Toquei à campainha da minha casa e espreitei…


Não é vista mar… mas ainda assim, é uma vista bonita

Toquei à campainha da minha casa e espreitei. Espreitei pela tampa da caixa do correio. Na verdade não é bem uma caixa do correio, é só a tampa numa porta verde e antiga (muito mais bonito dizer antiga que velha). Não há caixa. As cartas caem directamente no chão do patamar da entrada. Caem também as revistas de publicidade do supermercado e cai a minha revista de eleição, que ficou recentemente sem a presença tão querida do A L Antunes. Felizmente ainda mantém o Ricardo.

Toquei à campainha e espreitei para dentro da minha casa. Vim buscar os miúdos para um treino e não entrei, como habitualmente faço, com o comando pelo portão. E gostei tanto do que vi. Vi os azulejos antigos até metade da parede numa casa que eu nunca imaginaria como minha. No dia em que recebemos da câmara municipal o OK da aprovação do projecto para uma casa nossa construída de raiz soubemos que esta estava à venda. E foi amor à primeira visita. Deixámos o nosso T3, onde nasceram os nossos 3 filhos, com a promessa da vontade de, aqui, continuarmos a nossa história e a história dos nossos.

Levantei a tampa metálica onde se colocam as cartas do correio, as revistas de publicidade e a minha revista de eleição, e gostei tanto do que vi. O primeiro a aparecer foi o Zé e logo a seguir o Kiki. O João não estava em casa, com 13 anos, 14 daqui a 4 dias, é de nós todos o que actualmente passa mais tempo fora de casa. Mas tenho a sorte, temos todos, de ainda passar, mesmo que pouco, tempo de qualidade connosco. Aceita beijinho de despedida e abraço de chegada à porta da escola. Enrosca-se a mim no sofá, muitas vezes à procura de um bocadinho de colo disponível.

Quando nos mudámos para esta casa o bebé Zé era mesmo bebé. Na altura achei que devíamos ter mais um filho nesta casa. Não aconteceu. Mas aconteceu o acaso de encontrarmos nesta casa a história duma família com 3 filhos como a nossa. Uma casa cheia de histórias e onde hoje vivemos a nossa.

Quando a porta verde antiga (e velha, muito velha) se abriu, consegui ver também na sala a luz que entrava do jardim que o pai tão orgulhosamente cuida. E que tanta gente lhe tem perguntado “como arranjas tempo para ainda cuidar do jardim?” ao que ele, quase sempre, responde: “gosto muito”. Tão simples assim, simples como toda a gente sabe e tanta vez se esquece. Quem gosta, cuida. Faz por fazer. Assim só porque gosta. Haverá coisa mais simples que cuidar e gostar?

Encostei-me à porta, curvei-me até ter os olhos à altura do buraco onde entram as cartas, as revistas e a publicidade. Espreitei e gostei tanto do que vi. Vi-me a mim. Vi, em poucos segundos, a vida que construí. A minha e a que eu, todos os dias, escolho viver e faço por acontecer. Não vi o meu passado. E muito menos o meu futuro. Vi a minha vida ali. Naquele instante. A vida que eu não sonhei nem planeei mas que, quem sabe, secretamente, desejei. E gostei tanto do que vi.

Não é vista mar… mas ainda assim, é uma vista bonita.

Os cinco.


2 thoughts on “Toquei à campainha da minha casa e espreitei…

  1. Ola!!! Escreves tao bem….adorei
    O ultimo parágrafo podia ser escrito por mim ( se eu soubesse escrever assim 😉) “A vida que eu não sonhei nem planeei mas que, quem sabe, secretamente, desejei. E gostei tanto do que vi. ” bjhos do norte e tudo de bom 😘

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