A vocês que vão, de mim que fico temporariamente sem vocês

A vocês que vão. De mim que fico temporariamente sem vocês.

Fico feliz pela vossa ida e a torcer pela vossa felicidade, na esperança de cada breve e prolongado regresso. Sei que a nossa amizade fica exactamente no mesmo sítio onde estava, sem mágoas nem rugas do tempo, sem pressas ou exigências. Sou vossa amiga e nada mais desejo para além do vosso bem. Adoro partilhar a minha vida convosco principalmente por gostar tanto de vocês. Mas é mesmo por gostar tanto que não me podem pedir para sorrir com a ida. Sei que não me vou cruzar com vocês inesperadamente numa rua na terra onde vivo. Sei que não vão aparecer no meu local de trabalho para me desafiar para um café porque iam a passar por perto e lembraram-se de parar. Sei que vão faltar a uma ou outra festa de anos minha e que vou pensar em vocês quando soprar as velas. Sei que temos messenger e whatsapp, skype e hangouts, com muita qualidade de imagem e som, e grátis! Vamos ter de fazer muito bom uso disso. Sei que estou a ser egoísta. São vocês que vão e deixam-me cá a mim entre tantos amigos meus que não vão a lado nenhum e amigos vossos que me vão perguntar por notícias vossas quando nos encontrarmos. Sei que vão fazer novos amigos na vossa nova terra, nova e temporária, e eu vou ter ciúmes deles e das fotos que vão partilhar com sorrisos novos ao vosso lado.

Vivi fora algum tempo, nove meses com data marcada de ida e volta. Não cheguei a ter alma de imigrante, nesses 9 meses há 17 anos atrás vim a casa 5 vezes, a primeira logo passados 15 dias. Foi o suficiente para reconhecer a voz da nossa pátria num fado da Amália, numa voz rouca de um avião TAP a aterrar no aeroporto da Portela. Lembro-me do nervoso miudinho na espera da bagagem para abraçar os que me esperavam com urgência e saudade. Lembro-me de sorrir para cada símbolo português que via. Havia (julgo que ainda há) em Inglaterra uma cadeia de restaurantes portugueses, o Nando’s, frango assado com piripiri. O Nando’s exibia orgulhosamente um galo de Barcelos luminoso na entrada. Eu sorria sempre que passava pelo galo. Vocês também vão sorrir sempre que virem um galo de Barcelos.

Penso nas casas que vos acolhem nesta aventura que escolheram. Desejo que as transformem rapidamente em vossas, que sejam confortáveis e temporárias. Desejo que tenham vizinhos simpáticos que vos digam bom dia numa língua diferente mas meiga, que convidem os vossos filhos para as festas de anos e que guardem as encomendas que chegam do correio nos dias em que vocês não estiverem em casa. Sei que não vão provar em nenhum lado uma canja de galinha da avó e que vos vai apetecer um pastel de bacalhau assim que o virem numa vitrina durante umas férias por cá.

Desejo-vos tudo o que sei que querem nesta ida. Eu aqui fico, com saudade e a urgência de um abraço, temporariamente sem vocês.

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Os meus galos de Barcelos (um deles comprei em Silves)

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