar uns postais feitos por ela. Os postais da Anita do Perú também estão na mesa de cabeceira. Gosto de olhar para a mesa de cabeceira e pensar que para aqueles presentes estarem ali alguém usou do seu tempo a fazê-los especialmente para mim. Esta semana num jantar de Natal com amigas copiei a iniciativa da minha amiga Joana e ofereci uma mensagem de Natal personalizada a cada uma. Foi tão bom ver as reacções. Espero que pelo menos uma das amigas que recebeu a mensagem copie a ideia. Nesta época eu quero mais escrever e menos teclar. Mais falar e menos telefonar.

Este Natal eu quero estar ao fogão sem olhar para o relógio e à mesa ao jantar sem pegar no telemóvel. Quero deitar-me no sofá sem adormecer, ir para a cama sem ter sono e acordar só com o amanhecer. Quero estar de férias. Em casa. Com os meus filhos. Quero ter sempre um bolo de iogurte feito por mim em cima de um prato alto e bonito. Também pode ser de laranja. Quero ter o cheiro do café na cozinha. Quero que as obras terminem. Quero fazer fritos tradicionais de Natal. Não, não quero nada, quero comprar os mesmos do ano passado e do ano anterior. Quero estar em casa vestida e arranjada. Quero tomar o pequeno almoço sentada. Quero ver-me ao espelho. Quero fotografar e ser fotografada.

Quero silêncio. Quero mais tempo, mais amor, mais Natal e mais devagar. Quero sentir essa luz que tanto falam e que é suposto brilhar mais no Natal. Quero perceber se é o mesmo a que eu chamo de amor. Quero senti-la no meu interior. Quero rezar e festejar o nascimento do Senhor.

A todos um Feliz Natal ♥

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O original desta fotografia tem uma amiga super gira ao meu lado, mas ela não gosta de aparecer nas redes sociais e tive de a cortar, aparece só um bocadinho de cabelo.

7 Coisas que os meus filhos esperam de mim e que eu não lhes consigo dar

Os meus filhos têm muitas expectativas em relação a mim. É mais frequente serem as mães a ter expectativas elevadas em relação aos filhos, mas o inverso também acontece. É perfeitamente aceitável. Eles são meus filhos. Eu sou a mãe deles. E, como em todas as relações, na nossa nem tudo corre como eles gostariam. Os 3 têm opinião e um sentido crítico muito apurados. Faria (quase) tudo por eles mas há 7 coisas que eles esperam de mim e que eu não lhes consigo (nem quero) dar.

1) Que eu seja divertida, desde que não seja eu a fazer os outros rirem-se. Sou de gargalhadas fáceis e não é preciso muito para me arrancarem algumas, mas também adoro dizer piadas e ser eu a roubar as gargalhadas aos outros. Isto para os meus filhos é completamente condenável. Se existisse um código penal para o comportamento das mães, a pena seria elevada para mim.

2) Que não saia à noite com amigos. Nem com o pai. Muito menos sozinha. Pois sozinha não saio com certeza, com os meus filhos só numa ocasião muito especial como por exemplo um aniversário, passagem de ano, ou um jantar de amigos que se prolongou pela noite dentro. Agora com o pai e com os meus amigos, ou uma noite só de amigas, ah isso não vou abdicar por eles. Adoro sair, dançar, mudar de roupa para ir jantar fora, um jantar a dois, um jantar de amigos, um jantar só de amigas. Sair!

3) Que mude de profissão para mãe (motorista, cozinheira, explicadora, conselheira) a 100%. Os meus filhos adoravam que eu deixasse de trabalhar. Eu gosto muito do que faço e não considero que o tempo que passo fora de casa esteja a prejudicar de alguma forma o desenvolvimento dos meus filhos. Preciso de ter um trabalho, uma ocupação que seja minha, e que me faça chegar a casa realizada, cheia de saudades deles e com pena de não ter um horário mais reduzido que permitisse conciliar melhor estes 2 lados de mãe dentro e fora de casa.

4) Que estude com eles. Nunca estudei com nenhum dos meus filhos. Estou disponível para ajudar, esclarecer, orientar e supervisionar, mas nunca (nunca digas nunca) para estudar com eles. Este ano preciso de estar mais atenta. No ano lectivo passado não orientei nem supervisionei e as coisas podiam não ter corrido tão bem. Vou estar mais presente este ano lectivo, mas não vou estudar com eles.

5) Que não fale deles às minhas amigas. Eu sei que nenhum miúdo gosta, mas eu não consigo não falar. As minhas amigas também falam dos filhos comigo e eu vou ficar a ouvir sem contar as últimas gracinhas dos meus? Não consigo ficar calada. Tenho um grupo de amigas com quem janto de vez em quando, e a minha amiga Joana já tem dito no início do jantar “não vale falar dos filhos nem queixarmo-nos da vida”. Ao início ficamos a discutir a ementa do restaurante e o vinho que vamos beber, mas logo a seguir alguma se lembra do último filme do Jude Law e a partir daí facilmente a conversa flui para os mais variados temas. Sabemos muito bem falar de outras coisas para além dos filhos.

6) Que aprove todas as tendências actuais de moda, desde que não use nenhuma. Posso gostar de calças de ganga rasgadas, calções curtos, ténis coloridos, tatuagens e afins. Mas não posso (não deveria de acordo com a opinião deles) usar calções de ganga, ténis iguais aos das amigas deles e um piercing (que nem é bem um piercing, é só um mini brinco na parte de cima da orelha)

7) Que me dê muito bem com o pai, desde que não o demonstre por pensamentos e palavras, actos ou omissões. Beijinhos na boca, abraços e mimos no sofá – completamente proibido pelos pirralhos cá do sítio.

Desculpem miúdos, 3 Marias ou Mateirinhos como carinhosamente os nossos amigos vos chamam. Vocês são sem dúvida o melhor de mim, a parte mais feliz do meu dia, mas não me peçam para deixar de ser eu e passar a ser essa senhora que vocês gostariam de moldar ao vosso gosto e a seguir chamar de mãe.

Com todo o meu amor.

Eu. E também a mãe dos 3 Mateirinhos.

[as fotos em baixo têm legendas com significados quase opostos, ditas por mim ou por eles]

acampamento
Eu: eu a divertir-me com os meus filhos e os amigos deles. Eles: a mãe a meter-se na nossa brincadeira

macacadas
Eu: a minha amiga Cristina e eu numa das nossas viagens e das quais eu tenho tantas saudades. Eles: a mãe armada em ginasta e a exibir a elasticidade para as câmaras

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Eu: o pai e eu. Eles: que nojo mãe!

Hoje é que é

Amanhã levanto-me à mesma hora que o pai. Vou deixar o telemóvel longe da mesa de cabeceira para me obrigar a levantar da cama quando for desligar o despertador. Mas é tão cedo. Vou-me levantar já para quê? Eu despacho-me tão depressa. Hoje nem preciso lavar o cabelo. Lavo amanhã. Hoje durmo mais 3 minutos. 07:27. Número ímpar e horas incertas. Sempre. Snooze. O despertador do pai já tocou há uma hora, ou melhor, há uma hora e 3 minutos. O do pai toca a horas pares. E certas. Ao meu lado, no lugar do pai, já se deitaram 3, número ímpar. Comigo 4, número par.

07:49. Duche. Espero que a botija não se acabe comigo, hoje não. Um gel para a cara e outro para o corpo. Agora que já não tenho espuma posso ficar só aqui a sentir a água quente, agora a botija já se pode apagar. Só mais 3 minutos. Faz falta um snooze no duche. Só mais 3 minutos.

Zé! Já estás a jogar PlayStation? Mesmo agora te levantaste, Zé. Kiki, não venhas depois queixar-te que estás com dores de cabeça. Adormeces e acordas com a cabeça em cima do iPadMãe, tenho um recado na caderneta, pode assinar? Agora? Não devias ter-me avisado ontem? Não me lembrei mãe, mas pode assinar? Vá lá mãe.

Quase sem ler assino a bufar e dou comigo a pensar o quanto estou igual à minha mãe. Estou a falar igual a ela. Estou a ralhar e a bufar igual à minha mãe. Não tarda estou como ela, logo pela manhã a falar nas temperaturas quentes que se vão fazer sentir em Santarém.

João, hoje vai estar calor, não precisas levar casaco. João Maria, não deixes o casaco na escola, quando o despires guarda-o na mochila. João, o meu beijinho? João, levas lanche? Mãe, é preciso ir ao supermercado, mãe não há nada. Mãe, cereais? Leva moeda João, tens da tua mesada? Não, mãe. OK João, tira da carteira da mãe. Mãe, a mãe não tem moedas. OK leva a nota. Traz o troco.

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A gaveta das bolachas não tem bolachas há uns dias, tem flocos de aveia, sementes de chia e tostas integrais. Talvez um dia me agradeçam. Talvez não. Talvez quando forem mais velhos e saírem de casa corram para o supermercado a comprar todas as bolachas e chocolates que eu não comprei (esta semana, porque quase todas as semanas compro bolachas e não há mais vezes porque quando há acabam depressa).

Leite, torradas, lanches por embrulhar. Uma colher de café de Nesquick em cada caneca e 2 palhinhas. Mãe, o pai ainda não me remendou a bicicleta? Mãe, o João levou a minha bicicleta para a escola? Mãe, só esse chocolate no leite? 

O pão é integral, o pão branco agora só ao fim-de-semana ou quando o pai vai ao supermercado. Aí entra o pão branco, os chocolates e até a coca-cola. Zé Maria! Não se arrota! Perdão, mãe. Calça-te, Kiki. Se não te consegues vestir enquanto vês televisão, eu apago a televisão. Hoje é que é. Vou vos tirar os comandos todos, da televisão e da PlayStation. O que é que eu vos disse no sábado quando saímos da Decathlon? Enquanto eu me lembrar das bolas que já vos comprei aqui mais estas que levamos hoje não vos quero ver em frente à televisão. Mãe, a bola de futebol está furada. Mãe, eu queria uma de basquetebol só para mim. Mãe, as minhas chuteiras estão apertadas.

08:23. Saltam as torradas. Largamos a Planta com (pouco ou nenhum) sabor a manteiga e fazemos as pazes com a manteiga dos Açores. Viva a dieta do Paleo! A manteiga está rija. Hoje antes de me deitar tenho de me lembrar de tirar a manteiga do frigorífico. Mãe, podemos tomar o pequeno almoço na sala? Só hoje. Limpem bem as mãos. Não toquem nos sofás.

08:49. Meninos, para o carro. Kiki fecha a porta. Mãe, posso ir a pé? Agora não filho, hoje não. Mas podes voltar a pé. Mas não pares em lado nenhum, vais directo para casa da avó. Amanhã acordas mais cedo e podes ir a pé de manhã. Para isso hoje tens de te deitar mais cedo. Zé, o cinto. O cinto, Zé. Zé, estamos a chegar à escola, agarra a mochila, prepara-te para sair. Zé, o meu beijinho? Hoje vai ser um bom dia, Zé. Hoje vai ser. Hoje é que é.

Sai do carro Kiki. Kiki, vieste desde casa até aqui sem pôr o cinto? Kiki, olha a mochila. Kiki, passa na passadeira. O meu beijinho? Juízo Kiki. Até logo.

Hoje é que é. Hoje deito-me mais cedo. Hoje saio a horas e vou ao supermercado com lista e com tempo. Hoje não compro bolachas mas trago coisas para fazer daquelas feias e saudáveis. Tirei uma receita da internet há uma semana, o papel ainda estará na mala? Hoje é que é. Hoje deito-me mais cedo e leio. Menos teclar e mais sonhar. Menos tempo a perder e mais tempo a ler. Hoje é que é. Hoje recomeço o Pintassilgo. Talvez tenha de voltar umas páginas atrás. Lavo os dentes, tiro a maquilhagem e volto atrás no Pintassilgo. E leio. Qual maquilhagem? Só uso blush e batom com brilho. Mesmo assim se não tiro sujo a almofada. Hoje deito-me cedo. E leio, pelo menos 3 páginas. Não posso crer que vou levar para as férias o mesmo livro do ano passado. E os textos sempre aqui na minha cabeça. Sempre sobre mim. Sobre mim e sobre os meus. E quem há-de querer ler sobre mim? E sobre os meus? E a lista do supermercado também aqui. Mãe, não há bolachas! E os textos que estavam mesmo agora aqui agora já não estão.

Mãe, deixe o telemóvel. Mãe, pode-se sentar aqui um bocadinho ao pé de mim? Mãe, já está outra vez no Facebook? Estava só aqui a escrever uma coisa. E o dedo a deslizar e a clicar. Duas vezes no Instagram. Uma vez no Facebook. E o tempo a clicar sem parar. E os textos ainda aqui. Outra vez eu, outra vez sobre mim. Agora já nem sequer sobre os meus. E quem há-de querer ler sobre mim? E sobre o texto que anda aqui?

(já sozinha no carro ligo à mãe, à minha)

Mãe! Bom dia mãe. Mãe, dormiste bem mãe? Mãe, o que há-de ser hoje o meu jantar? Mãe,  podes ir ao supermercado? Obrigada, mãe. Mando mensagem com a lista. Mãe, foste buscar as minhas calças à lavandaria?

Filha, Santarém hoje vai ser a cidade mais quente. Arrumaste a roupa que eu passei?

Mãe! Beijinho mãe. Mãe, agora não posso falar. Já ligo mãe.