Dorme bem meu amor, amanhã vai ser um dia bom

Com o beijinho de boa noite, que nunca é só um, despeço-me muitas vezes junto à cama de cada um, as três camas lado a lado no mesmo quarto, com a frase “dorme bem meu amor, amanhã vai ser um dia bom”. Resulta melhor com os dois mais novos, para além de serem os que pedem mais beijinhos na cama “oh mãe só mais um beijinho, oh mãe, já está há muito tempo na cama do Kiki, oh mãe, a mãe gosta mais do Zé”, o João prefere esgotar os últimos minutos acordado nas trocas de mensagens, com mais símbolos que palavras, com os amigos que vão ajudar a que amanhã seja um dia bom. Com 12 anos (e muitas vezes a achar que tem 21) são os amigos os mais ouvidos.

Não sou sempre optimista nem tenho nenhum guia secreto para a felicidade que lhes possa deixar secretamente em testamento, mas gosto que adormeçam a acreditar que amanhã vai ser um dia bom e muitas vezes até acrescento “tem tudo para ser um dia bom”. 

O bebé Zé, o mais pequeno dos três e o único que ainda não sabe ler, pede muitas vezes para lhe contar uma história sem livro. O Kiki também gosta de ouvir, o João de vez em quando levanta os olhos do ecrã do telemóvel. Gosto de lhes contar as minhas conquistas e também os meus medos. Falo-lhes de vitórias e também de derrotas. Conto-lhes coisas que me aconteceram e que me deixaram triste. Quero que percebam que não há mal nenhum em ter medo, ser derrotado e ficar infeliz com isso. É importante que percebam que infelicidade e felicidade existem e que a balança nem sempre desequilibra para o lado que mais gostaríamos.

Os meus filhos, e julgo que as crianças no geral, não gostam muito de falar sobre o seu dia, ou pelo menos não gostam de responder às questões que os pais lhes colocam. Não sei bem se não gostam ou se é o cansaço que lhes rouba a disponibilidade para a conversa. Lá em casa jogamos muita vez o jogo do melhor e do pior do dia. Ao jantar, um de cada vez tem de contar o que de pior e melhor aconteceu naquele dia. Começamos sempre pelo pior. É muito giro ouvir a simpicidade das respostas. Por vezes o almoço da cantina da escola foi o melhor do dia para um e para outro o pior. São respostas simples mas que muitas vezes resumem bem o dia de cada um. Gosto quando respondem que o melhor do dia foi ter almoçado com a mae, ou que foi estarmos os cinco sentados juntos a jantar, o que felizmente acontece quase todos os dias.

Eu e o pai também jogamos, embora eu fique sempre com a sensação que somos os menos honestos no jogo. Nunca partilhamos nada de muito mau do nosso dia, e e no melhor do dia gostamos sempre de mencionar algo que inclua os cinco. Somos os que damos as respostas mais repetidas e com menos graça. Este jogo, para além de nos permitir aos cinco ficar com um bocadinho do dia de cada um, serve também para fazermos uma avaliação do mais e do menos importante. E quase sempre o que de menos bom aconteceu, à hora do jantar os cinco em redor da nossa mesa, já não é assim tão mau.

Quero acima de tudo que sejam felizes. Troco facilmente os resultados dos testes pelos sorrisos ao fim dia confiante que a felicidade  é sempre a maior de todas as conquistas. Peço-lhes que partilhem com quem tem menos, que denunciem quando algo de mal se passa à volta deles e que o dia de amanhã deve ser bom para eles mas também para os outros que estão próximos e que isso depende sobretudo deles.

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