As pipocas da minha tia Luísa

Sempre que faço pipocas em casa lembro-me das pipocas da minha tia Luísa. Com o cheiro das pipocas a invadir a minha cozinha vem-me à memória a cozinha da minha tia Luísa e a mesa redonda onde nos sentávamos, eu e a minha mãe, quando a visitávamos. A minha tia Luísa era irmã do meu avô Francisco. Era muito bonita e cheirava sempre bem. A casa combinava com ela, era bonita, estava impecavelmente arrumada e limpa e cheirava bem.

Eu não faço pipocas, limito-me a colocar o saco que comprei no supermercado e a carregar no botão do micro ondas. A minha tia Luísa fazia pipocas de verdade. Colocava o milho numa panela grande e tapava a panela com uma tábua de madeira. Para mim existia um truque de magia no barulho do milho a saltar dentro da panela e a ser impedido pela tampa de madeira de saltar em todas as direcções do fogão e da cozinha. Na minha casa o milho não faz o mesmo barulho, o som é abafado pelo barulho do micro ondas a trabalhar. As minhas pipocas não são mágicas nem vivas como as da minha tia Luísa, que tentavam escapar-se quando lhes tirávamos a tampa. A tia Luísa punha-lhes açúcar por cima  enquanto abanava a panela e as pipocas do fundo ficavam sempre mais doces. As minhas pipocas são doces ou salgadas conforme o que diz a caixa de cartão do Continente.

Às vezes penso que não se pode ser feliz se não tivermos lembranças felizes. Espero que daqui a uns anos os meus filhos recordem com saudade o barulho do meu micro ondas misturado com o do milho a saltar dentro do saco e sorriam como eu sorri hoje ao lembrar-me da minha tia Luísa. Ou que se recordem que os deixo comer as pipocas na sala e isso seria impossível na casa da tia Luísa. Talvez um dia em casa deles seja proibido comer na sala e aí talvez se lembrem de mim a sorrir “a minha mãe deixava”.

Hoje acho que sei qual o segredo das pipocas da tia Luísa, o amor e o tempo que ela lhes dedicava, por serem para mim, por serem para a minha mãe, por serem para nós e pela alegria dela sempre que recebia uma visita nossa. Hoje sou eu que estou a construir as lembranças dos meus e dos amigos que nos visitam e que naquela altura a minha tia Luísa não fazia a mais pequena ideia que passadas 3 décadas eu descobrisse sozinha em casa o segredo do sabor das suas pipocas.

Para ti MÃE, que gostavas tanto que eu fosse contigo visitar a tia Luísa.

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