Ontem fui a Lisboa e voltei. Sozinha numa camionete.

Tenho o carro na oficina. Logo este mês que tinha recheado a conta poupança e que parecia estar tudo tão controlado. Tudo menos o ar condicionado que escolheu o mês do subsídio de férias para avariar à séria. Em princípio amanhã já está pronto. Espero que a despesa não seja maior que o reforço que fiz a semana passada na nossa conta para as férias. Logo no dia em que tenho de ir a Lisboa estou sem carro. Há sempre a hipótese do comboio, isso ou  a camioneta nova do marido com mais de 1,80m de altura, muitos de largura e outros tantos de comprimento (medidas da camionete e não do marido).

Zinho! Tenho de ir às Amoreiras e à Avenida da Liberdade, posso entrar nos parques de estacionamento subterrâneos com a camionete? Ficas mais descansado se eu for de comboio? E se me despacho tarde? Se for de carro chego mais cedo a casa. Venha daí a camionete.

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Foto por Miguel Cordeiro

Auto-estrada, 2ª circular, eixo norte sul, Amoreiras Shopping Center. Passei à porta da empresa onde ia ter reunião 20 minutos antes da hora marcada e mesmo assim cheguei atrasada. Estou desconfiada que ninguém chega a horas a compromissos em Lisboa, a não ser os que trabalham ou moram no local combinado. Chego ao estacionamento do shopping e vejo que muito provavelmente vou ficar sem o tecto da camioneta. Paro o carro em frente à cancela para tirar as medidas à camionete. Nesses 10 segundos em que estive parada (devíamos andar sempre com uma fita métrica no carro, a minha mãe costuma andar) pararam imediatamente 4 ou 40 carros atrás do meu, a partir do 5º deixei de os contar. Vi como rapidamente se forma uma fila no trânsito. Tive sorte com o ocupante do primeiro carro da fila. Saiu do conforto dos vidros fechados e do AC e veio ao pé de mim dizer me que achava que passava (acha que passa? e eu avanço sem ter a certeza?). Arrisquei e risquei, felizmente apenas a antena. Não sabia que os carros ainda tinham antena para o rádio, aos anos que não reparava nesse pormenor, acho que desde que o meu irmão passou uma noite na PSP por ser apanhado a tentar roubar uma de um Opel Corsa (ainda hoje eu acho que foi uma injustiça, muito provavelmente ele estava só a apertá-la, fazendo assim um enorme favor ao dono da antena e do carro). 

Estacionei a camionete a ocupar 2 lugares e meio e fiquei aliviada por a reunião ser junto às Amoreiras e não junto ao El Corte Inglês, senão provavelmente ainda lá estava.

Gosto de ir a Lisboa sozinha. Também gosto acompanhada, mas confesso que me sabe muito bem ir sozinha. Gosto de olhar as pessoas, de sentir a pressa da cidade e de regressar a casa ao fim do dia com a certeza que não está nos meus planos mudar de terra nos próximos anos. Divido os dias entre Almeirim, Santarém e Alpiarça e não sinto saudades de morar numa cidade grande. Habituei-me ao campo e à lezíria do Tejo e ao planalto com vista para o rio. Chega-me a correria desta trilogia. Lisboa é quase sempre e apenas um passeio nos fins-de-semana de inverno, mas é de semana que as cidades mostram toda a sua identidade. Ontem fui a Lisboa sozinha. Num dia de semana e o dia sozinha. Sem a distracção da conversa de uma companhia, sozinha consegui distinguir uma cidade onde tudo acontece a um ritmo diferente dos sítios onde eu habitualmente estou.

Vi senhoras de saltos altos e finos (queria vê-las a caminhar na calçada da Rua Capelo e Ivens em Santarém), vi-as a mexer em roupa de saldos com o mesmo ar de quem encontrou uma batata podre na prateleira do supermercado. “O último a chegar é uma batata podre” diz tantas vezes o João Maria para os irmãos, e o Zé que já aprendeu a defender-se apressa-se a a dizer, “o primeiro a chegar é que é um ovo podre” e o Kiki ali fica no meio, entre a batata e o ovo, sem saber se deve chegar em primeiro ou em último ou se fica confortavelmente na posição do irmão do meio.

Vi estrangeiros que se percebe que são estrangeiros mesmo quando estão em silêncio e com os mapas guardados na mochila. E são tantos os se passeiam pela cidade. Pergunto-me se percebem que, como eles, eu não pertenço ali e que Lisboa para mim também é uma capital europeia, só que de um país que por acaso é o meu.

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Foto por Susana Vacas de Carvalho

Vi crianças sozinhas. Sozinhas sozinhas e sozinhas com amigos sem a presença de um adulto. Tenho a certeza que em Lisboa me ia custar muito mais deixar os meus filhos andarem sozinhos. Quanto maior a cidade, maiores os perigos, ou não. Vi miúdos em grupo, da idade do João, todos muito parecidos entre si e parecidos com o João e o seu grupo de amigos. Vi que para serem mais iguais faltavam-lhes as bicicletas e os calções de banho com cheiro a cloro das piscinas dos vizinhos. 

Vi pessoas a andar depressa, a comer à pressa, a fumar à pressa, a falar depressa. Ouvi vozes altas, baixas, palavras rápidas e envergonhadas, vi olhares rápidos que fugiam com pressa. Consegui alguns sorrisos em troca de olhares directos e demorados. À minha maneira, sem pressa. Vi pessoas parecidas comigo e outras nem por isso. Vi uns ténis iguais aos meus nos pés de uma senhora. Será que também lhe custaram € 5,90? Será que também os comprou em Almeirim? Naquela sapataria onde eu fui com a Sandra no dia em que fomos as duas comer uma sopa de peixe ao Forno? Haverá sopa de peixe em Lisboa como a do Forno? E sopa da pedra como a do Toucinho? Vi seguranças à porta das lojas que parecem invisíveis a quem entra e sai sem dizer boa tarde nem obrigada. Vi lojas novas pequeninas que não são franchising e que eu já conhecia do Facebook, todas elas com vendas online e muitas com artigos feitos à mão. Enjoei-me com os perfumes das lojas misturados com as ilhas do nail4us.

Vi uma banca a vender fruta protegida por 2 chapéus grandes de sol. Não parei, não fotografei, não comprei. Entrei antes numa Padaria Portuguesa, que não demorei a encontrar, e comi um pão por Deus com fiambre . O bolo estava quase cru e deixou-me horas com uma pasta de coco agarrada aos dentes (a minha rica arrefada da Bijou com o coco seco e estaladiço). 

Andei mais de uma hora sem encontrar uma cara conhecida. Reconheci uma actriz de teatro e telenovelas mas não me recordo do nome. Em Santarém não caminho 10 metros sem parar para 10 minutos de conversa. Lembrei-me dos amigos que moram e trabalham em Lisboa, mas achei que não iam ter tempo para vir até mim nem eu para ir até eles. Estar em Lisboa ao pé das Amoreiras e ter um amigo que está a tomar café nos Restauradores, dependendo da hora do dia, pode significar que estão a uma hora de distância um do outro. Uma hora é o que eu demoro desde a minha casa em Alpiarça até chegar às Amoreiras (a um domingo de manhã sem chuva). Liguei a um amigo às 16:00, ainda estava a almoçar. Nas cidades grandes muita gente vive por turnos. Trabalham, dormem e comem por turnos, e assim mantêm a cidade em movimento ininterruptamente.

Já trabalhei em Lisboa, mesmo em frente ao Amoreiras Shopping Center, muito perto do sítio onde tive ontem uma reunião. Na altura não tinha filhos nem prestação de casa para pagar, acho que houve meses em que o meu salário não chegou sequer às portagens de Santarém, ficava todo ali, ora no lado de lá da estrada (ainda hoje é o meu shopping preferido em Lisboa), ora nos restaurantes que ia experimentando. Uma parte terá ficado também no Teatro Villaret, havia sempre tanta coisa a acontecer no Villaret. A última peça que assisti lá foi “40 e então?”, oferta de umas amigas no meu aniversário dos 40.

Terminada a reunião retomei a difícil tarefa de conduzir num parque de estacionamento de qualquer centro comercial em Lisboa. Tinha tirado uma fotografia ao lugar onde estacionei e mesmo assim andei mais de 15 minutos à procura da camionete (gaita! roubaram-me a camionete. Vamos tentar ver pelo lado positivo, o meu marido assim já não vê que lhe risquei a antena). Paguei quase tanto pelo estacionamento como pelas 2 pulseiras e 1 colar que comprei. Com tanto abre e fecha da mala, entalei a blusa de seda no fecho da carteira, a que tinha escolhido para vir a uma reunião a Lisboa.

Ontem fui a Lisboa e voltei. Sozinha numa camionete. Voltei ao meu lugar demorado e às vezes parado, onde pertenço eu e os meus. E agora quando me elogiarem o colar e as pulseiras novas, posso responder a sorrir: Comprei em Lisboa.

4 thoughts on “Ontem fui a Lisboa e voltei. Sozinha numa camionete.

  1. Mais um texto lindo!!
    Muito bem escrito e com imensa piada.
    Acho que ao ler senti o que estavas a sentir…
    Eu fui de jipe as amoreiras!!
    Muitos muitos parabéns.
    Continua por favor a escrever..
    Bjs

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