Mãe, como foram os anos na Universidade?

Esta semana fui numa viagem de trabalho a Faro. Faro, a cidade que me acolheu durante os 4 anos que estudei Turismo na Universidade do Algarve. Já tinha este texto, exactamente com este título, em rascunho há uns meses. Um dos meus filhos fez-me esta pergunta há uns tempos e eu estou desde aí para escrever sobre a resposta incompleta que lhe dei: “mãe, como foram os anos na Universidade?”

Acho que na altura encolhi os ombros e respondi tentando não parecer demasiado entusiasmada: “foram bons”. Mas também me pareceu demasiado injusto a resposta face a tamanhas façanhas e acabei por acrescentar: “muito bons. Foram anos muito bons”. Sabem como é contar uma coisa a alguém que não teve a mesma experiência que nós? e acho que basicamente é isso. Os anos da Universidade só dá mesmo para falar com os que estavam lá, naquela altura connosco e sobretudo, com os que ainda se reúnem connosco hoje (quase) da mesma forma.

De ombros encolhidos, testa e nariz franzidos, enquanto respondia ao meu filho (não consigo ter a certeza qual é que me fez a pergunta mas quase de certeza que foi o Kiki, esta pergunta – como quase todas – é mesmo o tipo dele) como foram bons esses anos, piscavam na minha memória imagens nítidas de recordações, das quais a maior parte não posso partilhar aqui. 

Vivi sempre com as mesmas amigas. Dividi quarto sempre com a mesma amiga. Desde o dia em que o meu pai foi comigo de Santarém até Faro fazer a matrícula. Vimos apenas um quarto que os pais da Mónica já tinham visto e aprovado. O meu pai gostou e aprovou. Eu não me lembro de quase nada desse dia a não ser o ter a sensação que o meu pai só queria fazer a viagem de regresso a casa o mais breve possível. Querida Mó: não sei se alguma vez te disse, mas na altura a minha ideia era mudar e procurar um quarto só para mim. Nunca o fiz. Aliás, até paguei a mensalidade do quarto durante Erasmus para não o perder. Nessa casa, nesse quarto, vivi três anos. Saí para 5 meses em Helsínquia e voltei para Faro, para outra casa, mas para as mesmas amigas.

Durante esses 4 anos fomos família. Trocámos lágrimas e alegrias, partilhámos roupas e quase fizemos magia. Tantas noites que viraram manhãs, tantas latas de cogumelos e pacotes natas transformados em banquetes, tantos pratos sujos na cozinha, tantos brindes com o último golo da garrafa. A minha Paula dos Açores, que nunca tinha visto tanta marca de iogurtes, (estávamos em 1995! e os Açores eram bem mais distantes que hoje em dia), a minha Hélia, que nunca viveu na mesma casa que eu mas que foi como se vivesse e foi ela que ocupou o meu lugar no quarto quando eu saí. A minha Xana. O meu Fazenda. A minha Anita. A minha Marta, a minha Teresa, a minha Carla Ivone, a minha Mónica, a minha Ana. A minha Sílvia. E hoje, ainda minhas, e os filhos delas, meus também.

Tive sorte. Tanta sorte. Quase morri de (des)amores. Tive de esperar até ao último dia de aulas – 17.07.99 – para encontrar o amor que me iria tirar o ar. Ainda hoje é todo o ar que eu respiro. Já passaram 20 anos. Mais de 20 anos desde que aí cheguei. Quase 25. Os nossos risos continuam iguais quando se encontram. Que saudades vossas, miúdas. Não imaginam a falta que me fazem.

Eu sou de lugares, sou de sol, sou de luas (ui, se sou de luas!) e paisagens. Mas sou sobretudo de pessoas. E pelas pessoas. Há quem diga ser um cidadão do mundo, pois então eu sou uma cidadã das pessoas do mundo. Troquei a região algarvia por um coração ribatejano e não mudava uma linha desde então.

Esta segunda-feira almocei com a minha Hélia junto à mesma esquina onde tanta vez nos encontrámos para fazer o caminho até à Penha, campus de Faro da Universidade do Algarve. Este sábado vou de viagem para aquela que é considerada a maior feira mundial de vinhos. Vou dividir quarto com a Marta, a minha companheira de carteira de toda a escola primária. A minha primeira melhor amiga. De dia vamos estar no mesmo pavilhão mas em stands concorrentes. À noite vamos voltar a estar sentadas na sala de aula da Professora Clélia na Escola de Salvador. As duas. Lado a lado.

Quão deslumbrante pode ser esta maravilha de se estar vivo e querer fazer por ser e acontecer?

nota: as histórias dos anos na Universidade vão ter de ficar para outro dia. Mas tenho, recentemente, constatado que alguns dos maiores pulhas da minha Universidade têm hoje empregos fantásticos – o que me deixa todo um caminho de esperança em aberto para a enorme pulhice dos meus filhos.

Esta semana na Ilha de Faro

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