Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos?

Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos? Não me refiro aos imóveis, esses, como o próprio nome indica, não se mexem, portanto podem-nos deixar estar exactamente no mesmo sítio, onde sempre estiveram.

Eu digo as nossas coisas, as que andam connosco de um lado para o outro e que carregam as nossas impressões digitais, preferências e sentimentos. O que vai ser da minha fita azul do cabelo que eu só uso em casa ou na praia? Quem vai abrir e fechar os meus livros? E se lá dentro estiver alguma lista de supermercado antiga? Ou uma mensagem esquecida? Para onde irão parar os meus álbuns de fotografias? As fotografias dos meus pais e dos meus avós, algumas de familiares que os meus filhos e netos já não vão conhecer, nem sequer em fotografia? O que lhes fazem quando eu não estiver cá para lhes contar ou relembrar?

Até que geração se vai falar do Tio Pedro na minha família? Eu tenho filhos e muito provavelmente os meus filhos também terão filhos, eu poderei ser avó, bisavó, estando ou não presente fisicamente, há uma grande probabilidade de eu ser avó e bisavó. Mas o Tio Pedro não. Não teve filhos. É tio dos meus filhos e será tio avô dos meus netos – é assim, não é? mesmo não estando fisicamente connosco? Para mim é. Os meus filhos sabem quem é o Tio Pedro, já leram sobre ele, fazem perguntas e ouvem-me muitas vezes a recorda-lo. Mas irão eles falar dele aos seus filhos? Aos meus netos? Aos sobrinhos netos do Tio Pedro? Será que vão colocar nas suas casas uma fotografia dele? Quem é que se vai lembrar que ele uma vez caiu de bicicleta e foi no banco de trás comigo para o hospital, muito agarrado a mim, com a minha mãe a apitar e os 4 piscas ligados?

Voltando às coisas que são nossas e que são apenas coisas, mas que por serem nossas não são coisas iguais às coisas dos outros, tenho a certeza que ninguém deixa em testamento uma argola de prata comprada num quiosque na Zambujeira do Mar (tenho dúvidas se será mesmo prata, uma vez que tenho a parte de cima da orelha tão vermelha e a doer-me tanto, que  já só consigo deitar a cabeça do lado direito e se continuar a insistir a usa-la corro grandes riscos de perder não só a argola mas também a orelha esquerda). O Pedro, meu marido, muito experiente em furos (não destes, mas ainda sim tem experiência em furos, diz que a parte de cima das orelhas não foi feita para ser furada. Grande argumento Senhor Pedro, então e a de baixo foi?

O que vai acontecer às minhas cartas? As que recebi quando estava na universidade, a fazer ERASMUS ou mesmo as de início de namoro quando fiz 9 meses de INOV Contacto em Inglaterra – não posso deixar isso a ninguém – será que devo ser prudente ao máximo de as queimar já para ter a certeza que não vão um dia parar a um caixote de mudanças que por engano vai parar a um imóvel que não o meu? E todas as que eu escrevi e estão espalhadas em várias casas? Onde poderão ir parar? Será que alguém, para além do seu destinatário, as vai ler? Se bem que, pelo menos para mim, as minhas cartas, as recebidas e as enviadas, só têm interesse se forem lidas por alguém que me conheça. E, ainda assim, não têm muito interesse, a não ser os desenhos que o Pedro fazia quando não sabia o que me escrever ou para preencher a folha até ao fim. Ele não gostava de espaços vazios entre nós. Ainda hoje não gosta. Só nas noites muito quentes, aí mantemos a distância máxima. Nas restantes dormimos tipo lapas (ora porque queremos, ora porque temos filhos de lapas a ocupar o espaço quase todo da nossa cama).

Todas estas coisas que partilho agora vieram-me à cabeça nas férias, numa viagem de carro de Portimão até Olhão, no dia em que fomos à Ilha do Farol. Quando não estamos a trabalhar sobra-nos muito mais tempo para pensar em coisas nas quais habitualmente não pensamos. Nas férias também tenho sempre muitas ideias de negócios e criação de micro-empresas que nunca chegam a sair daí. Da minha cabeça. Mesmo sem saírem, na incubadora de empresas que mantenho dentro da minha cabeça facilmente se transformam em grandes empresas de sucesso com direito a case study e entrevistas para a televisão em horário nobre (isto já não existe, pois não? horário nobre na televisão?). Voltando à viagem de carro, encontrei na mala do meu carro a bolsa dos CDs do Tio Pedro. Abri a bolsa, sem pedir autorização (a sério que é só a mim que isto me faz confusão?) e mexi nos CDs. Aquela bolsa anda no meu carro há meses e eu nem sequer a pedi emprestada. E devia, porque ela não é minha.

Ouvi, ouvimos os 5, com reclamações e curiosidade dos mais novos e, da minha parte muita saudade, os CDs de Guano Apes e Silence 4. Ainda sei as letras de cor. A nossa cabeça consegue ser maravilhosa de uma forma surpreendente. Eu diria mais. Mágica.

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Conseguem ver a argola no furo de cima?

 

6 thoughts on “Para onde vão as nossas coisas quando nós morremos?

  1. A vida é feita de recordações, umas boas outras menos boas, porque o dia de ontem já passou e ficou mais uma recordação qualquer….
    Nada é nosso e a vida é uma partilha, o sol nasce para todos não para si só, o ar é para todos, o vento é para todos… para mim é a tal magia…

    Adoro ler as notícias do teu blogue, bjs

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  2. És tão maravilhosa… e as coisas que escreves no teu blog e que partilhas com todos? Onde vão parar no fim de morrermos? Não interessa! Interessa sim que agora, me vêm parar a mim. Love ❤️ Pat.

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