Na terra da minha avó

No domingo passado fomos a Alcanede. A terra da minha avó Albertina. Sempre que oiço ou digo o nome da minha avó as saudades aumentam. Um nome tão bonito e tão pouco usual.

Fomos desafiados pelo Padre Vicente para darmos o nosso testemunho de família católica. Mesmo sendo um fim-de-semana de recolha quase obrigatória, não tínhamos como dizer que não. Nem queríamos. Para além de que continuamos a sentir-nos seguros para sair os 5 – desde que consigamos evitar contactos de proximidade com outras pessoas, pelo menos nesta fase mais crítica. Mas sentimo-nos seguros para ir a restaurantes, por exemplo. Ainda no domingo almoçámos os cinco num dos restaurantes aqui na nossa zona que tanto gostamos e que habitualmente vamos só os dois. Almoçámos os cinco no Cisco (se não conhecem têm mesmo de ir). Sabem aquele sítio onde tudo corre sempre bem? desde o pão com manteiga, ao vinho, aos filetes com arroz de grelos, ao bife com batatas fritas (ai as batatas fritas) e terminando com um leite creme queimado na hora ou um pudim de abade de priscos? Mas não era nada disto que vos queria contar. E o testemunho que fomos dar os cinco também é cedo para vos revelar.

Fui à terra. À terra da minha avó Albertina – de quem eu tenho tantas mas tantas saudades. E era mesmo assim que a minha avó dizia. “vou à terra”. De cara redonda, sorriso sempre aberto, pelo menos para mim, cabelo branco com carrapito atrás e toda vestida de preto, lá ia ela. E eu ia também. Como se a terra ali fosse outra. E era. Ou pelo menos naquele tempo era. Era no aroma das ruas, no paladar das cozinhas e até nas casas, que tinham tanto de humildes como de aconchegantes pela forma como éramos recebidas. Tios, sobrinhos e primos que vinham de França, Suíça e que, exatamente como nós, só iam à terra em Agosto.

Para ela eram férias de saudades e de aprender a gerir a escolha da casa onde ficávamos a dormir e os ciúmes dos que nesse ano não eram escolhidos. Dividíamos quarto, por vezes cama e tantas gargalhadas. E era um conforto tão bom deitar-me na cama com a minha avó e enrolar os meus pés frios na sua camisa de dormir.

Para mim eram férias de campo, de muitos jogos de cartas e amuos do meu primo Luís que detestava perder ao burro em pé, de bailaricos, de canja com hortelã em casa do primo Toino, do medo que eu tinha do pastor alemão do meu primo Toni.

Por mais recheadas que sejam as memórias a saudade também me traz sempre um sentimento vazio pela certeza que nada dessas memórias voltam a ser presente. E no domingo em Alcanede eu senti esse vazio – e mesmo esta não sendo a melhor altura para visitas – eu fui bater na porta da casa dos primos da minha avó.

Alguns eu não via há muitos anos. Eles nem conheciam os meus filhos… que disparate. Alcanede não fica assim tão longe. Valeu tanto a pena. A alegria deles e o orgulho demonstrado por olhares demorados em mim. Cotovelos e braços que se tocaram a medo na rua, porque não aceitámos entrar, enquanto os olhos ficavam rasos de água. Os mesmos olhos que me recebiam em Agosto quando eu chegava pela mão da minha avó. A mesma mão que agora segura o meu marido e os meus três rapazes. Eles, afastados como os tempos mandam, olharam para a minha família e sorriram.

Também eu sinto que às vezes me falta essa distância para poder ver-me de fora. A mim, a cada um de nós e a nós os cinco juntos como somos, cada um e como somos uns com os outros. A moldura e a fotografia são bonitas. E a essência depende de cada um de nós mas alguma coisa me diz sempre que depende um bocadinho mais de mim do que deles. Isto será de mim? Das mulheres? Ou das mães? Sentir que a maior parte do bem-estar e felicidade da família depende mais de mim do que dos outros.

Impossível não pensar também no quanto a minha avó esteve ali comigo naquela vontade de os abraçar a todos.

“se não fosse esta pandemia sentavam-se já à mesa connosco e só saiam daqui de noite”

Zinho, eu não te disse que seria assim? Vamos voltar?

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