Não fiz caso, mas devia

Desleixei-me. Descuidei-me. Enganei-me. Despreocupei-me. Devia ter feito caso e não fiz. E senti-me mal com isso.

O João Maria andava a queixar-se com dores nos joelhos há mais de um ano. Sim, há mais de um ano. Podem crucificar-me à vontade, eu mereço. A verdade é que, para além do meu desleixe, durante todo este tempo o João sempre fez educação física, treinos duas vezes por semana e jogos ao fim-de-semana. E também é verdade que não se queixava todos os dias, se calhar nem todas as semanas (“ah, a culpa agora é do miúdo queres ver? só se queixou 10 vezes e deveria ter-se queixado 20 ou 30”).

Era quase sempre na hora de deitar que ele me dizia “mãe, há qualquer coisa estranha com os meus joelhos, mexem-se muito. olhe aqui.” E eu quase sempre respondia “oh filho, tens de lembrar a mãe de dia e não a esta hora” (a sério? a sério que deveria ser ele a lembrar-se de me lembrar outra vez? não deveria ser eu a lembrar-me no dia seguinte e marcar de uma vez uma porra de uma consulta?).

A semana passada (e por acaso ontem outra vez) o pai magoou-se num dedo do pé (o pai adora andar descalço aos pontapés às arestas das mesas e cadeiras lá de casa) e foi fazer um raio X ao dedinho lindo do pé. Nada partido mas o João Maria tirou partido para voltar a queixar-se “oh mãe, até o pai vai fazer um raio X ao dedo do pé e eu ando há um ano a queixar-me que me doem os joelhos e a mãe não faz nada?”.

Ups! Terei desculpa por ter exagerado da ultima vez que recorri às urgências do hospital? Quando fui a correr com o Zézinho ao colo a chorar com dores de barriga e afinal ele só queria fazer cocó? Imaginem a vergonha. Conhecia a enfermeira e a médica que estavam de serviço, por um lado ainda bem, livrei-me de uma boa descasca. Ainda hoje brincamos com isso lá em casa. “Oh Zezinho, e quando o menino foi fazer caca para o hospital de Santarém?”

A verdade é que agora foi precisamente o oposto. Fui a achar que não era nada, e afinal era. Nada de grave, felizmente. Caso recorrente em jovens que praticam desporto, mas ainda assim, da culpa não me livro. O João Maria precisa de repouso e de fisioterapia. E eu preciso de me lembrar que não devo ignorar as queixas deles, ainda quando me parecem exageradas.

Esta sensação de não conseguirmos chegar a todo o lado, de sair de casa com eles à pressa e com a cabeça já a pensar nos e-mails por responder; desligar o PC ao fim do dia e pensar o que é que esta gente vai jantar; ligar na hora do almoço para perguntar como correu o teste; balançar entre o sim e o não nas saídas com os amigos (sim, já há saídas), querer dar-lhes o melhor sabendo que não lhes devemos dar tudo.

Há dias em que não sou suficiente. Não me chego para mim, muito menos para eles. Ultimamente as brigas entre mim e o João  têm sido mais que os abraços e eu pergunto-me se ele em alguma altura duvida do quanto eu gosto dele. Acredito que se ele sentir pelo menos metade do meu amor, já será suficiente para se sentir amado e desejado.

Meu amor João, o meu amor mais crescido ♥

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Está tão grande (e giro, ou sou só eu a achar?)

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