adiar o inevitável

Ultimamente tenho pensado várias vezes na forma como vivi (vivo) o luto do meu irmão. Acompanha-me há algum tempo a sensação que não vivi na altura certa o expectável face ao grau da dor que acumulava. Não que exista um luto certo ou errado mas recordo-me de um email da minha amiga Joana que explicava a importância de ir abaixo para, aos poucos, passo a passo, conseguir começar a subir. Não falo na forma como a dor se revelou em mim, essa mostrou-se de forma irrepreensivelmente dolorosa, mas na forma como eu não permiti que invadisse a minha vida e os dias que se seguiram. Penso agora que esse caminho – o da aceitação da dor incondicional e desmascarada – teria sido o caminho mais fácil e, talvez, o mais lógico. Como se os dias que supostamente deviam ter sido vividos logo a seguir ao acidente do meu irmão se tenham distribuído de forma aleatória e desorganizada pelos últimos anos. E já são 15.

Tal não era a minha pressa de viver que não soube dividir o meu tempo com a morte. E se ela precisa de tempo. Demorei muito tempo até aceitar que não devemos perguntar porquê mas sim para quê e a verdade é que nada me parecia certo no tempo. O meu irmão só tinha 22 anos, eu só tinha mais 6, o meu filho só tinha 5 meses e eu só tinha este irmão. “Agora não que és tão novo. Agora não que eu preciso tanto de ti. Agora não que o meu filho precisa tanto de mim. Agora não que eu não posso ficar um dia inteiro na cama a chorar-te. E quem dá de mamar? E quem faz o jantar? Agora não que a mãe não deixa, agora não que o pai não quer.” Lembro-me também da responsabilidade acrescida de sentir que tinha de estar bem para apoiar os meus pais. Uma vontade enorme de lhes dar colo e tentar de alguma forma aliviar-lhes o mais possível aquela que é apelidada de dor maior. Nunca quis dilatar a minha dor e nunca acreditei que alguém entendesse os seus limites. Nem sequer eu.

Mas também eu perdi passado, presente e, acima de tudo, futuro, a possibilidade de ser tia de verdade, um confidente sem questionar ou julgar, um tio para os meus filhos, o meu irmão para mim.

Ser mãe salvou-me. Ter a minha família comigo em casa salvou-me. Ter amigos por perto salvou-me. Ser filha segurou-me e aos meus pais amparou, nas dores e nos dias. Nos dias e, sobretudo, nas dores.

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